DIDIMALGIA Um quadro de Os Trapalhões em que Alfredo Murphy (v. “Sandoval! Ei Sandoval!”) aponta um revólver para o Didi e o obriga a ir bebendo chá, etc., etc.
OUVIDORIA Vice versa, etc., Eliane Radigue, 1970. (Eliane morreu em 23 de fevereiro último, aos noventa e quatro anos.)
(Estou em 2021 e sigo de bicicleta pela Marquês de São Vicente, pensando se vou até a Avenida Rudge e entro no Bom Retiro ou se pego a Rua dos Americanos, atravesso a Ponte da Casa Verde e sigo por Santana, Jardim São Paulo, Mandaqui. Vou ouvindo enquanto pedalo Adnos I, peça de drone music que Eliane compôs em 1974. Hoje é dia 8 de abril e morrerão de covid-19 no Brasil 4.249 pessoas.)
CINEMA BRASILEIRO Diário Popular, edição de 16 de agosto de 1987, seção Filmes em cartaz, Alucinações sexuais de um macaco, direção de Custódio Gomes, 18 anos, 18h30, 20h, 21h30, Ruddy Center, Sala 2, Avenida Caminho do Mar, 3438, S. B. do Campo, SP.
SORTEIO Clodovil bebeu pinga com pólvora na privada de Pedro de Lara. (Um show do Clodovil chamado Seda pura e alfinetadas, início dos anos 1980. Sei lá, brou. Nenhuma saudade do Clodovil. Nenhuma também da Hebe Camargo.)
(A ideia de eternidade fica realmente estranha quando pensamos em coisas como um Clodovil Hernandez existindo para sempre, um Clodovil irrevogável, um pobre Clodovil tendo de ouvir por toda a eternidade piadas como Clô para os íntimos, vil para os desafetos e dou para todos, cara, se eu fosse o Clodovil eu mandava o universo e sua irrevogabilidade toda se foder, morou?)
VENDO FUSCA 1980 LANTERNA “FAFÁ” Uma música dos Garotos Podres em que se sugere que o Gilberto Gil e o Caetano Veloso ordenhem a Fafá de Belém.
NÃO É MESMO?, COMO DIZIA A NEIDE TAUBATÉ Achar que a elegância é capaz de revogar a deselegância, a clareza a obscuridade, sendo que essas coisas existem como polarizações, como eixos dialéticos sem possibilidade de síntese. (É, mas às vezes a elegância revoga a deselegância e a clareza revoga a obscuridade. E vice-versa. E aí?)
PIADAS DO SÉCULO PASSADO Uma que você dizia para o interlocutor, eu vou dizer umas coisas e você diz em seguida “fui junto”, tá?, aí você ia dizendo, fui não sei aonde, fui junto, fui não sei aonde, fui junto, fui ao banheiro, fui junto, usei a privada, fui junto, puxei a descarga, fui junto.
PUXEI A DESCARGA... FUI JUNTO A vontade de que, num passe de mágica, sumissem do mundo merdas como Edir Macedo, banco Digimais, bancada evangélica, Republicanos, centrão, aqueles-cafonas-que-vão-à-Paulista-protestar-com-camisetas-amarelas. E também PT, PSOL, ex-alunas do Gracinha que aos quarenta anos param de pintar o cabelo, adeptos histéricos da cultura woke.
MORTOS EPPUR SI MUOVE Vou à festa Churrasco de laje no recém-inaugurado rooftop do Joelma. André está usando um safári cáqui meio pequeno para ele que ele disse que pegou emprestado com o seu Salvador (v. “Seu Salvador ficou chorando no show do Moacyr Franco”). Um sujeito vem perguntar pra nós onde ele pode comprar cigarros. Ele tem meio jeito daqueles punks dos Jardins que davam plantão no Anny 44 em 1985 e está usando uma camiseta preta com a estampa de uma radiografia que ele diz que é a radiografia de seus pulmões já completamente fodidos por causa do adenocarcinoma metastático que o matou, etc., etc. Mostramos o cara que vende cigarros, o Dráusio, aquele careca lá com cara de Frankenstein subnutrido. Digo pro punk que ficou legal a camiseta, bem bolada, ele agradece e diz que está rolando meio uma tendência disso entre os mortos eppur si muove, camisetas com tomografias, fotos de perícia, certidões de óbito, etc., etc.
21/03/2026