ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUVIDORIA O estrangeiro, Caetano Veloso, 1989. O pintor Paul Gauguin amou a Baía de Guanabara, etc., Caetano soa como Deus falando através de um megafone (alguém disse isso sobre John Lennon em A day in the life, etc., etc.). O álbum (“álbum dela é cacófato”) é quase uma coautoria entre Caetano, Arto Lindsay e Peter Scherer.

(Ouvi muito, numa época já bem remota, uma música dos Ambitious Lovers, Quasi you. A música é bem legal e também é um ensaio dos timbres/ruídos que Lindsay/Scherer usaram depois em O estrangeiro.)

A propósito:

https://apartamentoseduardohaak.blogspot.com/2018/07/na-pompeia-em-1991.html

 

SHARON MITCHELL Sharon Mitchell é talvez a atriz mais bonita da história do cinema pornô. Até o pescoço da Sharon é lindo.

JONI MITCHELL Deixo-me infiltrar pela calidez de Joni Mitchell cantando Edith and the kingpin, acompanhada por um supertime de músicos (Lyle Mays, Pat Metheny, Jaco Pastorius), num show ocorrido em Santa Bárbara, Califórnia, 1979. Se existisse máquina do tempo, de vez em quando eu passaria umas temporadas em 1979. 

1982 Eu, André e Julinho Safardana, o dono do túmulo mais brega do Brasil, vamos dar umas voltas por 1982 num Chevrolet Comodoro 1980, verde, placa UZ-6869. Ouvimos durante o passeio uma fita com as seguintes músicas: I ran, Flock of a Seagulls, Let me go, Heaven 17, Too shy, Kajagoogoo, Situation, Yazoo, Airwaves, Thomas Dolby, Der kommissar, Falco, Rock the casbah, The Clash, Steppin’ out, Joe Jackson. 

CLUBE DE CAMPO DO (VINAGRE) CASTELO Clubes de campo são anacrônicos, como são anacrônicos as listas telefônicas e os cinzeiros. Suas paisagens são melancólicas. Talvez pela presença da represa (Guarapiranga, no caso) não há como não pressentir que aquilo tudo, aquela beleza toda, é uma ambiência sobretudo lodosa. As amplidões do clube de campo e sua emulação de natureza são frustrantes, assim como é frustrante seu ideal de exclusividade, de mundo à parte. Suas possibilidades de socialização entre iguais são duvidosas. Seu ideal de lazer é frágil e, usando mais uma vez a palavra, anacrônico – esportividade de final de semana, cinquentões barrigudos jogando tênis e golfe, outros às voltas com atividades náuticas. E, sobretudo, escandalosamente anacrônica é a ideia de elegância que clubes de campo buscavam personificar.

BLECAUTE SALVA NEWTON CRUZ DA CADEIRA ELÉTRICA Foi uma chamada de primeira página do extinto (e cada vez mais extinto) tabloide humorístico O Planeta Diário. Hilária para quem já andava por esse vale de lágrimas em abril-maio de 1984, a chamada hoje exige notas de rodapé para ser minimamente compreendida. Sob a chamada estava a foto de um indivíduo afrodescendente com os cabelos alisados que parecia mas não era (Denorex, etc.) o sambista Blecaute (apelido alusivo à escuridão de sua pele, etc.). Blecaute (cantor) aludia ao blecaute (pane no fornecimento de energia elétrica) então recentemente ocorrido, em 18 de abril de 1984, na região sudeste do Brasil, blecaute que imaginariamente salvou o general Newton Cruz (um dos generais mais bufões e cascas-grossas da ditadura) de uma imaginária execução numa bzzzzz cadeira elétrica.

Doo-doo-bee-doo-wah.

29/01/2026