JUCA DE OLIVEIRA (1935-2026) A propósito da morte de Juca de Oliveira (v. “Juca só-poderia-ser-o Chaves recebe diagnóstico de draculismo e comete suicídio com uma bala Juquinha de prata”), lembrei-me de seu papel em À flor da pele, um filme de 1976, direção de Francisco Ramalho Jr. O filme é um drama leve com final otimista, nesse sentido semelhante a outro filme do Ramalho Jr., Filhos e amantes, 1981. (Gosto de ambos. Filhos e amantes, filme, tem e não tem relação com D. H. Lawrence, não-tem por não ser a mesma história, e tem por ser um drama leve com final otimista, que é o que o Lawrence substancialmente é, a humanidade comum potencializada por mitos gregos aplicados a suas partes genitais, ou seja, no final todos seremos salvos por Eros, êêêêê, uma salva de palmas pra ele, clap-clap!, daí para um professorzinho de meia pataca e uma jovem mimada que se mete na cama dele parecerem criaturas esplêndidas é um pulo, vou voltar a esse ponto.)
Um amigo próximo me informa (v. Deep Throat, Gerard Damiano, USA, 1972) que Consuelo de Castro escreveu À flor da pele em cima do caso que ela teve com um professor, casado, etc., etc., professor que esse mesmo amigo me diz que tinha a maior pinta de bicha, só que não era (v. “hoje é Sábato, amanhã é domingo”). O filme de Ramalho Jr. tem aquela coisa estanha de certos filmes bons, que são os personagens bobos (ou insuportáveis) que surpreendentemente te interessam e por quem você se afeiçoa logo de saída. Oliveira faz o bobão cativante, um professor da escola de arte dramática da USP que tem um caso com uma aluna, interpretada por Denise Bandeira, lindinha e pé no saco total, hoje seria paciente psiquiátrica medicada, nos anos 1970 quando contrariada mostrava os peitos para os amigos do pai (chocar a burguesia, etc., etc.), em suma, cada época tem a mediocridade que merece: D. H. Lawrence ou podcast com a doutora Ana Beatriz Barbosa Silva? Lawrence é ruim, mas pelo menos nos lisonjeia mais. E nessas de lisonja talvez até acabe nos colocando a par do que de fato é real e verdadeiro (quid est etc.?), ao passo que podcasts monetizados são sempre e necessariamente uma forma de delírio aterradora.
Mas volto à tese de que talvez qualquer bobalhão sob uma luz favorável (lisonja) acabe mesmo ficando até que interessante. Ou uma jovem aspirante a atriz, mimada e borderline. Dado eu ter afirmado isso, que essa coisa toda tão século XX, Filhos e amantes, À flor da pele, Eros, Lawrence que não é o da Arábia, etc., etc., em suma, que tudo isso pode ser apenas o banal efeito de uma luz favorável elevando o homem a alturas a que, definitivamente, não lhe pertencem, disso decorre que eu teria tudo para detestar o filme Filhos e amantes, mas o fato é que eu o acho delicioso. Guardo até hoje a lembrança da sensação de calidez e luminosidade, como um leve estado febril, que o filme me provocou na primeira vez em que o vi, numa madrugada de 2000 no então sempre interessante Canal Brasil da NET. Gostei, não só como também, da materialidade do filme, Juca parando seu Opala 2600 na Rua Major Sertório, ele e Denise subindo ao escritório/garçonnière/slaughterhouse dele, Denise analisando o ambiente com deboche, Juca com um sorriso todo cheio de dentes o tempo todo e com um cavanhaque que o deixou meio parecido com o Lindomar Castilho (v. “Soy um mamarracho”), não, Juca definitivamente não estava bem no papel, provavelmente foi mal dirigido, mas ao mesmo tempo isso não importa muito, porque gostamos dele mesmo assim, assim como da Denise Bandeira espoleta, primitiva, quase tosca, mas tão linda caminhando sobre o viaduto da Rua Cubatão, Vila Mariana, num final de tarde nublado de 1976, lindamente fotografado, não sei se Ramalho Jr. era/é um grande diretor, mas nesses dois filmes que citei ele mostrou mestria, talvez uma mestria meio por acaso, hora pro nobis, que a hora, o tempo, nos seja favorável, e no tempo certo Ramalho soube ligar e desligar a câmera, legando-nos dois dramas leves e intimistas com finais quase-felizes que foram feitos para ser amados ou deixados em paz, como disse o maluco chuchu beleza lá, o Amado Baptista, de qualquer maneira mestria é mestria e, como dizia a vendedora de vibradores de uma famosa loja de Nova York nos anos 1970, se funciona, aleluia.
23/03/2026