DE GRAÇA ATÉ BENZETACIL NA TESTA Disponibilizei meus cinco livros válidos (dois ficaram de fora) gratuitamente no Internet Archive, nos formatos ePUB e PDF. Ainda que eu me veja como um ex-escritor, pois não pretendo voltar a escrever (a não ser escrever essa espécie de jornalismo gonzo que faço aqui no blog), não renego os livros que escrevi e continuo gostando muito deles. É isso aí, pe-pessoal. Façam seus downloads e divirtam-se. (Tomem esses ensaios que o Chat Gepeto fez sobre dois contos centrais na minha obra, Cinderela e Apartamentos, como um prefácio para vossas leituras. Na boa, achei que o Chat mandou bem pra caramba nos dois. Tá até parecendo gente.) Link para os downloads:
https://archive.org/details/@eduardo_haak
CINDERELA Esse seu conto tem uma ambição grande — e o mais interessante é que ela não é apenas temática, mas formal. Você tenta abarcar, ao mesmo tempo, um policial, uma comédia grotesca, uma investigação psicológica e uma espécie de fluxo metafísico da consciência — e, surpreendentemente, isso quase sempre funciona. Não como harmonia, mas como fricção. E é nessa fricção que o texto ganha força.
A primeira coisa que chama atenção é o domínio de registro. Você alterna com muita naturalidade entre o jargão técnico (Lacassagne, hioide, termos periciais), o coloquial brutal, o lirismo e uma obscenidade que não é gratuita, mas estruturante. A obscenidade aqui não é ornamento nem choque fácil — ela é uma linguagem do corpo, e o corpo, no conto, é o lugar onde tudo se decide: culpa, desejo, violência, identidade. Há uma coerência profunda nisso. O corpo aparece como destino, como prisão e como evidência.
O conto começa como um noir meio sujo, quase procedural, mas logo se desorganiza — e isso é deliberado. A estrutura não é a de um mistério a ser resolvido; é a de uma consciência a ser exposta. O leitor é conduzido a acreditar que está diante de uma investigação (quem matou Cinderela?), mas essa pergunta vai perdendo importância diante de outra: quem são essas pessoas por dentro? E mais — até que ponto elas são contínuas consigo mesmas?
Walter é um personagem particularmente bem construído nesse sentido. Ele não é apenas um investigador; ele é alguém cuja mente está sempre contaminada por associações, memórias, desvios. Há algo nele que lembra um narrador de fluxo de consciência à la modernismo, mas transplantado para um corpo policial, urbano, brasileiro, meio cínico. Essa mistura é muito boa. O que ele pensa durante o sexo, por exemplo, é ao mesmo tempo excessivo, quase caricatural, e estranhamente verdadeiro — uma espécie de filosofia involuntária, grotesca e sincera.
Procópio, por sua vez, poderia cair numa armadilha fácil — a do “monstro trágico” ou do grotesco unidimensional. Mas você escapa disso. Ele é ridículo, patético, culpado, mas também humano numa medida desconfortável. A religiosidade dele, misturada com desejo e autodepreciação, é muito convincente. Há algo ali que não é só psicológico, é quase teológico — a ideia de um corpo que já nasce como problema moral.
E aí entra um dos temas mais fortes do conto: a inadequação entre forma e essência. O anão que não poderia matar, a mulher forte que é morta, a dentadura como prova enganosa, o falso Einstein, o sapato que não pode ser testado. Tudo aponta para uma espécie de falência dos critérios externos. Nada encaixa perfeitamente — nem o sapatinho, nem a identidade, nem o desejo. O “non plus ultra” vira ironia: não há limite claro, não há forma definitiva.
Formalmente, o conto é corajoso porque aceita o excesso. Há momentos em que ele beira o transbordamento — especialmente nos blocos mais longos de fluxo mental — e isso pode afastar alguns leitores. Mas, ao mesmo tempo, esse excesso é constitutivo da proposta. Cortar demais seria domesticar o texto. O risco que você corre não é de exagerar, mas de perder o ritmo em alguns trechos onde a associação se alonga sem ganho proporcional de sentido. Ainda assim, mesmo nesses momentos, há uma energia verbal que sustenta a leitura.
Um ponto particularmente interessante é o humor. Ele não é só alívio; ele é corrosivo. A história da Cinderela com dentadura é um exemplo claro: você pega um arquétipo infantil e o deforma até ele revelar algo obscuro sobre desejo, inadequação e ridículo. O conto inteiro faz isso: desmonta narrativas conhecidas (o conto de fadas, o romance, o policial) e mostra o que sobra — restos, fluidos, falhas.
O final, com a resolução “oficial” do crime, é quase anticlimático — mas de propósito. A verdade factual importa menos do que o percurso mental e moral dos personagens. Quando o caso se resolve, o que fica não é satisfação, é um resíduo — especialmente em Walter, que continua preso às suas obsessões, culpas e desejos. A realidade externa se organiza, mas a interna não.
E talvez o trecho mais revelador seja aquele em primeira pessoa, perto do fim. Ele quebra o pacto narrativo e expõe o que o conto vinha insinuando: a instabilidade entre voz e identidade. “Quem me lê e quem me ouve não tem como dizer: são a mesma pessoa.” Isso é praticamente um manifesto do texto. O conto inteiro é sobre essa dissociação.
Culturalmente, há também algo muito brasileiro, mas sem cair em clichê: a mistura de alta e baixa cultura, de latim com palavrão, de filosofia com piada ruim, de Wagner com pagode mental. Isso dá uma textura rica e específica ao texto.
Se há uma crítica mais direta a fazer, talvez seja sobre a saturação em certos pontos. Você trabalha tão bem com repetição (de ideias, imagens, obsessões) que às vezes ela poderia ser um pouco mais modulada para ganhar ainda mais força. Mas isso é ajuste fino — o essencial está muito sólido.
No fim, o conto deixa uma sensação incômoda e persistente, que é provavelmente o que você quer. Não há catarse, não há redenção clara, não há ordem restaurada — só uma espécie de consciência ampliada do caos íntimo dos personagens. E isso, para um texto que flerta com o grotesco e o policial, é um resultado bem acima do comum.
APARTAMENTOS Há algo de muito consistente — e, ao mesmo tempo, inquietante — na passagem de um conto ao outro. Eles não são apenas “do mesmo autor”; parecem variações de um mesmo núcleo obsessivo, como se você estivesse girando um objeto sob luzes diferentes para ver até onde ele resiste sem se desfazer.
Se em “Cinderela” o eixo era a dissolução — identidades que se embaralham, versões que se sobrepõem, causalidades que se tornam suspeitas — em “Apartamentos” há um movimento quase oposto: uma tentativa de impor forma ao mundo. Mas essa tentativa é igualmente fracassada, e talvez ainda mais perturbadora.
Nakashima é, nesse sentido, uma espécie de anti-Walter. Enquanto Walter é atravessado pelo excesso — associações, memórias, digressões, erotismo mental que se descontrola — Nakashima busca uma lógica, uma ordenação. Ele quer separar o mundo entre o que é “esguio” e o que é “disforme”, entre o que merece reverência e o que merece desprezo. Essa necessidade de classificação é quase estética, mas também moral. E aí está o problema: ele transforma gosto em ética, forma em valor.
O gesto dele — tratar dentes de prostitutas como ato de caridade — poderia, em outro registro, soar redentor. Mas no seu conto ele é profundamente ambíguo. Há algo de genuinamente piedoso, sim, mas também algo de intrusivo, quase violento. Ele não apenas repara dentes; ele corrige pessoas. E o “pequeno erro” — arrancar um dente saudável — revela o que está por trás: quando o mundo não corresponde à sua expectativa formal, ele intervém. Corrige à força. Mutila.
Esse ponto é crucial para relacionar os dois contos: nos dois, há uma tensão entre aparência e verdade, mas em “Cinderela” isso gera dúvida, enquanto em “Apartamentos” gera violência.
A dentadura em “Cinderela” é um falso índice — parece prova, mas engana. Já em “Apartamentos”, os dentes são o próprio campo de batalha simbólico. Eles deixam de ser vestígio e viram objeto de controle. É como se você tivesse deslocado o mesmo elemento de uma função epistemológica (o que revela a verdade?) para uma função moral (o que deve ser corrigido?).
E há também a questão do corpo, que nos dois textos é central, mas tratado de maneiras distintas. Em “Cinderela”, o corpo é caótico, excessivo, transbordante — fezes, fluidos, excitação, decomposição. Já em “Apartamentos”, o corpo é algo a ser alinhado, higienizado, reorganizado. Só que essa tentativa de limpeza nunca elimina o grotesco; ela apenas o desloca. O grotesco volta sob a forma de obsessão, de controle, de erro irreparável.
Outro ponto de contato muito forte é o uso do humor. Nos dois contos ele funciona como um ácido. Mas enquanto em “Cinderela” o humor nasce do absurdo e da proliferação (a Cinderela da dentadura, o anão, as digressões), em “Apartamentos” ele é mais seco, mais cruel. A ideia de um sujeito que escolhe prostitutas pelos dentes estragados já é, por si, uma chave de leitura: o desejo não é pelo corpo, mas pela falha.
E isso nos leva talvez ao elo mais profundo entre os dois textos: o desejo como distorção.
Walter deseja em excesso — tudo se erotiza, tudo se associa, tudo se mistura. Nakashima deseja pela negativa — ele busca o defeito, o que precisa ser corrigido, o que não está à altura. Procópio, no conto anterior, também está nesse eixo: deseja aquilo que o repele, e se odeia por desejar. Em todos os casos, o desejo não conduz à união ou à satisfação, mas à culpa, à intervenção, à violência.
Formalmente, “Apartamentos” é mais contido, mais linear, mas não menos sofisticado. Você trabalha com paralelismos muito bem construídos: Nakashima / Luba / Lavínia / Fiat Elba. Cada um orbita o outro por motivações diferentes — desejo, dependência, superstição, ressentimento — e o conto avança como um sistema de forças que inevitavelmente colide. Diferente de “Cinderela”, onde a dispersão é o método, aqui há uma arquitetura mais visível. Mas o efeito final é semelhante: não há estabilidade real.
A cena final, com a lâmpada estroboscópica, é particularmente feliz porque condensa tudo. A tentativa de controle (o dispositivo de segurança), o corpo que reage de forma imprevisível (a epilepsia), a ignorância de Nakashima diante do que ele próprio desencadeou. É quase uma metáfora perfeita dos dois contos: alguém aciona um mecanismo achando que está no controle, mas o efeito escapa completamente.
E há ainda um detalhe que me parece revelador: em ambos os textos, quando algo se resolve no plano factual (o crime em “Cinderela”, a situação com Fiat Elba aqui), isso não produz nenhum tipo de resolução existencial. O mundo continua desalinhado. Os personagens continuam presos às suas obsessões.
Se eu tivesse que sintetizar a relação entre os dois, diria que “Cinderela” é um conto sobre a impossibilidade de conhecer a verdade, e “Apartamentos” é um conto sobre o perigo de acreditar que se pode corrigi-la.
E, no fundo, ambos parecem dizer a mesma coisa: o erro — seja ele percebido, projetado ou real — não é um desvio da ordem. Ele é a própria matéria da experiência.
Etc., etc.
10/04/2026