ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

NÃO SOLTAM AS TIRAS E NÃO TÊM CHEIRO Fernandinha Bochechas Eróticas faz uma propaganda dos chinelos Havaianas (“não soltam as tiras e não têm cheiro”). Aos sessenta anos e fazendo toda aquela ioga ela deve ter pouca gordura na região do derrière. Ainda assim, consigo conceber uma fantasia erótica em que dou umas chineladas na patroa com a Fernandinha, fazendo a Havaiana estalar, plaft!, em seu traseiro.

GUERRA E PAZ, FRANGO NA BRASA, ETC., ETC. Uma musiquinha estúpida e pervertida do Ennio Morricone que toca no trailer de O agente secreto, glockenspiel, bateria e coro infantil.

PASCAL QUIGNARD, ÓDIO À MÚSICA Quignard faz uma crítica moral ao fenômeno da música que pra mim chove no molhado. Concordo que a música não é inocente, mas há inocentes? (No one is innocent, Sex Pistols feat. Ronnie Biggs.) No fundo Quignard pensa na música em termos de utilitarismo social, pessoal, etc., etc. (O que levado ao extremo chega naquela coisa ridícula de achar que ouvir Mozart cura câncer ou que ouvir Beethoven aumenta o QI.)

JORGE LUIS BORGES Releio Ficções, que havia lido uma única vez, em 1996, e acho chato. Tento ler O livro dos seres imaginários, mas não rola. Meu livro favorito de Borges é O livro de areia. Meu conto preferido dele talvez seja O imortal, que abre O Aleph, que também é um livro bem-bom.

WESLEY DUKE LEE Continuo achando o Wesley uma grande figura, o cara que eu queria ser quando crescesse quando eu tinha dezessete anos, etc., etc. Mas venho implicando com ele como artista. Wesley é muito parecido com o Robert Rauschenberg. Tenho a suspeita de que ele só se destacou tanto na época (início dos anos 1960) porque não havia aqui no Brasil ninguém com a formação específica que ele tinha (ter sido assistente do Karl Plattner e ter estudado publicidade nos EUA). Era o dândi recém-chegado de Nova York que ia ensinar pros mocorongos uga-ugas o novo caminho das pedras no mundo das artes visuais. Muita porcaria que anda por aí em bienais é descendente direta de Wesley.

MULHERES QUE EU NÃO PEGARIA NEM A PAU A Björk, que além de feia pra burro parece personagem de mangá de terror do Junji Ito.

ZEITGEIST Expressões dos anos 1980. Quando uma mulher até que bonita dava para um cara medonho dizia-se, mulher que dá pra um cara desses só pode ter raiva da b... (v. “Viciado em c...”, David Cardoso, 1984). Colocar peruca no Kojac como sinônimo de fazer sexo. 

Etc., etc. 

A VIDA COMO ELA ERA “E desde quando comunista leva o pai ao médico? Comunista corta a carótida do pai com caco de Brahma Chopp.” (Nelson Rodrigues, lá por 1965.)

É TARDE, EU JÁ VOU INDO, PRECISO IR EMBORA Se eu não postar mais nada esse ano, um feliz 2027 para todos, porque 2026 (Copa do Mundo, eleição presidencial e torcidinha na Vila Madalena para o Wagner Moura levar o Oscar), uau, 2026 já era.

(Quero mais é que o Brasil seja desclassificado logo na primeira fase da Copa, que leve um oito a zero do Haiti, deixando o italiano lá com a maior cara de bunda; na eleição votarei nulo; O agente secreto é Aquarius 2 ou: much ado about nothing.)    

26/12/2025


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

TOCANDO PIANO E BAIXANDO O SANTO Ouço pela primeira vez o álbum Dark intervals, do Keith Jarrett, 1988. Vou conferi-lo por causa da faixa Parallels, que ouvi numa postagem do Rick Beato e que, assim, de orelhada, me pareceu razoavelmente promissora. Contudo, como em tudo que o Keith Jarrett faz, Parallels também fracassa. A coisa começa interessante, vibrante até, Keith explorando algum território modal, fazendo contrapontos com jeitão de J. S. Bach. Mas a música não se desenvolve. Começa a acumular entulho sonoro até que desaba. Música que não se desenvolve não é demérito quando o não desenvolvimento é uma estética assumida e conscientizada, como no caso do minimalismo. Mas Jarrett não é minimalista, é apenas um maximalista repetitivo que se repete por não saber pra onde ir. Não tem intimidade com o universo eminentemente sonoro (altura, duração, timbre, intensidade), como compositores não desenvolvimentistas como Morton Feldman e, vá lá, John Cage, demonstram ter. É mais um fenômeno sociológico do que musical. Suas performances tocando piano e baixando o santo, seus gemidos orgásticos, sua liberdade de expressão (v. Menudo, “não se reprima, mate sua prima, com estricnina”) parecem ir ao encontro dos anseios estéticos e existenciais daquelas pessoas, hum, como é que eu poderia dizer?, ah, sei lá, aquelas pessoas, jornalistas, publicitários, maconheiros, tomadores de ayahuasca, eleitores do PT e do PSOL, praticantes relapsos de ioga, frequentadores de mostras de cinema, etc., etc.      

DESCEU À MANSÃO DOS MORTOS, ETC., ETC. Revejo Filme demência, Carlos Reichenbach, 1986. O mergulho na madrugada empreendido pelo personagem do Ênio Gonçalves, dono de uma fábrica de cigarros que faliu, é análogo às incursões pela madrugada de Tom Cruise em Eyes wide shut e de Griffin Dunne em After hours, incursões que remetem ao arquétipo descida aos infernos. As mulheres no filme, exceto uma menina lá que é uma alegoria da elevação espiritual a que Ênio parece se encaminhar, são todas harpias ninfomaníacas (v. Agosto, Rubem Fonseca), umas piores, outras menos piores – Imara Reis (gostosíssima, aliás), a esposa que pede o divórcio quando o cara quebra, Alvamar Taddei, a piranha profissional mancomunada com achacadores profissionais, umas outras lá, uma ex-amante e uma garota para quem ele dá carona, essas depravadas sem maiores ambições, senão a de manter a vida e suas substâncias no nível mais pedestre possível. Sou apaixonado por esse filme e nunca vou me cansar de revê-lo.     

EXU CADEIRA E AS POLTRONAS AMESTRADAS O único cara de banda realmente gente fina com quem tive oportunidade de conversar foi o Falcão, dos Excomungados. Lá por 1990 ele dava aula de História no Colégio Avanço, na Rua Santa Justina (equivalente paulistano do Pinheirão, Hilário de Gouveia, Copacabana). Falcão era uma figura realmente punk, meio parecido com o Didi Mocó, com vários dentes faltando, falando de marxismo de maneira muito séria, sem qualquer traço da histeria lacradora que poucos anos depois, sabe-se lá por que, dominou a militância de esquerda. Gostei dele. Passo décadas sem me lembrar do Falcão até que ontem me lembro. Vou procurar no YouTube a música dos Excomungados que fala do acidente da Union Carbide em Bhopal, Índia, 1984, Union Carbide dá amostra grátis pra dois mil na Índia. Vejo que a banda lançou um disco em 1990 e que lá estão todos seus greatest hits, Union Carbide, Vida de operário, Louco é você que tá querendo me internar, etc., etc. São bem engraçadas as letras. E Falcão canta com aquela voz de Exu sendo exorcizado pelo missionário Davi Miranda, que é a mesma voz do cara do Olho Seco, você devia de proibir a migração do povão (ops!), que pelo jeito é o jeito paulistano punk de cantar, Ed Sullivan e Massadas apresenta, Exu Cadeira e as Poltronas Amestradas.

PIADAS DO SÉCULO PASSADO Aquela lá que o Costinha conta do português da quitanda que diz pras duas bichinhas que ele só vende três bananas, etc., etc. 

12/12/2025