ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUÇA BELCHIOR Aquele palavrório meio Bob Dylan e as harmonias simplórias das músicas do Belchior. Nunca me interessou, exceto o anedotário, boi com medo de avião, etc., etc.

OUÇA GONZAGUINHA Acho até que legal Lindo lago do amor. 

OUÇA MÁRIO GOMES Se Belchior pode por que não Mário Gomes? Chiclete e Cabochard poderia estar naqueles primeiros discos do Belchior. (Apelidamos uma vez um porteiro do prédio da minha tia Gylka de Chiclete Cabuchá. O sujeito era desdentado e sempre o imaginávamos tentando mascar chiclete.)

PIANO BRASIL, DESAFINADO, CHEIO DE CUPINS Uma professora de Educação Artística do Gracinha, a Anamélia, que uma vez levou o Belchior para bater papo com a turma do André, acho que na quarta série, 1983. Dizíamos que a Anamélia tocando piano (Piano Brasil, desafinado, etc., etc.) parecia um chofer dirigindo um caminhão trepidando. (Noutro colégio, Colégio Horácio Bento, entra burro e sai jumento, um professor levou o Plínio Marcos. Plínio já chegou pro André contando aquela piada do português que tem o pinto roxo porque em vez de sacudir ele torce.)

NO MADAME, EM 2019 Estou no Madame (Satã), numa noite chuvosa de sábado. Estou sentado no sofá principal do lounge e está gotejando perto de mim. Uma mulher vê o lugar vazio no sofá e se aproxima pra se sentar e vê que está gotejando e se afasta. Pego uma Coca Zero e desço para o quintal. A mulher do sofá aparece e para atrás de mim e fica por ali até que me viro e olho para ela e ela sorri e começa a falar. Ela se chama Sandra: tem 49 anos: foi modelo nos anos 1980: teve de abandonar a carreira porque engravidou aos 19: mora na Vila Madalena. Trocamos telefone. Em casa, faço uma busca por seu nome. Encontro: ela na capa de uma edição da Vogue, de 1986: ela num videoclipe do Arrigo Barnabé, Suspeito, 1989.

https://youtu.be/Ga4qdg8tDrw?si=mxlNbWqNJPBrl3Kj

OUVIDORIA A música que era usada nas chamadas da Sala especial, Rede Record pré-IURD. 

https://youtu.be/rxhS5Wj0s7M?si=PWBG5GAPKN_c9GgP

PSICOGRAFIA André, 1973-2025, me manda uma mensagem através do médium Chico Xavier Buarque de Hollanda, o médium que jogou bosta na Geni.

Fala, Merlan! Tudo bem por aí? Eu por aqui tô tocando a vida-morte do jeito que dá. Mas até que não estão ruins as coisas. Aqui é meio parecido com a Vila Caiçara em 1983, o mesmo clima, aquele mesmo tipo de casa geminada, as mesmas figuras, tudo meio tipo seu Zé, Naná, seu Heitor. (Lembrei outro dia da vez que a Naná, no maior pileque, foi dar feliz ano novo pro seu Heitor e chamou ele de seu Nestor e ficou dando uns tapas na barriga dele, o gordinho federal ficou todo invocado. Acho que foi em 97 isso.) 

Ah, comprei um Maverick igual ao que o Simón Bolívar tinha, cor de abóbora, motor seis cilindros, ano 74. Estou dando um trato nele. Não é carro pra trabalho, ele gasta muito e a gasolina aqui é mais cara que aí, dependendo do posto é mais de R$ 11 o litro. Pra trabalhar eu comprei um Chevetão, pega bem? Puta bosta de carro, mas pra fazer as entregas até que está servindo. Estou fazendo entregas, entregando aquelas comidas de dieta que a Felícia vendia e que continuou vendendo depois de morta. Pois é, continuou fazendo tudo igual, a Fenícia unha de fome, indo ao bingo, se endividando e vendendo comida de dieta. 

Bom, Merlan, é isso aí. Muito boa sua sugestão de qualquer dia desses a gente ir comer ou no Forno ou no Ari pra botar as fofocas em dia. Tem muita história super pega bem que só dá pra contar pessoalmente, coisa das Scarpinis, da Meu Neto Ibo, do tio Alaor. Eu te aviso quando eu conseguir dar uma escapada daqui, aí eu vou com o Maverick pronto pra você ver. Abraço aí, França! Valeu! (Manda lembranças pro Joãozinho e pro Charron – aliás, ele ainda está com a Voz de Papagaio?, kkkkkk.)

Oh yeah.

29/08/2026


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUVIDORIA Kamikaze, Luis Alberto Spinetta.

BABI ÍNDIO ENJOY SELVA COCA-COLA Estou no Victoria Pub: como se ele existisse: de certa forma: a céu aberto: ou como se: de dentro do Victoria: o céu pudesse ser visto através de frestas: formadas por uma laje parcialmente removida e: por telhas faltantes: isso sem ele deixar de ser: ao mesmo tempo: o espaço noturno-confinado que ele é-foi: na Alameda Lorena: vírgula: estou num Victoria extinto e ainda existente: ponto. Estou sentado a uma mesa: com três mulheres: e há sobre a mesa: uma caixa de cigarros Yves Saint Laurent e uma caixa de Marlboro e um isqueiro Bic: e o sistema de som da casa toca o álbum de estreia de uma banda inglesa: que fez-fará algum sucesso aqui no Brasil: em 1989: por causa de uma música: usada numa propaganda de cigarro: ponto. As três mulheres: são bonitas e jovens: e a que acho mais bonita morreu-morrerá em 1991: e eu digo pra ela que: se os ossos dela um dia forem exumados: eu gostaria de vê-los: porque sempre tenho interesse por todos: aspectos: das mulheres que me interessam: e ela diz: o.k.: vírgula: se um dia meus ossos forem exumados: eu te aviso: ponto. Então eu digo: bom: já que é assim: eu quero ver seus ossos: agora: vamos lá: ponto. Ela diz: ha, ha!: sério?: o.k.: vírgula: vamos: vírgula: sabe que ainda outro  dia me ocorreu: isso?: vírgula: que eu nunca vi meu corpo: esqueletizado? Sério: gostaria de ver como ele ficou: ponto. Saímos os três: no Escort XR-3 conversível: de uma delas: a que parece uma versão feminina: do Kurt Cobain: vírgula: e vamos até o cemitério do araçá: ponto. Chegamos ao mausoléu da família: vírgula: uma capela pseudogótica com placas com nomes e datas: algumas arrancadas por ladrões: e destruo uma estrutura de cimento e tijolos: com o macaco hidráulico do Escort XR-3: e removemos a tampa do caixão: e ficamos lá: observando os ossos e a caveira dela: e ela pega um resto de tecido bordado e diz: nossa: vírgula: eu nem me lembrava que fui enterrada com essa blusa: uma blusa que eu comprei em Punta Del Este: na viagem de formatura da escola: ponto. Eu olho para os restos mortais: dela: com algo que creio que possa chamar de: ternura: e julgo reconhecer: de alguma forma: ela em seus ossos: carbonato de cálcio: etc., etc.: e passado um momento inicial de: excitação e choque controlado: percebo algum desconforto nela e em mim também: e talvez nas outras duas: e saímos do cemitério: e rodamos um pouco ali pela Vila Madalena: no carro da irmã gêmea do: Kurt Cobain: e vemos um sujeito na Mourato Coelho com um rombo na têmpora direita onde ele encaixou: uma garrafa de cerveja vazia: e reparo que a outra garota que está conosco: está usando agora um Ray-Ban Clubmaster: e eu sugiro que a gente pare em algum lugar para: tomar alguma coisa.

E SE O JÓQUEI PROMOVESSE ALGUNS PÁREOS COM JUMENTOS?  Lembrando aqui de uma novela de época feita pela TV Tupi, uma cena externa em que acabou aparecendo por descuido uma tela de alambrado galvanizada, coisa que não existia no século XIX, e meu tio Rolf dizendo, mas que buuuurros.

PAIXÃO PERDIDA, WALTER HUGO KHOURI, 1999 Marcelinho está lá, em sua cadeira de rodas, em sua catatonia, em seu quintal, contemplando a miniatura mesquinha do Pico das Prateleiras. Interessante observar o Marcelo pai, o infatigável Marcelo, interpretado por Antonio Fagundes no apogeu dos cinquenta anos, soberbo e majestoso como um rei de carta de baralho. Como a franga da Mylla Christie podia resistir a tamanha força centrípeta? Sem chance. Ainda que pensemos, pô, sacanagem ele impor mais um trauma ao já intensamente fragilizado Marcelinho, Marcelo pai faz o que deve ser feito: ferra com tudo, escanteia a jovem e bela namorada, Paula Burlamaqui – muito bem no papel de barata tonta com esgares histéricos de mulher rejeitada –, arrebata a Mylla. De certa perspectiva, Mylla Christie não teria mesmo como trazer o garoto de volta à realidade, porque a realidade não é uma conexão idílica e erotizada entre filho e mãe (ou figura materna), mas a resolução do Complexo de Édipo via identificação com o pai (“seja como eu, sobrebo e majestoso como um rei de carta de baralho, que haverá muitas Myllas em sua vida”). A expressão do conflito de lealdades de Mylla é esplêndida (não me lembro dela num papel melhor). A insistência de Fagundes em não ser complacente com o que é fraco, doentio, mórbido (o estado em que o filho se encontra) é plenamente justificável. A tentação da inação do Marcelinho também tem imensa razão de ser (a inutilidade dos tumultos vitais humanos e seus consequentes tormentos e a aspiração a uma quietude nirvânica). Walter Hugo Khouri sairia de cena não muito tempo depois (morreu em 2003) e pode-se dizer que esse filme fecha muito bem sua filmografia. Eis o mundo e eis seu jogo de forças, pode-se dizer sobre Paixão perdida – jogo de forças fadado a permanecer nesse entroncamento confuso (e trágico, em última análise) que resolução de Complexo de Édipo nenhum pode deslindar.

23/08/2026


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUVIDORIA E OLHADORIA Porque te vas, de Jeanette, e Cría cuervos, de Carlos Saura. A graça desajeitada dos movimentos corporais infantis da cena em que as meninas dançam no filme de Carlos Saura tem algo da graça desajeitada dos movimentos corporais infantis que Vaslav Nijinsky mimetizou na coreografia de Le sacre du printemps, Igor Stravinsky. 

CAPAS DE PLAYBOY QUE INFELIZMENTE NÃO EXISTIRAM Zizi Possi, outubro de 1991. Numa das gavetas da minha mesa de trabalho, 1991, havia uma barra de chocolate Laka, um frasco de guaraná em pó e uma foto então recente da Zizi Possi, bonita, gostosa e classuda. (Aliás, Zizi continua sensacional aos setenta anos. A mulher italiana, quando não colapsa engordando, o que infelizmente é comum, quase sempre se torna uma dessas donnas sólidas, incorruptíveis, intrinsecamente preservadas.) 

PEGA BEM Ângela Ro Ro chumbada de uísque descendo pelada as escadas do prédio e tocando um sininho de Papai Noel, rô, rô, rô.

CENÁRIOS EM RUÍNAS OU: CONCEIÇÃO, ESTOU COM ALZHEIMER, PORTANTO “EU ME LEMBRO MUITO BEM” COISA NENHUMA, DE NELSON BRISSAC CAUBY PEIXOTO Ali está nosso amigo militar cheio de fascinantes histórias sempre meio nebulosas, fantásticas ou obviamente inverídicas (como a do professor de caratê que furou a lataria de um Fusca com um soco), que provavelmente opera em alguma estrutura semioficial em que promiscuem interesses de Estado e interesses pessoais, contando alguma história delirante no sofá de casa, no dia do jogo Brasil e Escócia, Copa de 82. Ele, nosso amigo militar, é meio parecido com o Jack Nicholson, one flew over the cuckoo’s nest, uma versão mais espichada do Jack. Nada a temer, nada a preservar, estamos todos expostos ao mesmo vazio, aos mesmos abismos e às mesmas vertigens. Sendo assim, sabendo-nos precários e insuficientes, provavelmente sem Deus, aprisionados numa imanência terrificante, numa cidade cheia de aterros sanitários e incineradores de lixo, cidade essa cortada por rios que são um blend de esgoto com dejetos químicos, non ducor ducaralho, sendo assim, sem ninguém estar querendo parecer melhor na fita porque todo mundo sabe que todo mundo está estrumbicado mesmo, tentamos consolar uns aos outros com as pouquíssimas coisas que temos à mão: livros de mensagens psicografadas pelo Chico Xavier (v. “Chico Xavier Buarque de Hollanda, o médium que jogou bosta na Geni”), livros esses que apaziguam só os mais burros e os mais simplórios, benzodiazepínicos vendidos sem receita, anfetaminas de regimes abandonados, sexo promíscuo (já que vamos ser pulverizados com uma chuva de ICBMs semana que vem, por que não gandaiar um pouco?), pornografia, discos de piadas do Costinha, humor sexista, classista e racista, bullying de todos contra todos, álcool (todo mundo bebe, inclusive crianças de onze, doze anos), cigarros, festas, conversas, fabulações, mitologizações, a casa sempre cheia de gente, cheia de gente falando, contando histórias, não raro histórias muito interessantes, ainda que invariavelmente mentirosas. 

A CHUPETA DO CAPETA, UMA PORNOCHANCHADA GOSPEL DIRIGIDA POR DAVI MIRANDA Meu pai fuma Marlboro de caixa, o Zé Vrido, zelador do prédio, fuma Plaza ou “Praza”, o Birúndia, o vigia noturno que anda com um revólver calibre 38 numa pasta 007, parou de fumar porque virou crente, o Ezequiel, o porteiro e eventualmente vigia noturno que disse para o André que gosta de mulher loira com peito duro, fuma Hollywood, o seu Marcílio ou Múmia Paralítica, porteiro que foi demitido do prédio em 1979, morreu-morrerá em 2000 ao levar um choque de 30.000 volts num cigarro eletrônico bugado pelo bug do milênio.

Etc., etc.

14/08/2026


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUVIDORIA Tenho ouvido muita música pop etíope dos anos 1970. Em geral a coisa é vibrante, cheia de punch e personalidade. 

Marewa, de Assegedetch Kassa

https://youtu.be/oykiN3pF3Oo?si=Ant1oMzZTtuefdSI

Ney-Ney Woleba, de Alemayehu Eshete

https://youtu.be/xFpJVvLVh-c?si=VpdwMyTt-CdG7q8c

USA FOR AFRICA Estou na sessão de discos do Mappin Itaim. É 1985, mas é 2026. Não para de tocar We are the world, o disco está sendo lançado. Parece que o disco pretende acabar com a fome na Etiópia. Etc., etc. Compro um compacto do AC/DC, com as faixas Jailbreak e Show business. Lembro, em 2026, da piada que o Bret Easton Ellis conta num de seus livros, sobre a diferença entre um etíope e um saco de farinha. O hype sempre fomentando piadas, etc., etc. Ei, Kenny Rogers: enfia o USA for Africa naquele lugar. 

LAVANDERIA HIROSHIMA LTDA. A Rede Globo entrevistou uma vez, num seis de agosto, um sobrevivente do ataque nuclear ao Japão. O japs, já velhinho, falava português muito mal e ficou repetindo, feito um disco riscado, non pode bomba atômica, non pode.

MORTOS EPPUR SI MOUVE Não houve escada magirus que bastasse pra apagar tanta velinha, ô cride! É, a festa de cinquenta e três anos do André, dia 1º. de agosto, foi um estouro seguido de um incêndio de grandes proporções. O lugar escolhido não poderia ser mais adequado, o bar e restaurante Churrasco de Laje, que funciona no rooftop do Edifício Joelma. Embora quem comande a cozinha do Churras seja o renomado chef gaúcho Teixeirinha, vulgo Churrasquinho de Mãe, o serviço dessa vez ficou por conta da equipe do Tocha Humana, chef de cuisine da Marvel Comics. Além dos números musicais, com destaque para Fogão Dako, da Tati Quebra Barraco, os convidados do André foram agraciados com uma animada partida de quem consegue tomar mais  shots de Fogo Paulista, disputada entre as equipes do Botafogo F. R. (o Botafogo do Garrincha, que, aliás, estava na festa, tinha tomado todas e estava no maior pileque) e o Botafogo F. C. (o Botafogo do Sócrates, outro convidado ilustre do André, que também tinha tomado todas estava pra lá da Tierra del Fuego). O árbitro da partida foi o cineasta bebum John Cassavetes, que levou cartão vermelho por estar muito bêbado e queimando muito o filme, auxiliado por Marcelo D2, expulso por queimar tudo até a última ponta, e por Clodovil Hernandez, expulso por queimar a rosca. O vencedor da partida foi o inigualável Don Vito Margera, com o impressionante score de cinquenta e duas doses de bombeirinho (cachaça, groselha e limão).

https://youtu.be/QG3hrtt7aCI?si=vDIECOTU2rSKdMHs

MÔNICA “GRANADA SEM PINO” (1964-2026) Estamos em 2005. Vou com a Mônica Granada sem Pino, minha namorada, a um restaurante na Rua Girassol, um restaurante que a gente sobe por um corredor ladeado por archotes e chega a uma casa na parte elevada do terreno. Estou com uma camiseta do Jackass, a caveira com o par de muletas cruzadas, e a Mônica reclama do modo como estou vestido, dizendo que me vestindo assim eu pareço ainda mais novo do que ela, que eu botar essas roupas, especialmente quando saímos, faz ela parecer uma velha bancando um garotão, e eu digo que não tem nada a ver, que não temos tanta diferença de idade, eu 34 e ela 41, que ela sempre paga a conta porque ela é rica e escolhe restaurantes caros que sabe que eu não teria como pagar, que ela paga a conta porque bebe vinhos caros enquanto eu bebo cerveja, ou seja, que tudo entre nós se baseia em razão e proporção, basicamente.

PODICRÊ, BICHO “Se a plenitude do tempo é eternamente presente, o tempo, como um todo, é irredimível”, T. S. Eliot, Four quartets.

07/08/2026