POSSUÍDAS PELO PECADO, JEAN GARRETT, 1976 Benjamin Cattan, no maior pileque, arremessando uma garrafa de uísque num chiqueiro para que Helena Ramos, alcoólatra, se jogue lá, embebede-se, chafurde com os porcos. Antes disso Helena já havia beijado os pés do patrão e feito um strip-tease, tudo em troca de uns goles. Etc., etc. No mais, um monte de agregados, uma mulher que trama a morte do marido com o motorista-amante, peripécias, comédia de erros (o filme é notavelmente engenhoso nesse sentido, apesar do final capenga). Cattan (mistura do Ron Jeremy com o Teixeirinha) tem aquela euforia amarga de quem sabe que tudo, no final das contas, é inútil. Trate as coisas de acordo com o que elas são, chame-as por seus devidos nomes. Você vai dar umas boas risadas no durante, embora nada disso garanta que você vá rir no final.
TCHAU AMOR, JEAN GARRETT, 1982 A mulher, para o homem, é sempre uma promessa e uma ameaça. (Uma janela aberta para o infinito, a senha do motim, etc., etc.) Angelina Muniz ao mesmo tempo conjura pela ascensão e pela queda de Antonio Fagundes. (Luz e sombra ou: tá no céu-inferno?, abrace o Abraxas.) E o que mais? Ah, a Selma Egrei, logo ali, espiando pela janela, indo a cartomantes, fazendo uma irrepreensível mulher do lar modelo 1982. Boba e ingênua, sim, mas mulheres bobas e ingênuas também impetram ações de divórcio. No mais, a calidez turva que irradia de qualquer registro audiovisual daquela época, a crepitação intensa que antecede certos colapsos, o paroxismo antes do fade out. (O prédio onde a Angelina mora no filme fica na Rua Manuel Guedes, 135, Itaim Bibi, São Paulo.)
O FOTÓGRAFO, JEAN GARRETT, 1981 Roberto Miranda tentando falar difícil, desajeitado com as palavras, impressionado com o palavrório da aluna de sociologia da USP, Aldine Muller (com um hilário visual Simone sapatona 1980), por quem ele está apaixonado. Pé de chinelo demais esse Roberto Miranda, não dá pra crer, de jeito nenhum, que ele é um fotógrafo famoso. (Bem, talvez os fotógrafos famosos daquela época no fundo fossem uns cafonas e eu é que não sei.) No mais, belas mulheres (Alvamar Taddei, etc., etc.) estimulando nosso voyeurismo escopofóbico. Destaque para Meiry Vieira, que, fazendo uma madame que quer, pffff, aquela velha história, libertar a puta que há dentro de si através do mago com sua teleobjetiva de condão, Meiry fica uma delícia de se ver. Destaque também para a Patrícia Scalvi, que dá um show como a assistente pseudofeia do fotógrafo.
A MULHER QUE INVENTOU O AMOR, JEAN GARRETT, 1980 Aldine Muller está a cara da Greta Garbo nesse filme. Ou melhor, fica a cara dela. Sim, há uma transição em Aldine, de mocoronga bonitinha para Greta, Pigmalião etc., etc., transição promovida pelo Rodolfo Arena, que entra na história como coronel da moça. Arena, septuagenário, fumando que nem uma chaminé (morreu de enfarte antes de o filme entrar em cartaz), é um sujeito meio, hum, ambíguo. Mimetiza conjunções carnais com a moça de modo caricato (ainda que impotente, poderia usufruir da intimidade de Aldine de modo não caricatural). Mimetiza um cantor de ópera, todo afetado e trejeitoso, tendo uma Aldine se segurando para não gargalhar como plateia. Dá de presente para a amada um pôster emoldurado de um ator de novelas de quem Aldine é fã, a despeito das correções que ele aplica o tempo todo à cafonice suburbana dela. (Aliás, o filme é exemplar em retratar o fetichismo pequeno burguês por cultura elevada, bom gosto, música clássica, ópera, etc., etc.) Querem mais? Arena leva a amada a um desses shows de boate em que um sujeito barbado vestido de noiva dubla bela e radiante vai a noiva. Ou seja, o velhote provavelmente é uma bicha enrustida vivenciando o feminino de um monte de formas indiretas. De qualquer forma, Aldine acaba pegando gosto por essa coisa de supostamente desmascarar os homens. Arena, como vimos, dispensa qualquer ação dela. O ator de novelas (de quem ela acaba se aproximando) é bissexual mesmo, nem dá muito trabalho. O Roberto Miranda, exausto depois de um mísero primeiro round na cama com Aldine, é xingado de frouxo, veado, etc., por ela e, todo frágil, vai chorar no banheiro (mulherzi-nha!, mulherzi-nha!). E por aí vai. João Silvério Trevisan teve algum papel autoral no filme (não me lembro exatamente qual), o que explica essa infiltração do camp no universo garrettiano.
É isso aí, pe-pessoal.
22/04/2026