COM FRAGMENTOS TAIS FOI QUE ESCOREI MINHAS RUÍNAS Vai aí um trecho de um ensaio autobiográfico que escrevi há alguns anos. Nele falo sobre uma das casas fundamentais da minha história, a casa da tia Emma. Recentemente minha prima Marianne me mandou fotos do interior da casa e achei notável como minha memória era nítida a respeito de todos seus detalhes. (O que a narração postada aqui, aliás, demonstra.) A casa, construída em meados dos anos 1960, foi vendida em 1981. Por razões nunca de fato esclarecidas, a construtora Adolpho Lindenberg não a demoliu e não fez um prédio no terreno. A casa foi deixada semiabandonada por mais de vinte anos até que, já em ruínas, ou desabou ou finalmente foi posta abaixo.
RUA CUBATÃO, 287, GUARUJÁ Digo que a casa onde estamos passando férias, nesse mês de dezembro de 1980, foi construída na encosta do morro que divide as praias de Pitangueiras e Astúrias. Que foi nosso tio-avô, o Alaor, quem a construiu. Que o tio Alaor era delegado aqui no Guarujá e morreu em 1969, dois anos antes de eu nascer. Que meu primo Christian quando era pequeno via o fantasma dele, sempre carrancudo, sentado numa poltrona com o estofado de vinil verde fosco, poltrona que fica numa das três salas aqui da casa. Que chamamos ainda hoje essa poltrona de cadeira do tio Alaor.
E que a casa, que meus primos, eu e meus irmãos chamamos agora de casa da tia Emma, tem muitos objetos que pertenceram ao Grand Hotel La Plage, um hotel aqui no Guarujá que ficou célebre por ter sido o lugar onde o Santos Dumont cometeu suicídio, em 1932. Digo que o hotel foi demolido no início da década de 1960 e que boa parte dos lustres, mármores e corrimões aqui da casa pertenceram a ele.(Acrescento que meus primos, meus irmãos e eu também costumamos dizer que umas tubulações gigantes instaladas na Serra do Mar, que pertencem a alguma indústria de Cubatão, são o escorregador da tia Emma.)
Digo que duas portas dão acesso ao interior da casa – uma porta balcão, na frente, que se abre para um jardim de uns cem metros quadrados onde há, entre outras coisas, uma réplica da Vênus de Milo, e uma porta gigante, de ferro fundido e vidro, na parte lateral.
Digo que essa porta lateral, que tem mais do que o dobro da minha altura, é toda ornamentada e que há no que talvez seja o centro desse conjunto ornamental os monogramas A e E justapostos (Emma e Alaor).
Digo que entrando por essa porta lateral dá-se de frente com uma escadaria em L, larga, feita com mármore e corrimões de bronze. Que à direita há um banheiro e uma mesa com o telefone, cujo número é 86-4601. E que à esquerda entra-se numa das salas, ou melhor, num dos três níveis da sala. Digo que ali estão dois sofás, uma mesa de centro cheia de enfeites (uma caixa de prata que chamamos de o caixão da tia Emma), uma lareira falsa, um velho ventilador Walita.
Digo que uma mesa redonda, onde há um abajur, um isqueiro de mesa, um ferro de passar roupa antigo com compartimento para colocar brasa, digo que essa mesa redonda separa essa primeira sala da outra, onde estão a cadeira do tio Alaor, um pufe de couro, a tal porta-balcão que dá para o jardim, um bar feito em alvenaria, sobre o qual há uma garrafa sifão e atrás do qual há um rádio antigo, valvulado, que não está funcionando. Digo que também é nessa sala que estão a maior parte dos quadros da minha tia. Digo que o quadro que mais me chama a atenção é uma pintura que retrata uma bailarina e um arlequim que, deprimido, apoia os braços num violão. Digo que esse quadro é claro e luminoso, e que talvez tenha sido pintado por um parente nosso que teve de abandonar a carreira artística porque ficou cego.(Digo que o nome desse parente é Fredi Keller. Que toda família é assombrada por certos personagens obsessivos, ainda que a presença obsessiva desses personagens seja meramente nominal. Que, aliás, essas presenças obsessivas quase sempre são meramente nominais. Digo que Fredi Keller é um desses nomes que, de tanto ser repetido por certos parentes meus, acabou adquirindo para mim uma densidade e uma presença quase corpórea. Enumero outros personagens-parentes que sempre ouço ser mencionados, nomes já devo ter ouvido minha família dizer incontáveis vezes, embora nunca tenha visto esses parentes pessoalmente: as Primas da Lélia; a Carminha; a Maria do Carmo. Digo que Carminha e Maria do Carmo talvez sejam a mesma pessoa. Ou talvez não sejam.)
Continuo dizendo: “Virando-se à direita, a partir desse nível da sala, e subindo-se dois degraus chega-se à sala de jantar, cujo piso é de tábuas corridas.
No fundo da sala de jantar, à direita, está a porta da cozinha. A cozinha tem vitrôs em toda sua extensão e é uma das únicas partes da casa em que se vê claramente que a casa é uma construção dos anos 1960, por causa dos azulejos azuis e da fórmica das portas e dos armários”. E mais: “No fim da cozinha, à esquerda, há o acesso à área de serviço e ao quarto da empregada (onde uma vez o já então ex-presidente Jânio Quadros, amigo do meu tio, passou uma noite desacordado, recuperando-se de uma, dããããã, bebedeira). Há também ali o acesso a um quintal, um conjunto formado por viveiros abandonados e decrépitos, vegetação nativa e um tanque de água”. (Digo que quando eu for ler, daqui a dezesseis anos, os Four Quartets do T. S. Eliot, e o tanque inundado pela água da luz solar, reconhecerei nesse verso o tanque do fundo da casa da tia Emma.) Digo que caminhando para a direita pelo quintal do tanque chega-se a uma escada que leva a uma espécie de platô, construído em dois níveis, ali, escavado no meio da Mata Atlântica.De volta ao interior da casa, agora no segundo pavimento: um corredor que forma um quadrilátero que percorre toda a extensão da casa, dando acesso a uma varanda, ao quarto da minha tia e a outro corredor, onde estão os quartos de hóspedes, um banheiro, uma espécie de closet e uma estante de livros.
Digo que na parte de cima dessa estante há um capacete da Força Pública, um capacete enferrujado do M.M.D.C. e uma bomba, também enferrujada e desativada. (Afirmo que o tio Alaor, assim como meu avô Waldemar Haak, foi combatente na Revolução de 32.) Digo que a mobília desses quartos de hóspedes, formada por camas e armários escuros, antigos, opressivos, obviamente faz parte do espólio do Grand Hotel. (Também digo que esses móveis todos me parecem irrevogavelmente contaminados com expectorações antigas, de 1926, com bacilos de Koch resistentes à estreptomicina, com febres noturnas e hemoptises fatais.)
Digo que o banheiro, por sua vez, tem um clima totalmente diferente: azulejos cor-de-rosa com enfeites de gesso em alto-relevo, cavalos-marinhos, estrelas-do-mar, ondulações simbolizando a água, etc. Um baú cheio de jornais velhos, a maior parte A Tribuna de Santos. (Digo que o outro banheiro aqui do segundo andar, que fica dentro do quarto da tia Emma – a suíte – é quase igual a esse, só que ele tem uma banheira e os azulejos são verde-água.)Digo que a casa da tia Emma tem um cheiro peculiar que daqui a uns vinte anos irei identificar ao casualmente levar ao nariz a tampa de uma garrafa de tequila.
Digo que notarei que o cheiro que fica impregnado naquele pequeno círculo de cortiça do interior da tampa da tequila José Cuervo tem exatamente o cheiro dessa casa.
Digo que os sons da casa da tia Emma são os sons de nossas vozes e passos reverberados nesse espaço inabarcável de salas em três níveis, pés-direitos de mais de três metros, madeira, mármore, bronze, e também os sons noturnos da fauna presente no morro, grilos, sapos-martelo, folhagens e água escorrendo para o tanque. (Digo que daqui a seis anos, quando eu ouvir a introdução de Close to the Edge, do Yes, a acharei muito semelhante aos ruídos noturnos do fundo da casa da tia Emma.) Digo que a televisão da casa, a única, é uma prosaica General Electric, portátil, em preto e branco, um objeto que mal usamos, pois a recepção do sinal de TV é péssima aqui no Guarujá, em 1980.
(A quem interessar possa, o ensaio autobiográfico completo.)
https://archive.org/download/memorando-eduardo-haak/Memorando%20-%20Eduardo%20Haak.epub
09/06/2026










