ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

COISAS EXTINTAS O restaurante Il sole blu, que ficava na Augusta, dois mil setecentos e qualquer coisa, nos anos 1990. Dive, também nesse trecho da Augusta, início dos anos 2010. Sottozero, Augusta perto da Estados Unidos, anos 1990. Trackers, São João esquina com Dom José de Barros, meados dos anos 2010. Extintas, grupo artístico formado por Magali Bragado e Luciene Lamano. As duas muito gatas, cada uma em seu estilo. Conheci-as juntas, em 2013, numa festa. Apaixonei-me imediatamente pelas duas e acabei namorando a que me deu carona na hora de ir embora. Se desse teria me casado com ambas.

SUZANNE VEGA Ouço algumas vezes Solitude standing, e ouço repetidamente, meio que obsessivamente, meio que um dia inteiro, Language, ambas da Suzanne Vega. Fazia anos que não prestava atenção nela. Suzanne é uma mulher tremendamente bonita e tremendamente sensual, não sei como isso nunca se tornou o discurso principal a seu respeito. As sensações que sua presença sempre desencadeou em mim são todas ligadas ao cruzamento meio problemático dos arquétipos de namorada e mãe. Vendo-a sempre acabo por me sentir como naquela cena de Valsa para Bashir em que o soldado israelense, exausto, flutua à noite no mar deitado sobre o corpo nu de uma mulher gigante (v. “tão grande quanto um outdoor”). Ou então: acabo por me sentir numa prostração como a de um junkie que acabou de ingerir seu medicamento preferido. O que, o.k., é bom, é maravilhoso, mas, hum, mais um pouco acabo fundido com Brahman, acabo com o ego dissolvido, e, bem, eu gosto do meu ego, portanto eu te peço, Suzanne: dá pra eu ficar um pouco sozinho? É, sozinho, longe dessa sua força gravitacional avassaladora, centrípeta e potencialmente desastrosa?

MY LIFE AS A MAN Foi esse jogo de forças exposto aí que fez de mim, aos vinte e poucos anos, um leitor devoto de Portnoy´s complaint, Philip Roth.

MACHOSFERA Minha opinião sobre machosfera, red pill e que tais: coisa de gentalha, os influenciadores, e coisa de pobre coitado, os espectadores desse tipo de conteúdo. E não é que eu seja “contra a misoginia”. Misoginia é uma das camadas, e uma camada legítima, da complexa relação homem/mulher (legítima desde que, é claro, dela não resulte violência, etc., etc.). Digo isso porque todo homme à femmes ama as mulheres e é ressentido em relação a elas, em graus variados. Pelo motivo fundamental de que Eros é uma promessa de absoluto que nunca se cumpre, porque não tem mesmo como se cumprir. É uma das falhas trágicas da condição humana, basal, intrínseca, irremovível. Machosfera é simplificar barbaramente isso tudo a meia dúzia de slogans de um programa político tosco. (Minha machosfera é Le diable au corps, de Raymond Radiguet. Sorry, periferia, como dizia o Ibrahim Sued.)

GO TO SWAMP Veja indo para o brejo a olhos vistos. Agora estão fazendo fotos de capa com chatbot. Na edição dessa semana estão Flávio e Michelle Bolsonaro batendo boca, uma imagem totalmente fajuta, com cara de IA, e de IA meio barata. Já que a coisa está indo ladeira abaixo, por que não esculacham de vez?

PRIMEIRA DAMA Michele Bolsonaro tem, hum, uma boca gostosa, mas minha primeira dama preferida continua sendo a Marcela Temer. 

(V. TEIXEIRINHA, “VIVA O RIO GRANDE DO SUL”) Não tenho barreiras ideológicas. Acho a Manuela d’Ávila deliciosa. Curto até a Maria do Rosário. Meio inevitável olhar para Maria e cogitar que ela deve ficar sensacional com o rímel borrado, vestida apenas com um par de botas pretas, talvez um cigarro pendendo dos lábios, em suma, uma série de clichês visuais de femme fatale contrastando com aquele ar de gauchona meio xucra que ela tem.

Etc., etc.

29/06/2026


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUVIDORIA Asymptote Versatile, de Eliane Radigue.

ESTRANHO DESEJO, JEAN GARRETT, 1983 Márcia Porto, casada, upper class, etc., curte um estupro simulado (v. Rape me, Nirvana). Contrata estupradores, através de um amigo. É currada pelos estupradores numa construção e num barco. Acaba pegando gonorreia nesses estupros. Fica de molho uns tempos, na chácara de uma amiga (na própria garçonnière, na verdade). O marido, Paulo Ramos, contaminado, craro-creuza, acha que pegou numa casa de massagem aonde costuma ir. Lucubra daqui, lucubra dali, acaba cismado que a mulher o trai e bota um detetive para vigiá-la. O detetive faz seu trabalho e entrega um relatório que inocenta a mulher: o único homem que a mulher vê é um amigo que, aliás, tem a maior pinta de bicha. Paulo vai até o apartamento do tal bicha e dá um tranco no sujeito. O bicha abre o jogo: Márcia curte fazer de conta que está sendo estuprada, ele que arranja os bofes pra ela. Paulo o obriga a combinar um estupro simulado com a mulher em que ele, o marido, será o estuprador (Márcia estará vendada e só descobrirá ter sido violentada pelo marido depois, quando tirar a venda). (Ah, sim: antes disso, quando Márcia estava de molho, na chácara da amiga, tomando benzetacil, ela acabou de fato sendo estuprada por um careca meio parecido com o Zuza Homem de Mello. Ao descobrir que a coisa havia sido mesmo um estupro, tratou o episódio sem maiores dramas, quase como alguém que simplesmente constatasse ter tirado uma carta ruim num jogo de pôquer.) Por fim, all’s well that ends well (bem está o que Benfica, na tradução lisboeta) com o casal Paulo e Márcia, a coisa toda arrematada numa clave meio freudiana, meio reichiana, liberdade, assumir os próprios desejos, etc., etc.

NOITE EM CHAMAS, JEAN GARRETT, 1978 O Hotel Comodoro, na Duque, como representação alegórica dos anos 1970 – um guru com um papo meio Reverendo Moon, a necessidade de fé do homem moderno, etc., etc. um playboy na encolha porque suspeito da morte de uma jovem (alusão ao caso Cláudia Lessin Rodrigues), um monte de mulheres liberadas (umas cômicas, outras trágicas, outras pragmáticas) e um terrorista que decide pôr fogo em tudo.

IGREJA SÃO BONIFÁCIO, DE HANS BROOS Frequento a Vila Mariana desde 1998 e nunca havia entrado na Igreja São Bonifácio, notável projeto brutalista do arquiteto Hans Broos. Entrei outro dia e gostei. O padre é sósia do Enéas Carneiro (v. “Meu nome é Enéas!”) e o organista tocou, na abertura da missa, aquela música que o Vincent Price toca no começo de O abominável doutor Phibes, um troço horrendo de Felix Mendelssohn chamado War march of priests.

O ÔNIBUS DA SURUBA, SADY BABY, 1986 (ou 1990) Sady Baby (ou Sady Plauth) é uma mistura do Marquês de Sade, do Amado Ribeiro, o jornalista mais cafajeste de todos os tempos, personagem do Nelson Rodrigues, do Jean Genet e do Moe, dos Três Patetas. E, visualmente, é uma mistura do Biro-Biro com o cantor Ovelha. Nele, o brutal, o criminal, o grotesco, o ultrajante e o indiscutivelmente hilário são aspectos indissociáveis da mesma coisa. Eu curto seus filmes.

CARTA PSICOGRAFADA DE SADY BABY, PELO MÉDIUM CHICO BUARQUE XAVIER, O MÉDIUM QUE JOGOU BOSTA NA GENI Saudações a todos, Marquês de Sady na linha. O que eu posso dizer sobre a eternidade é que ela é uma espécie de quebrada onde temos a posse plena e simultânea de tudo que o tempo fabricou. O único problema aqui é o excesso de tempo. Não sei mais o que fazer pra passar o tempo. Já decorei até o hino da Polônia, jeszcze Polska nie zginęła kiedy my żyjemy, etc., etc. Acho que agora vou decorar a lista telefônica de Porto Alegre de 1982. Depois declamá-la. Depois declamá-la de trás pra frente. Vamos ver o que acontece. Ou o que não acontece.

Etc., etc.

22/06/2026


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

“PAGAR CINCO DÓLARES PRA VER A UMA THURMAN PELADA” Paulo Francis falando sobre um filme, não me lembro qual.

ARRANCOS TRIUNFAIS DE CACHORRO ATROPELADO Fazia uns dez anos que eu não via isso. Michèle Anne De Mey é a ruiva, Anna Teresa de Keersmaeker é a outra. Eu casaria com as duas.

https://youtu.be/ouYiTiiY3vg?si=ZZYfpU2qDcMaVM7R

OUVIDORIA Campina grande, de Marcos Valle. (Soa como se o Frank Zappa do Jazz from hell tivesse composto algo como variações sobre o único tema memorável que o Edu Lobo compôs.)

SORTEIO Chachá/Chanel/Simon Bolívar/Bolivão (v. “Carlos Miranda, o Vigilante Rodoviário”) sapateou nas banhas de Vó Lalá.

LUGARES EXTINTOS DO ITAIM BIBI Restaurante O Forno, Rua Joaquim Floriano, 261. Existiu entre 1965 e 1996. O gerente que parecia o Luís Pereira do Palmeiras. Os ioiôs feitos com um elástico amarrado a uma bolota com serragem dentro, que eram distribuídos às crianças. O prédio de três andares que ficava sobre o restaurante, escuro, sinistro. Havia também o Forninho, uma espécie de anexo do Forno, que ficava em algum ponto da mesma rua, acho que entre a João Cachoeira e a Clodomiro Amazonas.

https://maps.app.goo.gl/4um8sxqzEF5baHkr9

MORTOS EPPUR SI MUOVE Vou ao The Victoria Pub. O Victoria fica na Alameda Lorena, 1604. É dezembro de 1986, tem feito dias ensolarados e secos. Vou me encontrar com Mariana, que conheci numa agência de publicidade chamada Banco de Ideias, trocamos telefone e nos falamos algumas vezes. O número de Mariana é 282-8826. (Mariana se parece com a Anjelica Huston e tem um telefone com prefixo 282. Como a Mônica, como a Magali, etc., etc.) Uma banda chamada Nau vai tocar no The Victoria Pub. Estamos em 1986, mas estamos em 2026 e em 2326 também. Pergunto quando e como Mariana morreu-morrerá. Ela diz que foi-será em 1991, de choque séptico: de sepse: de infecção generalizada: depois de uma cirurgia de emergência: depois de ter sido atacada por um lobisomem: depois de ter chutado uma macumba. Digo que morri-morrerei em 2007, mas que não consigo me lembrar como. Etc., etc. Estou num apartamento alugado por Airbnb na Rua Joaquim Antunes, em Pinheiros. Estou fumando tabaco Sasso Virginia Blend enrolado com papel de seda Smoking. Eu tenho 52 anos, estou em 2023. Eu tenho 36 anos, estou em 2007. Eu tenho 52-36-15 anos, estou em 1986. Estou lendo Berenice detetive, do João Carlos Marinho, num apartamento sem móveis na Rua Joaquim Antunes, Pinheiros, São Paulo. Estou fumando Camel ou Lucky Strike. (Estudo no Colégio Objetivo, unidade Itaim, Rua Quatá, 67.) Mariana nasceu em 1960 e morreu-morrerá em 1991. Estamos em dezembro de 1986, no Victoria Pub, mas estamos também em 2004, no AmpGalaxy (v. “Meu amor por você dobra a cada vinte minutos”, A mulher de todos, Rogério Sganzerla). Estou lendo Blecaute, do Marcelo Rubens Paiva, mas estou lendo City life, do Donald Barthelme.

Etc., etc.  

03/06/2026