ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUVIDORIA Asymptote Versatile, de Eliane Radigue.

ESTRANHO DESEJO, JEAN GARRETT, 1983 Márcia Porto, casada, upper class, etc., curte um estupro simulado (v. Rape me, Nirvana). Contrata estupradores, através de um amigo. É currada pelos estupradores numa construção e num barco. Acaba pegando gonorreia nesses estupros. Fica de molho uns tempos, na chácara de uma amiga (na própria garçonnière, na verdade). O marido, Paulo Ramos, contaminado, craro-creuza, acha que pegou numa casa de massagem aonde costuma ir. Lucubra daqui, lucubra dali, acaba cismado que a mulher o trai e bota um detetive para vigiá-la. O detetive faz seu trabalho e entrega um relatório que inocenta a mulher: o único homem que a mulher vê é um amigo que, aliás, tem a maior pinta de bicha. Paulo vai até o apartamento do tal bicha e dá um tranco no sujeito. O bicha abre o jogo: Márcia curte fazer de conta que está sendo estuprada, ele que arranja os bofes pra ela. Paulo o obriga a combinar um estupro simulado com a mulher em que ele, o marido, será o estuprador (Márcia estará vendada e só descobrirá ter sido violentada pelo marido depois, quando tirar a venda). (Ah, sim: antes disso, quando Márcia estava de molho, na chácara da amiga, tomando benzetacil, ela acabou de fato sendo estuprada por um careca meio parecido com o Zuza Homem de Mello. Ao descobrir que a coisa havia sido mesmo um estupro, tratou o episódio sem maiores dramas, quase como alguém que simplesmente constatasse ter tirado uma carta ruim num jogo de pôquer.) All’s well that ends well (bem está o que Benfica, na tradução lisboeta) com o casal Paulo e Márcia, tudo sendo interpretado numa chave meio freudiana, meio reichiana, liberdade, assumir os próprios desejos, etc., etc.

NOITE EM CHAMAS, JEAN GARRETT, 1978 O Hotel Comodoro, na Duque, como representação alegórica dos anos 1970 – um guru com um papo meio Reverendo Moon, a necessidade de fé do homem moderno, etc., etc. um playboy na encolha porque suspeito da morte de uma jovem (alusão ao caso Cláudia Lessin Rodrigues), um monte de mulheres liberadas (umas cômicas, outras trágicas, outras pragmáticas) e um terrorista que decide pôr fogo em tudo.

IGREJA SÃO BONIFÁCIO, DE HANS BROOS Frequento a Vila Mariana desde 1998 e nunca havia entrado na Igreja São Bonifácio, notável projeto brutalista do arquiteto Hans Broos. Entrei outro dia e gostei. O padre é sósia do Enéas Carneiro (v. “Meu nome é Enéas!”) e o organista tocou, na abertura da missa, aquela música que o Vincent Price toca no começo do filme O abominável doutor Phibes, um troço horrendo de Felix Mendelssohn chamado War march of priests.

O ÔNIBUS DA SURUBA, SADY BABY, 1986 (ou 1990) Sady Baby (ou Sady Plauth) é uma mistura do Marquês de Sade, do Amado Ribeiro, o jornalista mais cafajeste que existe, personagem do Nelson Rodrigues, do Jean Genet e do Moe, dos Três Patetas. E, visualmente, uma mistura do Biro-Biro com o cantor Ovelha. Nele, o brutal, o criminal, o grotesco, o ultrajante e o indiscutivelmente hilário são aspectos indissociáveis da mesma coisa. Eu curto seus filmes.

CARTA PSICOGRAFADA DE SADY BABY, PELO MÉDIUM CHICO BUARQUE XAVIER, O MÉDIUM QUE JOGOU BOSTA NA GENI Saudações a todos, Marquês de Sady na linha. O que eu posso dizer sobre a eternidade é que ela é uma espécie de quebrada onde temos a posse plena e simultânea de tudo que o tempo fabricou. O único problema aqui é o excesso de tempo. Não sei mais o que fazer pra passar o tempo. Já decorei até o hino da Polônia, jeszcze Polska nie zginęła kiedy my żyjemy. Acho que agora vou decorar a lista telefônica de Porto Alegre, edição de 1982. Depois declamá-la. Depois declamá-la de trás pra frente. Vamos ver o que acontece. Ou o que não acontece.

Etc., etc.

22/06/2026