NO CALOR DO BURACO, UM FILME DE SADY BABY Quando você está comprimido numa ruindade qualquer para a qual não há escapatória tudo em você acaba dando testemunho da precariedade e da insuficiência. Seus transtornos psiquiátricos, por exemplo. Depressão é doença, etc., etc. Sério mesmo? Eu aposto que quase nunca é, mas sim uma lei de proporcionalidade em curso. Tudo justo e perfeito, como dizem os maçons. Outras coisas em você que fatalmente acabam dando testemunho da merda em que você está mergulhado (da merda em que todo ser humano, sempre e necessariamente, está mergulhado, não se iludam que existam diferenças substanciais nesse ponto) é o tipo de senso de humor que você acaba desenvolvendo e o tipo de proposições que você vem a enunciar quando se torna gente grande. Se você leva mais ou menos jeito pra coisa, pra criar frases que, de alguma forma, captam e expressam verdades, e, sobretudo, se você não chama a merda por qualquer nome eufemístico, com alguma sorte você acaba se tornando um Soren Kirkegaard ou um Emil Cioran. (E com muita sorte você acaba se tornando um Costinha, v. “aquela piada lá da empregadinha que está indo ao mercado comprar um coco, dois litros de leite e um Bom-Bril”.) O negócio, no final das contas, o negócio fundamental é você caminhar com suas próprias, ainda que precárias, pernas e não dar ouvidos a esses charlatães que vivem de proclamar triunfos que não são triunfos de maneira alguma. A medicina em geral e a psiquiatria em particular, por exemplo. Nada há de triunfante nelas, embora tanto as narrativas autolegitimadoras quanto o falatório público a respeito delas sugira o contrário. (Nada mais kitsch do que essa narrativa positiva de supostos diagnósticos psiquiátricos, autora tal, mais de dois milhões de exemplares vendidos, dando palestra motivacional lá na empresa do Eudes, os colega da firrrma, lá em São Bernarrrdo, etc., etc.)
MORTOS EPPUR SI MUOVE Vamos ao New Deck, lanchonete na Rua Doutor Renato Paes de Barros que existiu até 1984 e que, no entanto, ainda está lá (assim como eu, que morri em 2007, ainda estou aqui, assim como o Faustão Transplante de Cuzão, que morreu-e-esqueceram-de-enterrar, continua por aí). Julinho Safardana conta que saiu com a Dete, aquela empregada que ficou presa no ralo da cozinha da casa da minha tia Gylka e que a gente ajudou a tirar ela de lá, desmontando o sifão e puxando a mulher pra fora. Etc., etc. Julinho diz que levou a Dete ao motel Disco Verde, na Washington Luís (motel que hoje também só existe na dimensão em que temos a posse plena e simultânea das merdas todas que o tempo produziu). Que na saída o cartão de banco dele deu tilt e que ele precisou ir pegar dinheiro em espécie em casa. Que enquanto isso a Dete ficou retida no motel, num quarto que estava sendo reformado, quase um sequestro mesmo. Que ele pegou em casa um bolo de cédulas do Banco Imobiliário e voltou ao motel. Que ele pagou a conta do motel com as tais cédulas. Que um funcionário foi chamar a Dete e viu que ela não estava no quarto. Que o Julinho pediu uma lanterna e foi até o banheiro. Que o Julinho viu que a Dete havia sido sugada pelo ralo da banheira de hidromassagem. Que então ele, o funcionário e o gerente do motel puxaram a Dete para fora.
Etc., etc.
CAPAS DE PLAYBOY QUE INFELIZMENTE NÃO EXISTIRAM Cecília Malan, em abril de 2017, e Dani Calabresa, em fevereiro de 2011.
(Dia 09 próximo faço cinquenta e cinco anos. E la nave va.)
05/02/2026