09/12/2017 Estou na inauguração de um rooftop no Bom Retiro. O rooftop foi montado no terraço da antiga fábrica da Fiorucci, na Rua Cesare Lombroso, ex-Rua Itaboca, rua que até o início da década de 1960 abrigou a zona de prostituição de São Paulo. (Os frequentadores da zona, depois que faziam o que tinha de ser feito, iam a um lugar ali próximo fazer profilaxia; a profilaxia era feita com uma cânula que injetava permanganato de potássio na uretra.) As pessoas que estão na inauguração têm em média trinta anos; há um palco a uns cinquenta metros de onde estou, do qual não me aproximo; parece que há nele um cantor e um DJ; num telão estão sendo projetadas imagens barrocas-tropicalistas, pés de maconha, etc. (Vi outro dia um vídeo-arte que mostrava o artista empunhando uma réplica de uma pistola 9 mm feita de gelo.) O chão do rooftop é pintado de azul com faixas vermelhas; essa parte da decoração, parece, é alusiva a um filme daquele diretor, Lars esqueci o resto do nome. Outra parte da decoração são uns caixotes gigantes, parecidos com contêineres. (Não sei por que me vem à cabeça a imagem de um volante de bingo, cheio de furos, que vi nessa tarde, largado sobre a mesa de um café na Rua Augusta.) Vou comprar um refrigerante e observo uma mulher que está acompanhada de um rapaz que está usando uma camiseta que tem alguma coisa escrita, acho que em turco, e cujo cabelo está preso num coque. Termino o refrigerante, pego o elevador e desço ao térreo. Leio a mensagem que chegou ao meu telefone, um SMS, não tenho whatsapp, meu aparelho é um Huawei fabricado em 2010. A rua está sem iluminação nos postes e por isso está sinistra e ameaçadoramente escura. Outra mensagem chega, então vou até um dos carros estacionados, um que está com os faróis acesos, e tento ver quem está dentro. Vejo apenas um vulto, então ela abre a porta e vejo que é ela e entro no carro e lhe dou um beijo e escorrego o rosto para sua nuca e a cheiro e ela ri. Ela pergunta, aonde a gente vai?, e eu digo, não sei, você escolhe.
ALGUMAS MÚSICAS EM ALGUMAS CIRCUNSTÂNCIAS: SEASONS OF WITHER, AEROSMITH, FEVEREIRO DE 1993 Estou no final da Rua Cerro Corá, já perto do Cemitério da Lapa. Estou indo trabalhar. O rádio do meu carro – um Passat LS, 1983 – começa a tocar uma coisa que é uma mistura de som de plateia de show de rock com som de vento. Um dedilhado de violão surge. Julgo reconhecer esse dedilhado. Sim, é aquela música do Aerosmith de que o Lobão fez uma versão, Moonlight Paranoia. Pego a entrada para a Diógenes Ribeiro de Lima e estaciono o carro. Fico ouvindo a música até que ela termine. (Sinto-me absolutamente impossibilitado de fazer qualquer coisa que não seja ouvir essa música, e só ouvi-la, até que ela acabe.)
SOLITUDE STANDING, SUZANNE VEGA, EM ALGUM DIA QUENTE E SECO DO SEGUNDO SEMESTRE DE 1987 Estou sozinho em casa, meus pais e meus irmãos foram viajar. Vou tomar banho e ligo o rádio antes de entrar no box. Então essa música da Suzanne Vega toca no rádio e só catorze anos depois, em 2001, conseguirei expressar as sensações desencadeadas por essa circunstância (um dia de ar seco e clareza radiante, a música da Suzane Vega, eu praticando uma ação intranscendente como tomar banho, eu com dezesseis anos, eu sozinho no meu apartamento, etc.), num texto ficcional chamado As Primeiras Horas do Dia 11 de Janeiro de 1987.
HEATHER, BILLY COBHAM, JANEIRO DE 1989 Acordo no meio da madrugada quando essa música começa a tocar no rádio. A música é assim: uma longa nota gerada por um sintetizador modular, acordes suspensos (nem maiores, nem menores) tocados num piano Fender Rhodes. Apesar da baixa qualidade do áudio (a música está sendo transmitida numa estação AM, num programa chamado Jazz & Cia), levanto-me, pego uma fita numa gaveta e começo a gravá-la. E, apesar da delicadeza da música e do torpor do sono, estou tomado por aquela agitação que nos dá quando finalmente nos ocorre algo que esperávamos mesmo que fosse nos acontecer, mas que demorou muito para acontecer, e que aconteceu de forma imprevista.
HASH PIPE, WEEZER, JUNHO DE 2004 Estou na Funhouse, na Rua Bela Cintra, numa madrugada fria e chuvosa. Estou sentado num banco alto, esperando que alguma coisa aconteça. De certa forma forço minha presença ali, num lugar onde as pessoas são, em média, dez anos mais jovens que eu. Uma música começa a tocar na pista e vou até lá. A pista é um cenário lynchiano (foi o Hique Gomez, do Tangos & Tragédias, com quem fiquei batendo um papo outro dia aqui na Funhouse, quem me chamou a atenção para o caráter lynchiano desse espaço, com seu piso quadriculado e sua cortina bordô). A música que chamou minha atenção agora se chama Hash Pipe e é de uma banda chamada Weezer. O que eu espero que me aconteça?
BLUE SKY MINE, MIDNIGHT OIL, AGOSTO DE 1990 Estou andando pela Pompeia, numa noite quente cheia de insetos. Estou matando aula da faculdade. Estou com dezenove anos e venho tendo a sensação de que coisas absolutamente extraordinárias estão prestes a me acontecer. Ando com um aguçado senso das correntes profundas da minha história pessoal. Há, é claro, uma poderosa presença-ausência feminina que catalisa esse processo todo. A música, evocada, que embala esse meu clipe narcísico, nessa noite cálida de agosto de 1990, é Blue Sky Mine, do Midnight Oil.
GIRL GONE BAD, VAN HALEN, MAIO DE 1984 Acordo com os harmônicos da guitarra do Eddie Van Halen na introdução de Girl Gone Bad. Ontem fui à festa de quinze anos da irmã de um amigo. Saímos da festa quase cinco da manhã. Abro os olhos e vejo um reflexo quase espelhado do trânsito da Rua Renato Paes de Barros projetado no teto do quarto. Não tento entender a lógica dessa projeção (como?) e retardo ao máximo o momento de começar a falar porque já sei, aos treze anos, que a fala tem o poder de dissolver praticamente todas sublimidades.
ROADS, PORTISHEAD, MARÇO DE 2008 Estou na Funhouse e sou agarrado por uma linda mulher que me dá um beijo violento que quase arranca minha língua fora. A música que está tocando no jukebox é Roads, do Portishead. Preciso olhar essa cena com algum distanciamento e interrompo um dos ataques da moça. Fico olhando para ela, depois fixo minha atenção na música, e depois digo alguma coisa para ela e ela ri e sorri ao mesmo tempo.
LOVE IS THE STRANGEST WAY, ANDY SUMMERS, DEZEMBRO DE 1991 Estou no Guarujá. Estou passeando de carro pela Praia de Pitangueiras. Meu carro é um Escort XR-3, 1988. Estou ouvindo uma fita e fico voltando a faixa Love is the Strangest Way, do Andy Summers, o ex-guitarrista do The Police. Estou pensando numa mulher que vi ontem, tomando sol na praia, e que ao vê-la pensei na capa de um velho disco dos Rolling Stones, uma coletânea chamada Made in Shade, que mostra uma mulher tomando sol num deserto. (Alguns anos depois redefinirei a cena, dizendo que ela parecia um quadro do Eric Fischl.)
SERIOUS, DURAN DURAN, NOVEMBRO DE 1995 Estou subindo a Rua Mourato Coelho, na Vila Madalena. Estou indo ao bar Olívia. Estou indo me encontrar com uma mulher com quem eu tenho uma longa e complexa história. O rádio do meu carro – um Monza SL/E, 1988, azul cobalto – começa a tocar Serious, do Duran Duran. Ouvir essa música, nesse momento, me dá uma potente e incontornável sensação de otimismo, me dá a certeza pueril-juvenil de que tudo dará certo, hoje, amanhã, sempre.
09/03/2026
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
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