ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUVIDORIA E OLHADORIA Porque te vas, de Jeanette, e Cría cuervos, de Carlos Saura. A graça desajeitada dos movimentos corporais infantis da cena em que as meninas dançam no filme de Carlos Saura tem algo da graça desajeitada dos movimentos corporais infantis que Vaslav Nijinsky mimetizou na coreografia de Le sacre du printemps, Igor Stravinsky. 

CAPAS DE PLAYBOY QUE INFELIZMENTE NÃO EXISTIRAM Zizi Possi, outubro de 1991. Numa das gavetas da minha mesa de trabalho, 1991, havia uma barra de chocolate Laka, um frasco de guaraná em pó e uma foto então recente da Zizi Possi, bonita, gostosa e classuda. (Aliás, Zizi continua sensacional aos setenta anos. A mulher italiana, quando não colapsa engordando, o que infelizmente é comum, quase sempre se torna uma dessas donnas sólidas, incorruptíveis, intrinsecamente preservadas.) 

PEGA BEM Ângela Ro Ro chumbada de uísque descendo pelada as escadas do prédio e tocando um sininho de Papai Noel, rô, rô, rô.

CENÁRIOS EM RUÍNAS OU: CONCEIÇÃO, ESTOU COM ALZHEIMER E “EU ME LEMBRO MUITO BEM” COISA NENHUMA, DE NELSON BRISSAC CAUBY PEIXOTO Ali está nosso amigo militar cheio de fascinantes histórias sempre meio nebulosas, fantásticas ou obviamente inverídicas (como a do professor de caratê que furou a lataria de um Fusca com um soco), que provavelmente opera em alguma estrutura semioficial em que promiscuem interesses de Estado e interesses pessoais, contando alguma história delirante no sofá de casa, no dia do jogo Brasil e Escócia, Copa de 82. Ele, nosso amigo militar, é meio parecido com o Jack Nicholson, one flew over de cuckoo’s nest, uma versão mais espichada do Jack. Nada a temer, nada a se preservar, estamos todos expostos ao mesmo vazio, aos mesmos abismos e às mesmas vertigens. Sendo assim, sabendo-nos precários e insuficientes, provavelmente sem Deus, aprisionados numa imanência terrificante, numa cidade cheia de aterros sanitários e incineradores de lixo, cidade essa cortada por rios que são um blend de esgoto com dejetos químicos, non ducor ducaralho, sendo assim, sem ninguém estar querendo parecer melhor na fita porque todo mundo sabe que todo mundo está estrumbicado mesmo, tentamos consolar uns aos outros com as pouquíssimas coisas que temos à mão: livros de mensagens psicografadas pelo Chico Xavier (v. “Chico Xavier Buarque de Hollanda, o médium que jogou bosta na Geni”), livros esses que apaziguam só os mais burros e os mais simplórios, benzodiazepínicos vendidos sem receita, anfetaminas de regimes abandonados, sexo promíscuo (já que vamos ser pulverizados com uma chuva de ICBMs semana que vem, por que não gandaiar um pouco?), pornografia, discos de piadas do Costinha, humor sexista, classista e racista, bullying de todos contra todos, álcool (todo mundo bebe, inclusive crianças de onze, doze anos), cigarros, festas, conversas, fabulações, mitologizações, a casa sempre cheia de gente, cheia de gente falando, contando histórias, não raro histórias muito interessantes, ainda que invariavelmente mentirosas. 

A CHUPETA DO CAPETA, UMA PORNOCHANCHADA GOSPEL DIRIGIDA POR DAVI MIRANDA Meu pai fuma Marlboro de caixa, o Zé Vrido, zelador do prédio, fuma Plaza ou “Praza”, o Birúndia, o vigia noturno que anda com um revólver calibre 38 numa pasta 007, parou de fumar porque virou crente, o Ezequiel, o porteiro e eventualmente vigia noturno que disse para o André que gosta de mulher loira com peito duro, fuma Hollywood, o seu Marcílio ou Múmia Paralítica, porteiro que foi demitido do prédio em 1979, morreu-morrerá em 2000 ao levar um choque de 30.000 volts num cigarro eletrônico bugado pelo bug do milênio.

Etc., etc.

14/08/2026