REVISTAS Um estoque de revistas que ficava na casa da praia, Vila Caiçara, Praia Grande, 1981-2005. Coisas que foram se acumulando e que sempre relíamos (v. Mário Benvenutti folheando entediado uma Fatos e Fotos em Noite Vazia). Um exemplar de Carícia ou Sétimo Céu sem capa que tinha uma fotonovela com um tal de Toni Matrera. Dois exemplares da Revista Afanásio Jazadji. Num exemplar havia uma história em quadrinhos intitulada O monstro de São Bernardo do Campo. Noutro havia uma seção em que deficientes físicos pediam cadeiras de rodas, muletas, etc. Havia fotos dos deficientes. Lembro-me da foto de um sujeito com as pernas atrofiadas que a gente falava, olha o Gato Hernandez, hem? (Gato Hernandez, Hernando, foi um vigia noturno do meu prédio.) Uma revista chamada Eros, que misturava fotos de mulheres com os peitos de fora com reportagens policiais inventadas. O editor-chefe da revista era o Percival de Souza. Lembro-me das chamadas. Pegou carona pra Bahia e se estrepou (uma fulana que pegou carona com um caminhoneiro e foi estuprada). Essa Geni não dá pra qualquer um (um travesti que matou a tiros um rapaz que havia feito aquela brincadeira de abordar perguntando quanto era o programa e acionar o extintor de incêndio, etc., etc.). Para o casal, pancadaria e cachaça era sorvete (um sujeito que havia matado a mulher). Uma revista pornográfica chamada Top sex, com uma mulher na capa que parecia o Paul Stanley do Kiss. Revista O estranho mundo de Zé do Caixão (quadrinhos, uma reedição da L&PM, anos 1990, de uma revista originalmente publicada em 1969).
O HOMEM DO SAPATO BRANCO Reportagem de Jacinto Figueira Júnior para o Aqui agora, 1991. Um sujeito acusado de ser falso padre, que se apresenta como arcebispo, começa a esmurrar uma porta, dizendo ou abre ou eu arrombo, então sua prótese dentária se desencaixa, etc., etc.
NOTÍCIAS POPULARES Um sujeito que queria vender o órgão sexual para pagar a cirurgia de mudança de sexo e que nós, eu e meus irmãos, dizíamos que parecia com o Bizerra (sic).
CAIXA REGISTRADORA André vendo a apresentação do Lee Haney no Ginásio do Ibirapuera, em 1991. Um sujeito na plateia empurra a prótese dentária para fora da boca e a suga de volta. André diz que o sujeito parece uma caixa registradora.
ZYD 818, RÁDIO ELDORADO LIMITADA, SÃO PAULO, CAPITAL Quando a Eldorado FM usava como logotipo a imagem da Theda Bara. Etc., etc.
LES LIAISONS DANGEREUSES Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell (aliás, que mulher gostosinha, não?) são uma espécie de Valmont/Merteuil. Algum Choderlos de Laclos se habilita para narrá-los?
SORTEIO FEITO NO CHAT GPT, PORQUE ESSA MERDA NÃO SERVE PRA OUTRA COISA MESMO Carlos Menem cagou nas calças no show de horrores de Silvio Santos. Arcebispo vendeu a alma ao demônio no chiqueiro de Costinha. Correinha jogou ovo podre na sessão espírita de Pedro de Lara. Waldick Soriano ficou pelado no trem fantasma de Madame Cristine. N... Safada foi torturada no mijôncio de Doutor Phibes. Reverendo Moon jogou pó de pemba na perna mecânica de Toni. Odorico Paraguaçu andou de bicicleta pelado na reunião de condomínio de Araci de Almeida. Elisângela comeu barata na peixaria de Ray Conniff. Seu Heitor passou com o trator na plantação de maconha de Arlindo Papagaio. Francisco Cuoco bebeu água de privada na maloca de Tia Emma. Chinezinha ficou contando piada racista no bueiro de Irmã Maria José. Dona Macarrão foi mordida por cachorro no cortiço de Ovi Ovroc. Voz de Papagaio dançou rock'n'roll na gafieira de Ananias. Dirceu Borboleta exorcizou o barbeador de Salviano. Elton ficou sonâmbulo no iglu de Clodovil. Nelson Ned cagou nas calças no teleférico de Gorete. Bolo de Batata fumou maconha no disco voador de Cara de Barata. Moacyr Franco bateu com a raquete de matar mosquito na assombração de Romano.
24/02/2026
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
OUVIDORIA Karn evil 9, Emerson, Lake & Palmer ou: FCK CNV (foda-se o carnaval).
MULHER GOSTOSA Fabiola Natalio, uma jornalista esportiva argentina que começou a aparecer no meu Instagram. Em uma palavra: uau.
SÃO TRÊS LETRINHAS IGUAIS, SÓ MUDA O ACENTO Avô avó, Pequeno Cidadão. Legalzinha essa música.
PERDEU, PLAYBOY (CAPAS QUE INFELIZMENTE NÃO EXISTIRAM) Cornélia Herr, julho de 1987, e Sandra Pera, novembro de 1980. (Cornélia Herr fez um papel pequeno em Amor voraz, o filme que Walter Hugo Khouri rodou em 1984 numa antiga fundição de ferro, Fundição Ipanema, Iperó, São Paulo.)
LUGARES EXTINTOS Um bar chamado Espaço Raísa, na Rua Professor Atílio Innocenti, Itaim-Bibi. Início dos anos 1990. Ficava mais ou menos onde hoje existe o restaurante do Bob Esponja. Vi lá alguns shows do Arrigo Barnabé e do Música Ligeira (Mário Manga e Rodrigo Rodrigues). Num dos shows do Arrigo havia apenas eu e um casal assistindo.
CUIDE-SE BEM, TEM MIL SURPRESAS À ESPREITA Guilherme Arantes conta em entrevista que Elis Regina era uma namorada instável, que vez-sim-vez-não ele telefonava para ela e ela lhe dizia, à queima roupa, hoje não tem creche, ou seja, hoje eu não quero te ver, seu pirralho.
MIRCEA ELIADE Tenho, como o Mircea Eliade, uma espécie de imensa nostalgia dos momentos inaugurais das coisas.
ASSUM PRETO Uma síntese confusa. Festival de Verão, Guarujá, janeiro de 1981. Nós num apartamento alugado na Rua Mario Ribeiro, Edifício Aquarela (aquecimento central com caldeira movida a óleo diesel). Minha avó Ida passando férias conosco (seu aniversário de 64 anos, comemorado por aqueles dias). (Minha avó Ida, nascida em 1917, que tinha uma queda por rapazes cabeludinhos típicos dos anos 1970, como Guilherme Arantes e, sobretudo, Arrigo Barnabé.) Festival de Verão, show do Luiz Gonzaga, à noite, na praia. (Podem procurar que tem no YouTube.) Todo mundo em casa vai ao show, menos eu e o André, que está meio de castigo porque outro dia ficou cuspindo da janela da sala na cabeça do sujeito da loja de cadeados, em companhia de um menino que apelidamos de Papai Gordo. Etc., etc. Luiz Gonzaga toca Asa branca (ir a Roma e ver o papa, etc., etc.). João, com cinco anos, diz que é a música da vacina (Asa branca com a letra modificada, vem correndo meninada pra acabar com essa danada, foi usada na campanha de vacinação contra a pólio, em 1980). Logo eles voltam do show. Muito cheio, muita maconha. Etc., etc. Salto de janeiro de 1981 para fevereiro de 2026. Vejo uma entrevista que o Arrigo Barnabé, o crush da minha avó-1917, deu ao Marcelo Tas em 2022. Arrigo fala que um dia seu pai chegou do trabalho e colocou pra tocar na vitrola um disco do Luiz Gonzaga cantando Assum preto. Arrigo diz que começou a chorar por causa da música e sua letra infinitamente triste. (A primeira música que me levou a um estado fortemente introspectivo e me deu uma grande impressão de beleza, melancolia e solenidade foi The green leaves of summer, da trilha sonora da novela Estúpido Cupido.) Etc., etc. Termino de ver a entrevista e vou fazer meu treino de perna. Agachamento búlgaro (v. “K H 100 H CHÁ é ½ arriscado”), depois stiff. Coloco Assum preto pra tocar. Tudo em volta é só beleza, sol de abril e mata em flor, etc., etc. Tenho que parar o agachamento, porque a música está me fazendo rir de maneira descontrolada.
Etc., etc.
16/02/2026
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
NO CALOR DO BURACO, UM FILME DE SADY BABY Quando você está comprimido numa ruindade qualquer para a qual não há escapatória tudo em você acaba dando testemunho da precariedade e da insuficiência. Seus transtornos psiquiátricos, por exemplo. Depressão é doença, etc., etc. Sério mesmo? Eu aposto que quase nunca é, mas sim uma lei de proporcionalidade em curso. Tudo justo e perfeito, como dizem os maçons. Outras coisas em você que fatalmente acabam dando testemunho da merda em que você está mergulhado (da merda em que todo ser humano, sempre e necessariamente, está mergulhado, não se iludam que existam diferenças substanciais nesse ponto) é o tipo de senso de humor que você acaba desenvolvendo e o tipo de proposições que você vem a enunciar quando se torna gente grande. Se você leva mais ou menos jeito pra coisa, pra criar frases que, de alguma forma, captam e expressam verdades, e, sobretudo, se você não chama a merda por qualquer nome eufemístico, com alguma sorte você acaba se tornando um Soren Kirkegaard ou um Emil Cioran. (E com muita sorte você acaba se tornando um Costinha, v. “aquela piada lá da empregadinha que está indo ao mercado comprar um coco, dois litros de leite e um Bom-Bril”.) O negócio, no final das contas, o negócio fundamental é você caminhar com suas próprias, ainda que precárias, pernas e não dar ouvidos a esses charlatães que vivem de proclamar triunfos que não são triunfos de maneira alguma. A medicina em geral e a psiquiatria em particular, por exemplo. Nada há de triunfante nelas, embora tanto as narrativas autolegitimadoras quanto o falatório público a respeito delas sugira o contrário. (Nada mais kitsch do que essa narrativa positiva de supostos diagnósticos psiquiátricos, autora tal, mais de dois milhões de exemplares vendidos, dando palestra motivacional lá na empresa do Eudes, os colega da firrrma, lá em São Bernarrrdo, etc., etc.)
MORTOS EPPUR SI MUOVE Vamos ao New Deck, lanchonete na Rua Doutor Renato Paes de Barros que existiu até 1984 e que, no entanto, ainda está lá (assim como eu, que morri em 2007, ainda estou aqui, assim como o Faustão Transplante de Cuzão, que morreu-e-esqueceram-de-enterrar, continua por aí). Julinho Safardana conta que saiu com a Dete, aquela empregada que ficou presa no ralo da cozinha da casa da minha tia Gylka e que a gente ajudou a tirar ela de lá, desmontando o sifão e puxando a mulher pra fora. Etc., etc. Julinho diz que levou a Dete ao motel Disco Verde, na Washington Luís (motel que hoje também só existe na dimensão em que temos a posse plena e simultânea das merdas todas que o tempo produziu). Que na saída o cartão de banco dele deu tilt e que ele precisou ir pegar dinheiro em espécie em casa. Que enquanto isso a Dete ficou retida no motel, num quarto que estava sendo reformado, quase um sequestro mesmo. Que ele pegou em casa um bolo de cédulas do Banco Imobiliário e voltou ao motel. Que ele pagou a conta do motel com as tais cédulas. Que um funcionário foi chamar a Dete e viu que ela não estava no quarto. Que o Julinho pediu uma lanterna e foi até o banheiro. Que o Julinho viu que a Dete havia sido sugada pelo ralo da banheira de hidromassagem. Que então ele, o funcionário e o gerente do motel puxaram a Dete para fora.
Etc., etc.
CAPAS DE PLAYBOY QUE INFELIZMENTE NÃO EXISTIRAM Cecília Malan, em abril de 2017, e Dani Calabresa, em fevereiro de 2011.
(Dia 09 próximo faço cinquenta e cinco anos. E la nave va.)
05/02/2026