09/12/2017 Estou na inauguração de um rooftop no Bom Retiro. O rooftop foi montado no terraço da antiga fábrica da Fiorucci, na Rua Cesare Lombroso, ex-Rua Itaboca, rua que até o início da década de 1960 abrigou a zona de prostituição de São Paulo. (Os frequentadores da zona, depois que faziam o que tinha de ser feito, iam a um lugar ali próximo fazer profilaxia; a profilaxia era feita com uma cânula que injetava permanganato de potássio na uretra.) As pessoas que estão na inauguração têm em média trinta anos; há um palco a uns cinquenta metros de onde estou, do qual não me aproximo; parece que há nele um cantor e um DJ; num telão estão sendo projetadas imagens barrocas-tropicalistas, pés de maconha, etc. (Vi outro dia um vídeo-arte que mostrava o artista empunhando uma réplica de uma pistola 9 mm feita de gelo.) O chão do rooftop é pintado de azul com faixas vermelhas; essa parte da decoração, parece, é alusiva a um filme daquele diretor, Lars esqueci o resto do nome. Outra parte da decoração são uns caixotes gigantes, parecidos com contêineres. (Não sei por que me vem à cabeça a imagem de um volante de bingo, cheio de furos, que vi nessa tarde, largado sobre a mesa de um café na Rua Augusta.) Vou comprar um refrigerante e observo uma mulher que está acompanhada de um rapaz que está usando uma camiseta que tem alguma coisa escrita, acho que em turco, e cujo cabelo está preso num coque. Termino o refrigerante, pego o elevador e desço ao térreo. Leio a mensagem que chegou ao meu telefone, um SMS, não tenho whatsapp, meu aparelho é um Huawei fabricado em 2010. A rua está sem iluminação nos postes e por isso está sinistra e ameaçadoramente escura. Outra mensagem chega, então vou até um dos carros estacionados, um que está com os faróis acesos, e tento ver quem está dentro. Vejo apenas um vulto, então ela abre a porta e vejo que é ela e entro no carro e lhe dou um beijo e escorrego o rosto para sua nuca e a cheiro e ela ri. Ela pergunta, aonde a gente vai?, e eu digo, não sei, você escolhe.
ALGUMAS MÚSICAS EM ALGUMAS CIRCUNSTÂNCIAS: SEASONS OF WITHER, AEROSMITH, FEVEREIRO DE 1993 Estou no final da Rua Cerro Corá, já perto do Cemitério da Lapa. Estou indo trabalhar. O rádio do meu carro – um Passat LS, 1983 – começa a tocar uma coisa que é uma mistura de som de plateia de show de rock com som de vento. Um dedilhado de violão surge. Julgo reconhecer esse dedilhado. Sim, é aquela música do Aerosmith de que o Lobão fez uma versão, Moonlight Paranoia. Pego a entrada para a Diógenes Ribeiro de Lima e estaciono o carro. Fico ouvindo a música até que ela termine. (Sinto-me absolutamente impossibilitado de fazer qualquer coisa que não seja ouvir essa música, e só ouvi-la, até que ela acabe.)
SOLITUDE STANDING, SUZANNE VEGA, EM ALGUM DIA QUENTE E SECO DO SEGUNDO SEMESTRE DE 1987 Estou sozinho em casa, meus pais e meus irmãos foram viajar. Vou tomar banho e ligo o rádio antes de entrar no box. Então essa música da Suzanne Vega toca no rádio e só catorze anos depois, em 2001, conseguirei expressar as sensações desencadeadas por essa circunstância (um dia de ar seco e clareza radiante, a música da Suzane Vega, eu praticando uma ação intranscendente como tomar banho, eu com dezesseis anos, eu sozinho no meu apartamento, etc.), num texto ficcional chamado As Primeiras Horas do Dia 11 de Janeiro de 1987.
HEATHER, BILLY COBHAM, JANEIRO DE 1989 Acordo no meio da madrugada quando essa música começa a tocar no rádio. A música é assim: uma longa nota gerada por um sintetizador modular, acordes suspensos (nem maiores, nem menores) tocados num piano Fender Rhodes. Apesar da baixa qualidade do áudio (a música está sendo transmitida numa estação AM, num programa chamado Jazz & Cia), levanto-me, pego uma fita numa gaveta e começo a gravá-la. E, apesar da delicadeza da música e do torpor do sono, estou tomado por aquela agitação que nos dá quando finalmente nos ocorre algo que esperávamos mesmo que fosse nos acontecer, mas que demorou muito para acontecer, e que aconteceu de forma imprevista.
HASH PIPE, WEEZER, JUNHO DE 2004 Estou na Funhouse, na Rua Bela Cintra, numa madrugada fria e chuvosa. Estou sentado num banco alto, esperando que alguma coisa aconteça. De certa forma forço minha presença ali, num lugar onde as pessoas são, em média, dez anos mais jovens que eu. Uma música começa a tocar na pista e vou até lá. A pista é um cenário lynchiano (foi o Hique Gomez, do Tangos & Tragédias, com quem fiquei batendo um papo outro dia aqui na Funhouse, quem me chamou a atenção para o caráter lynchiano desse espaço, com seu piso quadriculado e sua cortina bordô). A música que chamou minha atenção agora se chama Hash Pipe e é de uma banda chamada Weezer. O que eu espero que me aconteça?
BLUE SKY MINE, MIDNIGHT OIL, AGOSTO DE 1990 Estou andando pela Pompeia, numa noite quente cheia de insetos. Estou matando aula da faculdade. Estou com dezenove anos e venho tendo a sensação de que coisas absolutamente extraordinárias estão prestes a me acontecer. Ando com um aguçado senso das correntes profundas da minha história pessoal. Há, é claro, uma poderosa presença-ausência feminina que catalisa esse processo todo. A música, evocada, que embala esse meu clipe narcísico, nessa noite cálida de agosto de 1990, é Blue Sky Mine, do Midnight Oil.
GIRL GONE BAD, VAN HALEN, MAIO DE 1984 Acordo com os harmônicos da guitarra do Eddie Van Halen na introdução de Girl Gone Bad. Ontem fui à festa de quinze anos da irmã de um amigo. Saímos da festa quase cinco da manhã. Abro os olhos e vejo um reflexo quase espelhado do trânsito da Rua Renato Paes de Barros projetado no teto do quarto. Não tento entender a lógica dessa projeção (como?) e retardo ao máximo o momento de começar a falar porque já sei, aos treze anos, que a fala tem o poder de dissolver praticamente todas sublimidades.
ROADS, PORTISHEAD, MARÇO DE 2008 Estou na Funhouse e sou agarrado por uma linda mulher que me dá um beijo violento que quase arranca minha língua fora. A música que está tocando no jukebox é Roads, do Portishead. Preciso olhar essa cena com algum distanciamento e interrompo um dos ataques da moça. Fico olhando para ela, depois fixo minha atenção na música, e depois digo alguma coisa para ela e ela ri e sorri ao mesmo tempo.
LOVE IS THE STRANGEST WAY, ANDY SUMMERS, DEZEMBRO DE 1991 Estou no Guarujá. Estou passeando de carro pela Praia de Pitangueiras. Meu carro é um Escort XR-3, 1988. Estou ouvindo uma fita e fico voltando a faixa Love is the Strangest Way, do Andy Summers, o ex-guitarrista do The Police. Estou pensando numa mulher que vi ontem, tomando sol na praia, e que ao vê-la pensei na capa de um velho disco dos Rolling Stones, uma coletânea chamada Made in Shade, que mostra uma mulher tomando sol num deserto. (Alguns anos depois redefinirei a cena, dizendo que ela parecia um quadro do Eric Fischl.)
SERIOUS, DURAN DURAN, NOVEMBRO DE 1995 Estou subindo a Rua Mourato Coelho, na Vila Madalena. Estou indo ao bar Olívia. Estou indo me encontrar com uma mulher com quem eu tenho uma longa e complexa história. O rádio do meu carro – um Monza SL/E, 1988, azul cobalto – começa a tocar Serious, do Duran Duran. Ouvir essa música, nesse momento, me dá uma potente e incontornável sensação de otimismo, me dá a certeza pueril-juvenil de que tudo dará certo, hoje, amanhã, sempre.
09/03/2026
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
REVISTAS Um estoque de revistas que ficava na casa da praia, Vila Caiçara, Praia Grande, 1981-2005. Coisas que foram se acumulando e que sempre relíamos (v. Mário Benvenutti folheando entediado uma Fatos e Fotos em Noite Vazia). Um exemplar de Carícia ou Sétimo Céu sem capa que tinha uma fotonovela com um tal de Toni Matrera. Dois exemplares da Revista Afanásio Jazadji. Num exemplar havia uma história em quadrinhos intitulada O monstro de São Bernardo do Campo. Noutro havia uma seção em que deficientes físicos pediam cadeiras de rodas, muletas, etc. Havia fotos dos deficientes. Lembro-me da foto de um sujeito com as pernas atrofiadas que a gente falava, olha o Gato Hernandez, hem? (Gato Hernandez, Hernando, foi um vigia noturno do meu prédio.) Uma revista chamada Eros, que misturava fotos de mulheres com os peitos de fora com reportagens policiais inventadas. O editor-chefe da revista era o Percival de Souza. Lembro-me das chamadas. Pegou carona pra Bahia e se estrepou (uma fulana que pegou carona com um caminhoneiro e foi estuprada). Essa Geni não dá pra qualquer um (um travesti que matou a tiros um rapaz que havia feito aquela brincadeira de abordar perguntando quanto era o programa e acionar o extintor de incêndio, etc., etc.). Para o casal, pancadaria e cachaça era sorvete (um sujeito que havia matado a mulher). Uma revista pornográfica chamada Top sex, com uma mulher na capa que parecia o Paul Stanley do Kiss. Revista O estranho mundo de Zé do Caixão (quadrinhos, uma reedição da L&PM, anos 1990, de uma revista originalmente publicada em 1969).
O HOMEM DO SAPATO BRANCO Reportagem de Jacinto Figueira Júnior para o Aqui agora, 1991. Um sujeito acusado de ser falso padre, que se apresenta como arcebispo, começa a esmurrar uma porta, dizendo ou abre ou eu arrombo, então sua prótese dentária se desencaixa, etc., etc.
NOTÍCIAS POPULARES Um sujeito que queria vender o órgão sexual para pagar a cirurgia de mudança de sexo e que nós, eu e meus irmãos, dizíamos que parecia com o Bizerra (sic).
CAIXA REGISTRADORA André vendo a apresentação do Lee Haney no Ginásio do Ibirapuera, em 1991. Um sujeito na plateia empurra a prótese dentária para fora da boca e a suga de volta. André diz que o sujeito parece uma caixa registradora.
ZYD 818, RÁDIO ELDORADO LIMITADA, SÃO PAULO, CAPITAL Quando a Eldorado FM usava como logotipo a imagem da Theda Bara. Etc., etc.
LES LIAISONS DANGEREUSES Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell (aliás, que mulher gostosinha, não?) são uma espécie de Valmont/Merteuil. Algum Choderlos de Laclos se habilita para narrá-los?
SORTEIO FEITO NO CHAT GPT, PORQUE ESSA MERDA NÃO SERVE PRA OUTRA COISA MESMO Carlos Menem cagou nas calças no show de horrores de Silvio Santos. Arcebispo vendeu a alma ao demônio no chiqueiro de Costinha. Correinha jogou ovo podre na sessão espírita de Pedro de Lara. Waldick Soriano ficou pelado no trem fantasma de Madame Cristine. N... Safada foi torturada no mijôncio de Doutor Phibes. Reverendo Moon jogou pó de pemba na perna mecânica de Toni. Odorico Paraguaçu andou de bicicleta pelado na reunião de condomínio de Araci de Almeida. Elisângela comeu barata na peixaria de Ray Conniff. Seu Heitor passou com o trator na plantação de maconha de Arlindo Papagaio. Francisco Cuoco bebeu água de privada na maloca de Tia Emma. Chinezinha ficou contando piada racista no bueiro de Irmã Maria José. Dona Macarrão foi mordida por cachorro no cortiço de Ovi Ovroc. Voz de Papagaio dançou rock'n'roll na gafieira de Ananias. Dirceu Borboleta exorcizou o barbeador de Salviano. Elton ficou sonâmbulo no iglu de Clodovil. Nelson Ned cagou nas calças no teleférico de Gorete. Bolo de Batata fumou maconha no disco voador de Cara de Barata. Moacyr Franco bateu com a raquete de matar mosquito na assombração de Romano.
24/02/2026
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
OUVIDORIA Karn evil 9, Emerson, Lake & Palmer ou: FCK CNV (foda-se o carnaval).
MULHER GOSTOSA Fabiola Natalio, uma jornalista esportiva argentina que começou a aparecer no meu Instagram. Em uma palavra: uau.
SÃO TRÊS LETRINHAS IGUAIS, SÓ MUDA O ACENTO Avô avó, Pequeno Cidadão. Legalzinha essa música.
PERDEU, PLAYBOY (CAPAS QUE INFELIZMENTE NÃO EXISTIRAM) Cornélia Herr, julho de 1987, e Sandra Pera, novembro de 1980. (Cornélia Herr fez um papel pequeno em Amor voraz, o filme que Walter Hugo Khouri rodou em 1984 numa antiga fundição de ferro, Fundição Ipanema, Iperó, São Paulo.)
LUGARES EXTINTOS Um bar chamado Espaço Raísa, na Rua Professor Atílio Innocenti, Itaim-Bibi. Início dos anos 1990. Ficava mais ou menos onde hoje existe o restaurante do Bob Esponja. Vi lá alguns shows do Arrigo Barnabé e do Música Ligeira (Mário Manga e Rodrigo Rodrigues). Num dos shows do Arrigo havia apenas eu e um casal assistindo.
CUIDE-SE BEM, TEM MIL SURPRESAS À ESPREITA Guilherme Arantes conta em entrevista que Elis Regina era uma namorada instável, que vez-sim-vez-não ele telefonava para ela e ela lhe dizia, à queima roupa, hoje não tem creche, ou seja, hoje eu não quero te ver, seu pirralho.
MIRCEA ELIADE Tenho, como o Mircea Eliade, uma espécie de imensa nostalgia dos momentos inaugurais das coisas.
ASSUM PRETO Uma síntese confusa. Festival de Verão, Guarujá, janeiro de 1981. Nós num apartamento alugado na Rua Mario Ribeiro, Edifício Aquarela (aquecimento central com caldeira movida a óleo diesel). Minha avó Ida passando férias conosco (seu aniversário de 64 anos, comemorado por aqueles dias). (Minha avó Ida, nascida em 1917, que tinha uma queda por rapazes cabeludinhos típicos dos anos 1970, como Guilherme Arantes e, sobretudo, Arrigo Barnabé.) Festival de Verão, show do Luiz Gonzaga, à noite, na praia. (Podem procurar que tem no YouTube.) Todo mundo em casa vai ao show, menos eu e o André, que está meio de castigo porque outro dia ficou cuspindo da janela da sala na cabeça do sujeito da loja de cadeados, em companhia de um menino que apelidamos de Papai Gordo. Etc., etc. Luiz Gonzaga toca Asa branca (ir a Roma e ver o papa, etc., etc.). João, com cinco anos, diz que é a música da vacina (Asa branca com a letra modificada, vem correndo meninada pra acabar com essa danada, foi usada na campanha de vacinação contra a pólio, em 1980). Logo eles voltam do show. Muito cheio, muita maconha. Etc., etc. Salto de janeiro de 1981 para fevereiro de 2026. Vejo uma entrevista que o Arrigo Barnabé, o crush da minha avó-1917, deu ao Marcelo Tas em 2022. Arrigo fala que um dia seu pai chegou do trabalho e colocou pra tocar na vitrola um disco do Luiz Gonzaga cantando Assum preto. Arrigo diz que começou a chorar por causa da música e sua letra infinitamente triste. (A primeira música que me levou a um estado fortemente introspectivo e me deu uma grande impressão de beleza, melancolia e solenidade foi The green leaves of summer, da trilha sonora da novela Estúpido Cupido.) Etc., etc. Termino de ver a entrevista e vou fazer meu treino de perna. Agachamento búlgaro (v. “K H 100 H CHÁ é ½ arriscado”), depois stiff. Coloco Assum preto pra tocar. Tudo em volta é só beleza, sol de abril e mata em flor, etc., etc. Tenho que parar o agachamento, porque a música está me fazendo rir de maneira descontrolada.
Etc., etc.
16/02/2026
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
NO CALOR DO BURACO, UM FILME DE SADY BABY Quando você está comprimido numa ruindade qualquer para a qual não há escapatória tudo em você acaba dando testemunho da precariedade e da insuficiência. Seus transtornos psiquiátricos, por exemplo. Depressão é doença, etc., etc. Sério mesmo? Eu aposto que quase nunca é, mas sim uma lei de proporcionalidade em curso. Tudo justo e perfeito, como dizem os maçons. Outras coisas em você que fatalmente acabam dando testemunho da merda em que você está mergulhado (da merda em que todo ser humano, sempre e necessariamente, está mergulhado, não se iludam que existam diferenças substanciais nesse ponto) é o tipo de senso de humor que você acaba desenvolvendo e o tipo de proposições que você vem a enunciar quando se torna gente grande. Se você leva mais ou menos jeito pra coisa, pra criar frases que, de alguma forma, captam e expressam verdades, e, sobretudo, se você não chama a merda por qualquer nome eufemístico, com alguma sorte você acaba se tornando um Soren Kirkegaard ou um Emil Cioran. (E com muita sorte você acaba se tornando um Costinha, v. “aquela piada lá da empregadinha que está indo ao mercado comprar um coco, dois litros de leite e um Bom-Bril”.) O negócio, no final das contas, o negócio fundamental é você caminhar com suas próprias, ainda que precárias, pernas e não dar ouvidos a esses charlatães que vivem de proclamar triunfos que não são triunfos de maneira alguma. A medicina em geral e a psiquiatria em particular, por exemplo. Nada há de triunfante nelas, embora tanto as narrativas autolegitimadoras quanto o falatório público a respeito delas sugira o contrário. (Nada mais kitsch do que essa narrativa positiva de supostos diagnósticos psiquiátricos, autora tal, mais de dois milhões de exemplares vendidos, dando palestra motivacional lá na empresa do Eudes, os colega da firrrma, lá em São Bernarrrdo, etc., etc.)
MORTOS EPPUR SI MUOVE Vamos ao New Deck, lanchonete na Rua Doutor Renato Paes de Barros que existiu até 1984 e que, no entanto, ainda está lá (assim como eu, que morri em 2007, ainda estou aqui, assim como o Faustão Transplante de Cuzão, que morreu-e-esqueceram-de-enterrar, continua por aí). Julinho Safardana conta que saiu com a Dete, aquela empregada que ficou presa no ralo da cozinha da casa da minha tia Gylka e que a gente ajudou a tirar ela de lá, desmontando o sifão e puxando a mulher pra fora. Etc., etc. Julinho diz que levou a Dete ao motel Disco Verde, na Washington Luís (motel que hoje também só existe na dimensão em que temos a posse plena e simultânea das merdas todas que o tempo produziu). Que na saída o cartão de banco dele deu tilt e que ele precisou ir pegar dinheiro em espécie em casa. Que enquanto isso a Dete ficou retida no motel, num quarto que estava sendo reformado, quase um sequestro mesmo. Que ele pegou em casa um bolo de cédulas do Banco Imobiliário e voltou ao motel. Que ele pagou a conta do motel com as tais cédulas. Que um funcionário foi chamar a Dete e viu que ela não estava no quarto. Que o Julinho pediu uma lanterna e foi até o banheiro. Que o Julinho viu que a Dete havia sido sugada pelo ralo da banheira de hidromassagem. Que então ele, o funcionário e o gerente do motel puxaram a Dete para fora.
Etc., etc.
CAPAS DE PLAYBOY QUE INFELIZMENTE NÃO EXISTIRAM Cecília Malan, em abril de 2017, e Dani Calabresa, em fevereiro de 2011.
(Dia 09 próximo faço cinquenta e cinco anos. E la nave va.)
05/02/2026
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
OUVIDORIA O estrangeiro, Caetano Veloso, 1989. O pintor Paul Gauguin amou a Baía de Guanabara, etc., Caetano soa como Deus falando através de um megafone (alguém disse isso sobre John Lennon em A day in the life, etc., etc.). O álbum (“álbum dela é cacófato”) é quase uma coautoria entre Caetano, Arto Lindsay e Peter Scherer.
(Ouvi muito, numa época já bem remota, uma música dos Ambitious Lovers, Quasi you. A música é bem legal e também é um ensaio dos timbres/ruídos que Lindsay/Scherer usaram depois em O estrangeiro.)
A propósito:
https://apartamentoseduardohaak.blogspot.com/2018/07/na-pompeia-em-1991.html
SHARON MITCHELL Sharon Mitchell é talvez a atriz mais bonita da história do cinema pornô. Até o pescoço da Sharon é lindo.
JONI MITCHELL Deixo-me infiltrar pela calidez de Joni Mitchell cantando Edith and the kingpin, acompanhada por um supertime de músicos (Lyle Mays, Pat Metheny, Jaco Pastorius), num show ocorrido em Santa Bárbara, Califórnia, 1979. Se existisse máquina do tempo, de vez em quando eu passaria umas temporadas em 1979.
1982 Eu, André e Julinho Safardana, o dono do túmulo mais brega do Brasil, vamos dar umas voltas por 1982 num Chevrolet Comodoro 1980, verde, placa UZ-6869. Ouvimos durante o passeio uma fita com as seguintes músicas: I ran, Flock of a Seagulls, Let me go, Heaven 17, Too shy, Kajagoogoo, Situation, Yazoo, Airwaves, Thomas Dolby, Der kommissar, Falco, Rock the casbah, The Clash, Steppin’ out, Joe Jackson.
CLUBE DE CAMPO DO (VINAGRE) CASTELO Clubes de campo são anacrônicos, como são anacrônicos as listas telefônicas e os cinzeiros. Suas paisagens são melancólicas. Talvez pela presença da represa (Guarapiranga, no caso) não há como não pressentir que aquilo tudo, aquela beleza toda, é uma ambiência sobretudo lodosa. As amplidões do clube de campo e sua emulação de natureza são frustrantes, assim como é frustrante seu ideal de exclusividade, de mundo à parte. Suas possibilidades de socialização entre iguais são duvidosas. Seu ideal de lazer é frágil e, usando mais uma vez a palavra, anacrônico – esportividade de final de semana, cinquentões barrigudos jogando tênis e golfe, outros às voltas com atividades náuticas. E, sobretudo, escandalosamente anacrônica é a ideia de elegância que clubes de campo buscavam personificar.
BLECAUTE SALVA NEWTON CRUZ DA CADEIRA ELÉTRICA Foi uma chamada de primeira página do extinto (e cada vez mais extinto) tabloide humorístico O Planeta Diário. Hilária para quem já andava por esse vale de lágrimas em abril-maio de 1984, a chamada hoje exige notas de rodapé para ser minimamente compreendida. Sob a chamada estava a foto de um indivíduo afrodescendente com os cabelos alisados que parecia mas não era (Denorex, etc.) o sambista Blecaute (apelido alusivo à escuridão de sua pele, etc.). Blecaute (cantor) aludia ao blecaute (pane no fornecimento de energia elétrica) então recentemente ocorrido, em 18 de abril de 1984, na região sudeste do Brasil, blecaute que imaginariamente salvou o general Newton Cruz (um dos generais mais bufões e cascas-grossas da ditadura) de uma imaginária execução numa bzzzzz cadeira elétrica.
Doo-doo-bee-doo-wah.
29/01/2026
ALÔ, ALÔ, MARCIANO, por Eduardo Haak
ELI, ELIS, ELISA, ELISÂNGELA, ETC. Dou uma ouvida em alguns álbuns da Elis Regina. Procuro o que tem Caxangá. É o de 1977. Depois ouço o de 1980. Gosto desse álbum. Nova estação, apesar da letra esperançosa, da pregação bicho grilo alto astral, aliás característica das composições de Thomas Roth e Luiz Guedes, é uma canção das mais interessantes. Sobre as interpretações de Elis para o pessoal do Clube da Esquina, Vento de maio talvez seja a versão definitiva da música, Trem azul é o.k. e O medo de amar é o medo de ser livre é uma catástrofe. No mais, gostar desse álbum não significa que eu consiga ouvi-lo inteiro.
DISCO EXCELENTE QUE NÃO DÁ PRA OUVIR Loveless, My Bloody Valentine, 1991. As canções são ótimas, mas aquela coisa de deixar o som ultrassaturado e ultracomprimido não dá pé.
MORTE E VIDA SEVERINA A quem estais carregando, irmãos das almas?, Chico Buarque e João Cabral de Melo Neto, tem a maior pegada gótica, pós-punk, a começar por aquela coisa ao mesmo tempo arcaica e moderna típica do modalismo que estrutura a música. Da abertura, a quem estais carregando, até o verso essa foi morte matada numa emboscada, a musica fica indo e vindo entre os modos E frígio e D frígio. De o que guardava a emboscada até tinha uns hectares de terra o modo é D dórico. De mas que roças ele tinha até queria mais espalhar-se a coisa vai e vem entre os modos G dórico e D dórico.
ITAIM-BIBI A Faria Lima terminava pouco depois do cruzamento com a Cidade Jardim. O dali-pra-frente foi inaugurado só em 1995. Mais ou menos onde hoje está o Banco do Brasil funcionou por bastante tempo uma loja da Levi’s. Não sei até quando. Talvez meados dos anos 1980. Na fachada da loja havia uma maçã coberta por uma calça jeans. A maçã era alusiva a um derrière feminino.
LUTERO LUIZ PERDEU O DEDO NO VENTILADOR NO FUZILAMENTO DE WILZA CARLA Dias Gomes era um comunista de boa cepa, nada a ver com a bestialidade analfabeta da esquerda contemporânea. Lulu Gouveia (Lutero Luiz), dentista e vereador de oposição (PT) em Sucupira, era, à sua maneira, tão pilantra quanto Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo). Neco Pedreira (Carlos Eduardo Dolabella), editor-chefe de A trombeta (jornal nanico de esquerda ou, nas palavras de Odorico, imprensa canhotista, calunista, vermelhoide moscoventa, etc.), divertia-se um bocado com Odorico, dizendo que Sucupira perderia totalmente a graça se o coroné deixasse de ser prefeito. (Bestialidade analfabeta também define o grosso da direita contemporânea, dominada pelos Eudes, os colega da firrrma, lá em São Bernarrrdo, etc., etc.)
TEM SEMPRE UM AIATOLÁ PRA ATOLAR ALÁ Pepe Escobar diz no canal Pepe Café que os atos de violência contra os manifestantes no Irã não foram cometidos pela Guarda Revolucionária, mas sim por gente do Estado Islâmico que se infiltrou por lá. Sempre ouço com interesse o que o Pepe tem a dizer (ele tem tiradas ótimas, Trump é o Neocalígula, a Europa é o Otanistão), mas sempre que ouço o Pepe parece que estou lendo uma página meio delirante de algum livro do Thomas Pynchon.
JUST BEFORE THE WAR WITH THE ESKIMOS Trump vai anexar a Groenlândia. A Rússia não só não dá um pio como ainda quase elogia, dizendo que vai ser um feito histórico. Sei lá. Isso não soa meio Molotov/Ribbentrop pra vocês, não?
PIADAS DO SÉCULO PASSADO Como é que é aids em japonês? Cukimata. E em paraibês? Bichinho da porra. Qual a diferença entre a aids e o Lada (carro soviético de grande sucesso no Brasil nos anos 1990)? A aids você consegue passar pra frente.
Etc., etc.
21/01/2026
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
OUVIDORIA Love like a blood, do Killing Joke. The rainbow, do Talk Talk. Synaesthesia, de Chris & Cosey.
COSEY FANNI TUTTI Artista multimeios inglesa. Nos anos 1970 fez performances em galerias sérias exibindo seus absorventes íntimos usados. Protagonizou, como atriz, vários filmes pornôs, não por necessidade de sustentar vício em drogas ou qualquer desgraça do tipo, mas como extensão de seu trabalho artístico, aquela coisa de questionar o papel da mulher, etc., etc., coisa que na época era um pouco menos clichê do que é hoje. Dos anos 1980 para cá concentrou seu trabalho em música, tendo sido pioneira nos gêneros industrial e trance. Cosey era/é uma mulher linda, totalmente meu número. Com ela eu casava.
ARQUEOLOGIA Um lugar no Itaim-Bibi chamado Espaço Off, Rua Romilda Maria Gabriel, quase na Nove de Julho. Em 1987 dava um baita prestígio (prestígio underground, entenda-se) para qualquer banda tocar lá. (O Vultos, Marcos Andrada, “incógnito”, tem um bootleg gravado no Off.) Parece que o imóvel (sobreloja num prédio de apartamentos) abrigou antes uma boate de veados (v. Dercy Gonçalves, “...de boate de veado, olha só que f.d.p.!”) chamada Rolf Club (v. Jaime Segal e tio Rolf, “Vocês vão comer maionese e dançar rock’n’roll”).
EPPUR SI MUOVE OU: NA ETERNIDADE COMETEREMOS VARIAÇÕES DAS CAGADAS QUE COMETEMOS NO TEMPO OU: A FARSA SE REPETE COMO HISTÓRIA Noitada sensacional no Espaço Retrô, lugar na Frederico Abranches que foi demolido em 1993 e que, no entanto, continua lá. Vimos, eu e o Julinho Safardana (o André preferiu ir ao Mercado Car ver se achava um retentor de borracha), o espetáculo Tá mais é certo, tinha mais é que passar fogo naquela vagabunda, da dupla Doca & Ângela, espetáculo que mistura música, performance e reconstituição de cena de crime. Etc., etc. Depois, apresentação do novo grupo de Adoniram Barbosa, o Trem das Onze Almas do Joelma, formado por ele e pelas tais treze almas que ficaram presas no elevador e que morreram tostadas lá, no incêndio, só que não faria sentido dizer trem das treze, etc., etc.
(O André anda me devendo uma visita. Já falei pra ele não aparecer como assombração, porque assombrações assombram, não tem jeito, então seria legal ele aparecer num daqueles sonhos lúcidos que você diz, cara, acho que isso não foi só sonho, etc., etc. Já sugeri os lugares: a pizzaria O Forno, um lugar que existiu entre 1965 e 1996 na Rua Joaquim Floriano, 261. Ou a Pizzaria Ari, na Rua Tabapuã onde hoje tem o prédio da CIEE. Ou o casarão do Clube de Campo do Castelo, aonde levaríamos amendoins, cervejas, cigarros John Player Special naquelas embalagens cilíndricas com cem cigarros que as pessoas compravam no Paraguai. Aí ficaríamos lá, conversando longamente, eu contando as boas novas, o Salviano fez implante capilar, deve tá boniiiiito, né?, ele me contando as boas novas, o tio Alaor é um velho meio escamoso, mas é gente fina, a vó Rosa continua com aquela coisa de falar com a televisão, de domingo quase sempre vamos almoçar na casa da tia Emma, a casa mesmo, lá no Guarujá, sim, na eternidade nada se perde e temos a posse plena e simultânea de tudo que o tempo produziu, as Scarpinis todas presentes, a vó Maria sempre enchendo o saco do vô Haak, controlando os cigarros dele, aí ele sempre vem me pedir cigarro e a gente vai até o morrinho lá atrás da casa pra fumar e ele sempre diz, a Maria é uma chata, estou morto desde 1975 e ela ainda com essa coisa de controlar meus cigarros, etc., etc.)
COM FRAGMENTOS TAIS FOI QUE ESCOREI MINHAS RUÍNAS, ETC., ETC. Ainda sei o telefone de um colega do Gracinha de quem eu nem era tão próximo, 70-1009. Pelo prefixo é Vila Mariana. Um dia estava levando a Olívia à Cultura Inglesa da Madre Cabrini e passamos por uma casa que eu cismei que era a casa desse colega, fui uma vez a uma festa de aniversário dele, em 1979, sei a data porque meu tio que morreu de câncer na Av. Iraí, 300, estava internado e meus pais foram visitá-lo antes de irem me buscar na festa.
QUANDO O VOLTAIRE DE SOUZA NÃO ERA UM CUZÃO PAUTADO PELA ESQUERDA Um texto em que Voltaire fala que fulano, na vida, é um Corcel 75. Outro em que o general Castelo Branco sai de um disco voador e diz para um pinguço parar de beber.
Etc., etc.
13/01/2026
ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak
NA ETERNIDADE TEREMOS A POSSE PLENA E SIMULTÂNEA DE TODAS AS CAGADAS QUE FIZEMOS NO TEMPO Um determinado tempo, uma determinada época, só tem caráter (zeitgeist) e densidade ontológica por causa do peso maciço e compressivo do real, com todos seus contrastes radicais entre possibilidades e impossibilidades, com todos seus riscos e ameaças, com todo o passado que ainda age sobre todo e qualquer presente. Portanto, um determinado ano (digamos que 1982) que visitamos, que atravessamos como habitantes do eterno (na eternidade temos a posse plena e simultânea de tudo que o tempo produziu, etc.), esse ano não será propriamente 1982, pois não será experimentado com o risco existencial que pesava sobre todo ser humano que de fato estava em 1982.
NA ETERNIDADE TEREMOS A POSSE PLENA E SIMULTÂNEA DE TODAS AS CAGADAS QUE FIZEMOS NO TEMPO O caráter de um tempo na verdade é obscurecido e distorcido pelo peso maciço e compressivo do real. O que há de verdadeiro num determinado tempo (1982) é aquilo que momentaneamente escapa da opacidade opressiva das necessidades desse real (nec cedere) e que vemos momentaneamente em vislumbres. A memória fixa justamente essas partes, as de fato ontologicamente significativas de uma época. Na eternidade, portanto, veremos pela primeira vez um determinado tempo (1982, digamos) em sua plenitude, veremos como uma promessa cumprida, realizada, algo que quando estávamos no 1982 temporal apenas vislumbramos brevemente como promessa, promessa apontada para nossa plenitude futura.
OUVIDORIA Morton Feldman Early Piano Works, Steffen Schleiermacher, 2003.
OS BRUTALISTAS TAMBÉM AMAM Entro pela primeira vez no Edifício e Galeria Califórnia, Rua Barão de Itapetininga, 255. O prédio é do Niemayer e tem um mosaico de Cândido Portinari na recepção. Os conjuntos comerciais são amplos, com chão de taco e pilotis visíveis. Gosto cada vez mais de arquitetura brutalista (o prédio não é brutalista), aquela coisa de concreto, ferro e vidro, os ditos materiais não burgueses, como dizia o panaca do Le Corbusier (ou o panaca do Mies Van der Rohe).
GERSON CONRAD De arrepiar os cabelos as coisas que Gerson Conrad, Secos e Molhados, diz sobre o João Ricardo e especialmente sobre o pai dele, João Apolinário, no podcast do Clemente Magalhães, Papo com Clê. Vejam e tirem suas conclusões. (v. “Comunista come criancinha e mente que tinha cabelo no prato pra sair sem pagar a conta”.)
MÓ DA HORA SUA TATOO Nas quintas-feiras de 2004 as pessoas iam à Funhouse, Rua Bela Cintra, 567, mostrar as tatuagens que tinham feito. A casa tinha algum carisma e uma certa insalubridade que lhe dava ares de CBGB. Tatuagem estava no auge do hype. Pressinto que a subcultura tatoo (v. “O avião, senhor Roarke, o avião!”) esteja meio fossilizada. Qualquer estúdio de tatuagem me dá a sensação de que voltei vinte anos no tempo.
SURFWEAR Uma carteira Primo, marrom, de náilon, que ganhei de Natal da minha avó Ida. Dentro da carteira havia uma nota de cinco mil cruzeiros, efígie do Castelo Branco. Minha avó sempre dava uns presentes legais, elaborados, etc., etc.
EPPUR SI MUOVE Muito bacana a festa de réveillon no Edifício Joelma, a 2026 vai pegar fogo! (Como todos sabem, eu, Eduardo Haak, morri em 2007.) Estavam lá: Júlio Barroso, o Safardana, meu irmão André, Marcílio Múmia Paralítica e todo um grande elenco de assombrações assombrosas.
PIADAS DO SÉCULO PASSADO Aquela que o Costinha conta do sujeito que fica importunando uma mulher no ônibus, dou dois mil cruzeiros, etc., etc.
02/01/2026