ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

MORTOS EPPUR SI MUOVE EM: ILHABELA, PARTE 2 Acordo pensando na melodia de Rise, de Herb Alpert. Estava sonhando com gelo, copos de plástico com a borda trincada, uma bomba de encher pneu de bicicleta que alguém estava tentando me vender, um cinema fechado desde 1957. Abro os olhos. Demoro-me na cama pensando na conversa que tive ontem com a Cobalto 60. Ela, que se chama Renata e que se parece com a Ítala Nandi, na verdade não morreu de câncer nos ovários, em 1991, como eu havia suposto, mas por suicídio em 1999 (enforcamento com a faixa do roupão presa no cano do chuveiro). Não costumo dar continuidade a conversas com mulheres que se mataram, mas talvez abra uma exceção à Cobalto 60. Mulheres suicidas normalmente são mais narcisistas, egocêntricas e reivindicadoras do que a média das mulheres. (Na minha experiência, pelo menos.) Eu disse para ela que morri em 2007, mas que não consigo me lembrar como. (O que é verdade. Às vezes digo que morri ao levar uma descarga de 30.000 volts num iô-iô, que o iô-iô bateu numa cerca eletrificada.) Levanto-me e vou à garrafa térmica e despejo café numa xícara e acendo um Gauloise e vou à janela e fico ali, parado, sentindo o retrogosto do tabaco e do café. (V. “Você não acha que a blasfêmia é a expressão de um amor desesperado, no sentido de desesperançado, por Deus?”) Etc., etc. Desço para o café da manhã e vejo Julinho e André conversando com o argentino que ontem estava na boate com a camisa nota de um peso do general Belgrano. Sirvo-me – café, pão de centeio, queijo branco – e vou me sentar com eles. Julinho está contando a história de um tal de Paulão Abacate, um fisiculturista que puxava cento e trinta quilos de cocaína no supino reto (sessenta e cinco quilos de cada lado), depois ele conta a história de um tal de Formiga  Atômica, um fisiculturista que treinava com anilhas feitas de urânio, material que é 2,4 vezes mais denso que o ferro, e depois fala sobre o Bob Marley, um fisiculturista jamaicano que puxava quase uma tonelada de fumo no leg press. Estamos no hotel em que foi-será rodado, em 1980, o filme O inseto do amor, de Fauzi Mansur, o Hotel Ilhabela. O argentino nos conta que morreu-morrerá em 1982, de infarto, depois que ouviu-ouvirá a notícia sobre a rendição na Guerra das Malvinas. Etc., etc. Termino de comer e me levanto e vou até a piscina e vejo a Renata Cobalto 60 (ou Renata Faixa de Roupão) e peço um cigarro a ela e ficamos ali, fumando avec e conversando. (Renata fuma Galaxy, a decisão inteligente.) Dois sujeitos passam por nós e pesco um pedaço da conversa deles, você sabe como é que são esses fanáticos imbecis da Opus Dei. Renata diz que tem a sensação de já ter me visto, de me conhecer há muito tempo, digo a ela que passei férias com minha família nesse hotel em 1979, que eu tinha oito anos, que vimos o último capítulo da novela Dancin’ Days aqui, que talvez tenha sido aqui que ela me conheceu, aos oito anos, e Renata diz, é, pode ser. (Estive aqui em 1979, estou-estamos aqui em 1979, portanto todo dia é dia do último capítulo de Dancin’ days.) Pergunto o que Renata faz da vida-morte e ela responde que tem algum dinheiro aplicado e alguns imóveis e que depois de morrer ela morou no Vale dos Suicidas por um tempo, que o lugar era ótimo, só gente bonita, inteligente, upper class, mas que aí a coisa começou a desandar, começaram a chegar uns ônibus de farofeiros (farofeiros suicidas), primeiro uns poucos ônibus, depois aos montes, uma gente porca e sem educação, sabe?, pois é, quem mandou ensinar Nietzsche e niilismo pra pé de chinelo?, o único resultado disso foi a pobraiada começar a se matar, cortar os pulsos,  tomar veneno, dar tiro na cabeça, e transformar um lugar espetacular num lugar completamente  horroroso. (V. Francisco Cúrcio em A noite do desejo, Fauzi Mansur, 1973, fazendo uma bichinha com cara de “Luís Américo”.) 

Etc., etc.

17/05/2026