ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

NA ETERNIDADE TEREMOS A POSSE PLENA E SIMULTÂNEA DE TODAS AS CAGADAS QUE FIZEMOS NO TEMPO Um determinado tempo, uma determinada época, só tem caráter (zeitgeist) e densidade ontológica por causa do peso maciço e compressivo do real, com todos seus contrastes radicais entre possibilidades e impossibilidades, com todos seus riscos e ameaças, com todo o passado que ainda age sobre todo e qualquer presente. Portanto, um determinado ano (digamos que 1982) que visitamos, que atravessamos como habitantes do eterno (na eternidade temos a posse plena e simultânea de tudo que o tempo produziu, etc.), esse ano não será propriamente 1982, pois não será experimentado com o risco existencial que pesava sobre todo ser humano que de fato estava em 1982.

NA ETERNIDADE TEREMOS A POSSE PLENA E SIMULTÂNEA DE TODAS AS CAGADAS QUE FIZEMOS NO TEMPO O caráter de um tempo na verdade é obscurecido e distorcido pelo peso maciço e compressivo do real. O que há de verdadeiro num determinado tempo (1982) é aquilo que momentaneamente escapa da opacidade opressiva das necessidades desse real (nec cedere) e que vemos momentaneamente em vislumbres. A memória fixa justamente essas partes, as de fato ontologicamente significativas de uma época. Na eternidade, portanto, veremos pela primeira vez um determinado tempo (1982, digamos) em sua plenitude, veremos como uma promessa cumprida, realizada, algo que quando estávamos no 1982 temporal apenas vislumbramos brevemente como promessa, promessa apontada para nossa plenitude futura.

OUVIDORIA Morton Feldman Early Piano Works, Steffen Schleiermacher, 2003.

OS BRUTALISTAS TAMBÉM AMAM Entro pela primeira vez no Edifício e Galeria Califórnia, Rua Barão de Itapetininga, 255. O prédio é do Niemayer e tem um mosaico de Cândido Portinari na recepção. Os conjuntos comerciais são amplos, com chão de taco e pilotis visíveis. Gosto cada vez mais de arquitetura brutalista (o prédio não é brutalista), aquela coisa de concreto, ferro e vidro, os ditos materiais não burgueses, como dizia o panaca do Le Corbusier (ou o panaca do Mies Van der Rohe).

GERSON CONRAD De arrepiar os cabelos as coisas que Gerson Conrad, Secos e Molhados, diz sobre o João Ricardo e especialmente sobre o pai dele, João Apolinário, no podcast do Clemente Magalhães, Papo com Clê. Vejam e tirem suas conclusões. (v. “Comunista come criancinha e mente que tinha cabelo no prato pra sair sem pagar a conta”.)

MÓ DA HORA SUA TATOO Nas quintas-feiras de 2004 as pessoas iam à Funhouse, Rua Bela Cintra, 567, mostrar as tatuagens que tinham feito. A casa tinha algum carisma e uma certa insalubridade que lhe dava ares de CBGB. Tatuagem estava no auge do hype. Pressinto que a subcultura tatoo (v. “O avião, senhor Roarke, o avião!”) esteja meio fossilizada. Qualquer estúdio de tatuagem me dá a sensação de que voltei vinte anos no tempo.

SURFWEAR Uma carteira Primo, marrom, de náilon, que ganhei de Natal da minha avó Ida. Dentro da carteira havia uma nota de cinco mil cruzeiros, efígie do Castelo Branco. Minha avó sempre dava uns presentes legais, elaborados, etc., etc.

EPPUR SI MUOVE Muito bacana a festa de réveillon no Edifício Joelma, a 2026 vai pegar fogo! (Como todos sabem, eu, Eduardo Haak, morri em 2007.) Estavam lá: Júlio Barroso, o Safardana, meu irmão André, Marcílio Múmia Paralítica e todo um grande elenco de assombrações assombrosas.   

PIADAS DO SÉCULO PASSADO Aquela que o Costinha conta do sujeito que fica importunando uma mulher no ônibus, dou dois mil cruzeiros, etc., etc.

02/01/2026