ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUVIDORIA In a silent way, Miles Davis.

O SEGREDO DA DAMA Nunca soubemos se O Segredo da Dama era ou não uma maison de tolérance. A casa ficava na Renato Paes de Barros, 519, ao lado do prédio da Mírian Lane. Mírian foi morta a tiros, em frente ao prédio, numa tentativa de assalto no começo de 1984. Uma vez consegui dar uma espiada no Segredo, a porta estava aberta. Vi uns panos de cetim pendurados no teto, almofadões, espelhos. 

BOÉCIO ERA UM BEÓCIO? Na eternidade teremos a posse plena e simultânea das coisas todas que o tempo produziu. Posse plena e simultânea, beleza, mas isso teria de coexistir com estruturas sucessivas (começo, meio e fim, antes e depois), senão o Costinha, morto eppur si muove, não teria como contar suas piadas, como aquela do cearense que dá uns cascudos num judeu, por exemplo.

ESCOLA PANAMERICANA DE ARTE Sensacional que tenham conseguido o tombamento do prédio da EPA, na Avenida Angélica. É bom ver empreiteiras e construtoras se dando mal às vezes. Agora a batalha é pelo prédio da Ford na Rua Sólon, Bom Retiro.

REDISTRIBUIÇÃO DE RENDA A pobraiada precisa deixar de ser ingênua e aprender na prática que comprar coisas, ter coisas, não livra ninguém do taedium vitae. Ou seja, os pobres precisam aprender que a precariedade e a insuficiência são basais na experiência humana, não é coisa de desigualdade social. (V. Quanto vale o show?, Racionais MC’s.)

MACONHEIROS Em usos e costumes sou liberal radical. Se o cidadão quiser fumar maconha e depois ir nadar na caixa d’água do prédio (e acabar cagando na caixa d’água, como fez uma vez um maconheiro contumaz no prédio da minha tia Gylka), acho que a polícia não tem que se meter. (Mas acho que os condôminos têm a obrigação de dar uns tabefes no maconheiro e depois obrigá-lo a beber os mil litros da água com merda.)

MEU PROBLEMA COM A "ESQUERDA" Acho que a cultura de esquerda, seus símbolos, seu sistema de cancelamentos e recompensas, seus totens (“Chico entende a alma feminina como ninguém”, etc., etc.), é brega, autoritária e middlebrow. 

HUMOR Acho que o humor é nosso tribunal de última instância (vão por mim, tenho 55 anos, posso falar por experiência: nessa vida tudo falha, tudo colapsa, tudo vai pro brejo, menos o chiste).

DONA LÉA FEZ PERMANENTE NA CAVEIRA DE CHINESINHA Vamos com o Eduardo Gordinho ou Yoplait ao O Segredo da Dama. Estamos em 1984, temos treze anos, mas estamos em 2026 e temos cinquenta e cinco (o André tem onze, mas tem cinquenta e três). Eduardo Gordinho ou Yoplait bebe cinco copos de um coquetel feito com pinga e Yoplait de chocolate e fica bêbado (aos treze anos) e entra em estado hiperglicêmico grave com alucinações (aos cinquenta e cinco, porque diabético, como todo gordo acaba ficando) e começa a contar um monte de piadas do tempo da quinta série: se você estivesse amarrado num poste e a Xuxa chegasse pelada e começasse a esfregar a xereca na sua bunda, o que você gostaria de ter na bunda?

Etc., etc.

28/05/2026


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

MORTOS EPPUR SI MUOVE EM: ILHABELA, PARTE 2 Acordo pensando na melodia de Rise, de Herb Alpert. Estava sonhando com gelo, copos de plástico com a borda trincada, uma bomba de encher pneu de bicicleta que alguém estava tentando me vender, um cinema fechado desde 1957. Abro os olhos. Demoro-me na cama pensando na conversa que tive ontem com a Cobalto 60. Ela, que se chama Renata e que se parece com a Ítala Nandi, na verdade não morreu de câncer nos ovários, em 1991, como eu havia suposto, mas por suicídio em 1999 (enforcamento com a faixa do roupão presa no cano do chuveiro). Não costumo dar continuidade a conversas com mulheres que se mataram, mas talvez abra uma exceção à Cobalto 60. Mulheres suicidas normalmente são mais narcisistas, egocêntricas e reivindicadoras do que a média das mulheres. (Na minha experiência, pelo menos.) Eu disse para ela que morri em 2007, mas que não consigo me lembrar como. (O que é verdade. Às vezes digo que morri ao levar uma descarga de 30.000 volts num iô-iô, que o iô-iô bateu numa cerca eletrificada.) Levanto-me e vou à garrafa térmica e despejo café numa xícara e acendo um Gauloise e vou à janela e fico ali, parado, sentindo o retrogosto do tabaco e do café. (V. “Você não acha que a blasfêmia é a expressão de um amor desesperado, no sentido de desesperançado, por Deus?”) Etc., etc. Desço para o café da manhã e vejo Julinho e André conversando com o argentino que ontem estava na boate com a camisa nota de um peso do general Belgrano. Sirvo-me – café, pão de centeio, queijo branco – e vou me sentar com eles. Julinho está contando a história de um tal de Paulão Abacate, um fisiculturista que puxava cento e trinta quilos de cocaína no supino reto (sessenta e cinco quilos de cada lado), depois ele conta a história de um tal de Formiga  Atômica, um fisiculturista que treinava com anilhas feitas de urânio, material que é 2,4 vezes mais denso que o ferro, e depois fala sobre o Bob Marley, um fisiculturista jamaicano que puxava quase uma tonelada de fumo no leg press. Estamos no hotel em que foi-será rodado, em 1980, o filme O inseto do amor, de Fauzi Mansur, o Hotel Ilhabela. O argentino nos conta que morreu-morrerá em 1982, de infarto, depois que ouviu-ouvirá a notícia sobre a rendição na Guerra das Malvinas. Etc., etc. Termino de comer e me levanto e vou até a piscina e vejo a Renata Cobalto 60 (ou Renata Faixa de Roupão) e peço um cigarro a ela e ficamos ali, fumando avec e conversando. (Renata fuma Galaxy, a decisão inteligente.) Dois sujeitos passam por nós e pesco um pedaço da conversa deles, você sabe como é que são esses fanáticos imbecis da Opus Dei. Renata diz que tem a sensação de já ter me visto, de me conhecer há muito tempo, digo a ela que passei férias com minha família nesse hotel em 1979, que eu tinha oito anos, que vimos o último capítulo da novela Dancin’ Days aqui, que talvez tenha sido aqui que ela me conheceu, aos oito anos, e Renata diz, é, pode ser. (Estive aqui em 1979, estou-estamos aqui em 1979, portanto todo dia é dia do último capítulo de Dancin’ days.) Pergunto o que Renata faz da vida-morte e ela responde que tem algum dinheiro aplicado e alguns imóveis e que depois de morrer ela morou no Vale dos Suicidas por um tempo, que o lugar era ótimo, só gente bonita, inteligente, upper class, mas que aí a coisa começou a desandar, começaram a chegar uns ônibus de farofeiros (farofeiros suicidas), primeiro uns poucos ônibus, depois aos montes, uma gente porca e sem educação, sabe?, pois é, quem mandou ensinar Nietzsche e niilismo pra pé de chinelo?, o único resultado disso foi a pobraiada começar a se matar, cortar os pulsos,  tomar veneno, dar tiro na cabeça, e transformar um lugar espetacular num lugar completamente  horroroso. (V. Francisco Cúrcio em A noite do desejo, Fauzi Mansur, 1973, fazendo uma bichinha com cara de “Luís Américo”.) 

Etc., etc.

17/05/2026 


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

MORTOS EPPUR SI MUOVE EM: NOITADA NUMA EXTINTA BOATE, 1979 Estamos na balsa, fazendo a travessia para Ilhabela. Há um maço vazio de Du Maurier no console do carro, um Maverick com motor de seis cilindros, cor de abóbora, fabricado em 1974. No vidro lateral direito, traseiro, há restos de um adesivo da Rede Zacharias de Pneus. (V. “Pneu carecou, HM trocou”.) André está no banco de trás, folheando um livro de mensagens psicografadas (na verdade uma fotonovela erótica-espírita em que o casal diz um para o outro coisas como “Leia Kardec” enquanto faz sexo). Ele está usando os óculos que em 2024 apelidarei de Mário Covas. Julinho Safardana está com um Benson & Hedges mentolado atrás da orelha e a camiseta que ele está usando, preta, com mangas cavadas, tem aquela foto famosa do cadáver de uma mulher estatelado sobre um carro (a mulher que se jogou do Empire State, etc., etc.). Estamos ouvindo uma fita do Herb Alpert, Rise (v. Lilian, a suja, matando Roque Rodrigues num motel). Penso em dizer que sempre que estou numa balsa me lembro daquela cena de Palácio dos anjos, Geneviève Grad, a sinalização sonora do navio, mas não digo nada. Desço do Maverick e caminho até a borda da balsa e passo por um TL verde abacate e ouço a frase, essa gente com essa positividade cafona toda, sabe?, numa voz feminina, vindo de dentro dele. Etc., etc. Hospedagem no Hotel Ilhabela. (V. “Guaraná Antarctica com rótulo de papel que esfarela”.) Observo as mulheres de 1979, na piscina, tomando sol. Uma de biquíni preto me traz a palavra Cobalto 60 à cabeça e deduzo que ela morreu-morrerá de câncer nos ovários, em 1991. Outra, de maiô inteiriço, azul cobalto, me traz à cabeça aquelas janelas ogivais com vitrô basculante (v. O que é kitsch?, Abraham Moles) da Congregação Cristã no Brasil. Deduzo que a mulher é sapatão na moita e que, quando o marido sai de casa, ela vai correndo pro quartinho da empregada crente, também chegada no velcro (v. Tereza & Raquel, paródia pornô-sáfica de Thelma & Louise). (Janela ogival gótica com vitrozinho basculante cafona de casa de pé de chinelo é hilário mesmo.) Etc., etc. Na boate speakeasy, subterrânea, do hotel, Titus Andonicus Bar. Observo um nacionalista argentino, massagista oficial da Escuela de Mecanica da La Armada, ano letivo 1976, com uma camisa de seda com a estampa efígie de Belgrano na nota de um peso. Observo que a bonitona sáfica tem uma tatuagem (tatuagem em 1979?) no braço, uma janela ogival com vitrô basculante e a inscrição, congregação cristã é uma brasa, mora? Observo, na pista de dança, um sujeito em sua versão cadavérica (uma das possibilidades da eternidade, onde há a posse plena e simultânea de tudo o que o tempo produziu, inclusive cadáveres). Digo para o André e para o Júlio que poderíamos bolar uma revistinha de sacanagem espírita feita só com zumbis, cadáveres já meio decompostos, que a coisa poderia render pra gente uns bons dólares furados (a moeda corrente no mundo dos mortos eppur si muove). A pista de dança tem uma iluminação interessante, mistura de spots, lâmpadas estroboscópicas e projeção de filmes de 16 mm. (O filme que está sendo projetado sobre as pessoas, nessa madrugada de abril de 1979, é Hitler 3º Mundo, de José Agrippino de Paula, especialmente aquela parte no começo em que o ator que é uma mistura de Nosferatu do Murnau com contínuo do Banco Geral do Comércio vai a uma loja de pneus.) (O filme é uma bosta, Agrippino claramente é um cineasta da 3ª. divisão.) Eu estou fumando cigarros Gauloises, sem filtro. (Ou Gitanes, sem filtro.) André está fumando Hollywood. Júlio está fumando um Galaxy avec com uma fulana que parece a Fafá Sanguinária, uma criatura talvez fictícia que fazia-fará sucesso no Orkut em 2004-5. Em 1979, o cigarro mais recomendado pelos pneumologistas da Rede Zacharias de Pneumologia é o John Player Sala Especial e o cigarro mais recomendado pelos oncologistas fundadores da escola grega de ontologia oncológica é o Amééé, ri, caaa, Trimmmm, o cigarro rádio AM preferido das empregadas domésticas lésbicas-sapatonas.

Etc., etc. 

13/05/2026


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

DE LEVE Christian Casertani é o melhor escritor em atividade no Brasil, em 2026. 

https://www.instagram.com/p/DX_2gBHDX9t/

V. “EU GOSTO DE XIDEBA, FILME POIBIDO”, POR MITIKO, A JAPONESA DO JUQUERI, DANDO SEU DEPOIMENTO A GOULART DE ANDRADE A propósito, os filmes do Paulino Tarraff. O cara era um médico da Vila Mariana que filmava por hobby/robe de chambre. Tudo nos filmes dele é extraordinário – a concepção, os registros casuais, as montagens, as trilhas sonoras (Agon, de Igor Stravinsky, nos vídeos que mostram casas agônicas e demolições na Vila Mariana, em 1988). Eu recomendo todos os filmes do Tarraff. Mas esse aí do link acho particularmente esplêndido. 

https://youtu.be/zEq3x8q_1A0?si=VXAW4S2VZnZx4fku

FILMES “DE VEADO” Os imorais, de Geraldo Vietri, e Uma verdadeira história de amor, de Fauzi Mansur. Os imorais, 1979, é um dramalhão sobrecarregado que tem no excesso tanto sua falha quanto sua distinção. Uma verdadeira história de amor, 1971, é sutil, psicologicamente manipulador e, por isso, divertidamente perverso.

ATRIZ PORNOGRÁFICA Melaine Hicks empatada com Gigi Dior. 

OUVIDORIA Lapadas do povo, Raimundos, 1997.

RODOLFO ABRANTES Gosto muito do Rodolfo. O curioso é que tive algum contato, bem indireto, com ele lá por 1995, 96. Eu era amigo de um primo do Rodolfo – não, não era nem o Augusto nem o Berssange, era o Braz, Braz Marinho Júnior. Braz era artista plástico e Rodolfo sempre ia a seus vernissages. Eu achava o Rodolfo um cara bem na dele. Nem simpático nem antipático. Ele agia como quem sabia perfeitamente que, onde quer que ele entrasse, todo mundo iria sussurrar, “olha lá, o cara dos Raimundos!”. A despeito de uma impressão aqui, outra ali, o fato é que na época não pude formar uma opinião consistente sobre ele. Acho que sequer acompanhei direito a coisa de ele “virar crente”, em 2001, e deixar a banda. Sei lá. Em algum momento, muitos anos depois, vi uma entrevista dele e gostei muito. Gosto quando o Rodolfo conta a história de sua conversão religiosa, a cura milagrosa de uma doença grave (fortes indícios de um câncer de estômago), em suma, gosto do relato dramático do homem que teve de lidar com o extraordinário e suas consequências irreversíveis todas. Rodolfo sempre me parece bastante íntegro e pleno no que diz. (Acho que até o fato de Deus, o Onipotente, ter feito contato com Rodolfo Abrantes por meio do esgoto que, de forma geral, é o pentecostalismo faz parte da grandeza dessa história toda. Sim-sim, não há grandeza sem contraste, e de preferência contraste brutal. Evangelho de Rodolfo Abrantes, capítulo 3, versículo 14.)

MORTOS EPPUR SI MUOVE Perdemos uma aposta para o Marcilio Múmia Paralítica e Marcílio escolhe ir comer no Jack in the Box da Praça Panamericana. (A propósito, soube que o Restaurante Senzala mudou de nome para Senzzi. Etc., etc.) Seguimos pela Fonseca Rodrigues no Opala placa UZ-6869. Paramos o carro e o flanelinha vem nos achacar e o André paga o flanelinha com uma flanela nova. Marcílio come no Jack quatro tacos mexicanos. Depois levamos o Marcílio ao Senzala e ele come feijoada. Depois levamos o Marcílio ao restaurante do Ceasa, na Gastão Vidigal, e ele come peixe pintado e bebe duas garrafas de Chateau Duvalier. Observo o quadro com a fotografia oficial do presidente Ernesto Geisel. Estamos em 1978 e estamos em 2026. Marcílio morreu em 2000, ao tomar um choque numa cafeteira elétrica que teve a voltagem e a amperagem desreguladas por causa do bug do milênio. Eu morri em 2007 ou 2008, não me lembro direito. O tempo é uma prisão (filmes exploitation de mulheres presas), mas a eternidade é uma prisão ainda mais avassaladora.

Tchu-tchu-bee-doo-wah. 

 

08/05/2026