OUVIDORIA In a silent way, Miles Davis.
O SEGREDO DA DAMA Nunca soubemos se O Segredo da Dama era ou não uma maison de tolérance. A casa ficava na Renato Paes de Barros, 519, ao lado do prédio da Mírian Lane. Mírian foi morta a tiros, em frente ao prédio, numa tentativa de assalto no começo de 1984. Uma vez consegui dar uma espiada no Segredo, a porta estava aberta. Vi uns panos de cetim pendurados no teto, almofadões, espelhos.
BOÉCIO ERA UM BEÓCIO? Na eternidade teremos a posse plena e simultânea das coisas todas que o tempo produziu. Posse plena e simultânea, beleza, mas isso teria de coexistir com estruturas sucessivas (começo, meio e fim, antes e depois), senão o Costinha, morto eppur si muove, não teria como contar suas piadas, como aquela do cearense que dá uns cascudos num judeu, por exemplo.
ESCOLA PANAMERICANA DE ARTE Sensacional que tenham conseguido o tombamento do prédio da EPA, na Avenida Angélica. É bom ver empreiteiras e construtoras levando no rabo às vezes. Agora a batalha é pelo prédio da Ford na Rua Sólon, Bom Retiro. Nessa coisa de tombamento de imóveis antigos sou totalmente de esquerda, esquerda radical. (O Marronzinho, candidato a presidente em 1989, dizia que, se eleito, proibiria por seis meses o funcionamento de bancos privados, etc., etc.) Em transportes eu também sou, de esquerda. Tem que ter transporte público barato, abundante e de qualidade. Acho que carro particular deveria sofrer restrições severas, como os cigarros (adesivos colados no vidro, dirigir mata, com fotos de pessoas mortas em acidentes, atropelamentos, etc., etc.). Em matéria de relações de trabalho, também, sou de esquerda. Basicamente, nem um direito a menos. Neguinho tem de ganhar bem, comer direito, morar em lugar bonito, poder ocupar seus dias da maneira que achar mais proveitosa. (A pobraiada precisa deixar de ser ingênua e aprender na prática que comprar coisas, ter coisas, não livra ninguém do taedium vitae. Ou seja, os pobres precisam aprender que a precariedade e a insuficiência são basais na experiência humana, não é coisa só de desigualdade social.) (V. Quanto vale o show?, Racionais MC’s.) Em usos e costumes sou liberal radical. Se o cidadão quiser fumar maconha e depois ir nadar na caixa d’água do prédio (e acabar cagando na caixa d’água, como fez uma vez um maconheiro contumaz no prédio da minha tia Gylka), acho que a polícia não tem nada a ver com isso. (Mas acho que os condôminos têm a obrigação de dar uns tabefes no maconheiro e depois obrigá-lo a beber os mil litros da água com merda.) No mais, num monte de coisas sou de direita. Acho, basicamente, que cuzão tem de ser chamado de cuzão. Acho que os assassinos da Mírian Lane deveriam ter sido pendurados pelo saco e expostos a uma matilha de cães fila que estivessem há quatro dias em jejum. (V. Cadeia Nacional, com Luís Carlos Alborghetti.) Acho que a cultura de esquerda, seus símbolos, seu sistema de cancelamentos e recompensas, seus totens (“Chico entende a alma feminina como ninguém”, etc., etc.), é brega, autoritária e middlebrow. (Dá-lhe, Trump, bote a escória castrista pra fora de Cuba! E bote sua escória no lugar!) E acho que o humor é nosso tribunal de última instância (vão por mim, tenho 55 anos, posso falar por experiência: nessa vida tudo falha, tudo colapsa, tudo vai pro brejo, menos o chiste).
DONA LÉA FEZ PERMANENTE NA CAVEIRA DE CHINESINHA Vamos com o Eduardo Gordinho ou Yoplait ao O Segredo da Dama. Estamos em 1984, temos treze anos, mas estamos em 2026 e temos cinquenta e cinco (o André tem onze, mas tem cinquenta e três). Eduardo Gordinho ou Yoplait bebe cinco copos de um coquetel feito com pinga e Yoplait de chocolate e fica bêbado (aos treze anos) e entra em estado hiperglicêmico grave com alucinações (aos cinquenta e cinco, porque diabético, como todo gordo acaba ficando) e começa a contar um monte de piadas do tempo da quinta série: se você estivesse amarrado num poste e a Xuxa chegasse pelada e começasse a esfregar a xereca na sua bunda, o que você gostaria de ter na bunda?
Etc., etc.
28/05/2026