ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUVIDORIA Roots, Sepultura, 1996.

ESTADO PLURINACIONAL DA BOLÍVIA Camilo Fuentes, personagem de A grande arte, Rubem Fonseca, 1983, não é um desses índios simplificados para os propósitos da esquerda identitária. É um personagem complexo, fortemente individualizado, um boliviano cheio de ódio pelos brasileiros que trabalha como gângster para uma organização criminosa chamada Escritório Central.

A GRANDE ARTE Todas as vezes em que li A grande arte, desde a primeira, em 1996. Foi talvez o livro que mais formatou minha maneira de enxergar o mundo. A grande arte, Complexo de Portnoy e O leilão do lote 49, basicamente. (Abaixo de zero, do Bret Easton Ellis, também.)

SUBLITERATURA Mônica “Granada sem Pino”, 1964-2026, uma de minhas ex, lia meia página por semana de um livro da Nora Roberts. Também via as novelas da Globo. E só. Em nossas brigas de casal seu repertório de subliteratura sempre emergia. “Se você sair por aquela porta nunca mais porá os pés aqui dentro”, etc., etc. Criatura humana fica nessas de só ler meia página por mês da Nora Roberts e ver as novelas da Globo, aí numa briguinha de casal acaba falando uma frase do tipo, sair por aquela porta, e nem percebe que está enunciando um clichê absolutamente horrendo. 

MACUMBA Lembrando aqui que a primeira vez em que vi um trabalho feito em cemitério, oferenda com tabaco, coisa de comer, etc., foi no Cemitério do Morumby, onde meus avós Waldemar e Maria estão sepultados. Havia na época, fins dos anos 1970, muito japonês enterrado lá, e em muitos túmulos dos japs havia despachos, sempre uma bandejinha de isopor com cigarro, balas, etc. Um troço estético, bem proporcionado, com layout limpíssimo. Macumba feita por japonês em túmulo de japonês, em suma.

(Não adianta chiar, ô meu: a macumba é multinacional.)

AFANÁSIO JAZADJI Um quid pro quo dos diabos ocorrido em 1988. O Big Audio Dynamite, B.A.D., veio tocar no Brasil, Afanásio Jazadji ficou sabendo que uma das músicas da banda, Sambadrome, usava um trecho de seu programa de rádio, Afanásio ameaçou processar, etc., etc. Lembro-me de ele sendo entrevistado pelo Otávio Mesquita, dizendo que o disco do B.A.D. era um lixo, um disco que depunha contra nós, brasileiros, dizendo que Escadinha ia ser presidente do Brasil, etc., etc.

RUN, RABBIT, RUN Saio para correr. Subo a Nove de Julho, chego à São Gabriel e cogito seguir até o Joelma, mas viro à esquerda e pego a Groenlândia. Sigo-a inteira, depois a Joaquim Antunes. Entro no cemitério. Corro num pace 7:20 pela alameda paralela à Rua Cardeal Arcoverde, o tendão de Aquiles do pé direito começando a doer intensamente. Paro em frente ao túmulo da família Cerveira. Não encontro a placa com o nome da vó Lalá. Leio os outros nomes. Tio Gim. Tônico. O Maurício. Maurício Cerveira, 26/07/1970 – 29/07/1970. Afasto-me dali, tão rápido quanto consigo, viro à esquerda, sigo pela alameda principal, saio do cemitério pela Rua Luiz Murat. 

PIADAS DO SÉCULO PASSADO Aquela do Costinha, do português que quer passar com um gambá pela alfândega e diz pra mulher colocar o bicho dentro da calcinha.  

29/09/2026


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

INVERNO, CARLOS GERBASE, 1983 Werner Schünemann é um jornalista recém-formado que não consegue emprego em jornal e vai trabalhar numa deprimente imobiliária. Sofre as pressões que rapazes de vinte e poucos anos sempre sofrem, o pai pergunta se ele já pagou o aluguel, ele diz que vai pagar dia dez (v. Dia Dez, personagem de Hilda Hilst), o pai insiste, ó lá, hem?, não vá atrasar, eu sou seu fiador, aliás, por que você não tenta arrumar outro emprego?, por que você escolheu estudar jornalismo?, por que você não faz outra faculdade?, etc., etc. A namorada de Werner, Luciene Adami (aos dezessete anos e já extraordinária atriz), é aquele tipo que só corta o namorado, nada está bom, o livro que ele indica, O Caso Morel, de Rubem Fonseca, é chato, aquele filme que eles viram ela já nem lembra, os discos que ele traz são sempre baixo astral, o signo astrológico dele qual-é-mesmo?, o rapaz da turma de quem ele não gosta é exatamente aquele com quem Luciene simpatiza, etc., etc. Os dois vão passar um fim de semana na praia, em Imbé (lugar pouco alterado em mais de quarenta anos, vejo pelo Google Street View), Luciene reclama de tudo, do frio, da paisagem, do fato de eles terem ido com o carro dela. Ao mesmo tempo, ela não larga o osso. Werner tenta outras garotas, escreve uma carta para uma ex que está morando em Montevidéu, mas nada de concreto acontece. Corre o ano de 1982 e, como prisioneiros do tempo que somos, longe demais das capitais, não há muito o que podemos fazer além de vermos na TV a novela Sétimo sentido, irmos ao cinema assistir ao filme que está em cartaz, passarmos o dia no sofá, dormitando, abrindo os olhos e vendo no rádio-relógio que se passaram mais duas horas, fechando os olhos de novo. Porto Alegre às vezes tem uma luminosidade prateada que parece desmaterializar tudo (v. William Shakespeare dizendo que somos feitos da mesma matéria que os sonhos). Mas tem também manhãs de domingo chuvosas, ordinárias, sem transcendência alguma, em que caminhamos de volta a nosso predinho velho de três andares com nossa namorada que reclama de tudo e, bem, é isso aí, pe-pessoal. Temos só vinte e três anos e a maioria das palavras finais sobre as coisas ainda não foram ditas para nós. 

31 DE DEZEMBRO DE 1982 Estou sentado num dos bancos do pátio e está mais ou menos perto da meia-noite. André está comigo. Apenas nosso apartamento e o sessenta e dois, do Jaime e da Beatriz, estão com as luzes acesas. Ninguém fica em São Paulo no réveillon. Ao menos, ninguém fica em casa. Todo mundo vai para clubes. Para a casa de parentes. A ceia de réveillon. O peru da ceia. O arroz com passas que a Dirce faz para a ceia de réveillon.  Todo mundo vestido de branco, para atrair boas energias. Que tudo se realize no ano que vai nascer. Etc., etc. Só nós enfiados em casa. Bem, nem todo mundo está agora curtindo o réveillon numa festa bacana cheia de gente vestida de branco. O Ezequiel, o vigia noturno, está ali na portaria, trabalhando, espremido numa guarita de dois por dois, ouvindo no rádio o programa ou do Zé Béttio ou do Osvaldo Bettio. São Paulo tem o quê? Dez, quinze mil condomínios? Então temos aí uns quinze mil vigias noturnos trabalhando agora, ouvindo o Zé Béttio, vendo a mulherada subir pras festas nos apartamentos com aquelas roupas brancas que dá pra ver a calcinha minúscula enfiada no traseiro. (Ezequiel disse outro dia pro André que gosta de mulher loira de peito duro.) Etc., etc. Sim, poderíamos estar numa festa. Não fomos para a ceia da tia Neca porque meu pai tem cagaço de sair de carro na noite de ano novo. Muito acidente, muita gente bêbada dirigindo. O.k., uma precaução razoável. Mas isso não atenua nossa sensação de desolação. Todo mundo se divertindo e nós chupando o dedo, aqui, na Rua Tabapuã, Itaim Bibi, São Paulo, Brasil, América do Sul, Terra, Via Láctea, universo, um deles (v. Eros, o deus do amor, Walter Hugo Khouri, 1981). (Na verdade a desolação vai para muito além de qualquer frustração infantil pontual, não ir à festa, não ganhar o carrinho de controle remoto de Natal, buááá, buááá. Um mundo inteiro está desmoronando e eu e o André já começamos a perceber. Temos, agora, além da irmandade, a cumplicidade irrevogável dos que sabem que estão atravessando juntos, e sem mais ninguém, uma catástrofe.) Olhamos para cima e falamos de antigos moradores do prédio. O dentista, pai da Valquíria, que tinha o Dodge Dart e o TL, carro do qual André morria de medo. Falamos da Cláudia e da Carla, que moravam no cinquenta e dois. Da vez que a Carla bebeu água de privada e a mãe dela, a Imaculada, lhe deu uma surra. Rimos recontando essa história. Carla era namorada do André, Cláudia era minha namorada. Carla bebendo água de privada com uma seringa. Nós contando pra Imaculada. Imaculada batendo na Carla com chinelo. Imaculada, Sertório, Cláudia e Carla. Imaculada e Sertório se separaram, ele voltou para o Rio, Imaculada e as meninas foram para Três Rios. Troquei cartas um tempo com a Cláudia. É verdade que seu pai perdeu o emprego? Imaculada sempre com bobs nos cabelos e sempre falando sobre pratarias, baixelas de prata, etc., etc. Eles saíram quando aqui do prédio? 1977? 1978? Por aí. Estamos aqui desde 1976. Hoje é o último dia de 1982. Estamos rindo, agora, da história de uma menina que apanhou da mãe porque bebeu água de privada (v. “Ride, ridentes!, derride, derridentes!”). O futuro é vórtex. Foda-se o ano novo. E que 1983 vá pra puta que pariu. 

22/09/2026


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUVIDORIA Season of glass, Yoko Ono, 1981. (Musicalmente é uma merda, mas parece coisa que o David Lynch colocaria em algum filme, japonesa sinistra cantando num karaokê, etc., etc.) 

MULHER, MULHER Asha Heart, atriz pornô polonesa nascida em 1980.

WTC As Torres Gêmeas eram esplêndidas como arquitetura. O prédio que construíram no lugar é medíocre, você vê um monte parecido na Faria Lima. (Os prédios interessantes da Faria Lima datam, todos, de antes dos anos 1990. Depois, só construíram pros Eudes, os colega sic da firrrma.)

WTC Acho que o Minoru Yamasaki se inspirou nas torres gêmeas do Congresso Nacional, Brasília, Oscar Niemeyer, para fazer o WTC. A coisa do duplo, os ângulos retos, a escassez ornamental. A alusão não é explícita, mas está lá. 

MADAME SATÃ Festa do fulano lá, no Madame, etc., etc. Os, entre aspas, progressistas chiando. Qual o problema, ô meu? O Madame sempre foi um ambiente plural, caótico, desdefinidor (apesar de, em sua versão pós-2012, ter se tornado, sim, uma interminável festa de Halloween brega). Se você baixasse lá numa noite qualquer de 1985 provavelmente iria encontrar o Cazuza levando uns tapas do João Gordo e o Olavo de Carvalho curtindo as perfórmances da mulher repolho (Heloísa de Carvalho disse em várias entrevistas que o pai, Olavo, era frequentador assíduo do Madame nos anos 1980).

MORTOS EPPUR SI MUOVE André, que pode consultar registros akáshicos, me diz quais funcionários aqui do prédio, dos quais nunca mais ouvimos falar depois que saíram, já morreram e do quê. Seu Raimundo morreu em 1992, de infarto decorrente de uma eletrocussão. Ibiapina morreu em 2016, de câncer renal. Emiliano morreu em 1988, de suicídio. Apolônio “Birúndia” morreu em 1997, assassinado. Píter morreu em 1983, ao cair de um teleférico durante uma crise de epilepsia. Zé Paulo morreu em 2004, de complicações da diabetes e AVC. Adauto morreu em 1990, de aids. Dona Nair morreu em 1982, atropelada por um ônibus.

ITAIM BIBI Vim morar nesse prédio em 1976. Cinquenta anos não são cinquenta dias, como dizia o Nelson Rodrigues. Faço de cabeça uma lista de moradores daqui que já morreram e chego a vinte e dois.

THOMAS PYNCHON Estou em 1994, no balcão da decrépita lanchonete central do Mackenzie (onde hoje é a praça de alimentação), tomando café e lendo O leilão do lote 49, Thomas Pynchon, tradução de Jório Dauster. Estou na parte em que o doutor Hilarius, psiquiatra que receita drogas psicodélicas, surtou e está trocando tiros com a polícia com um rifle Gewehr 43. É a primeira vez que estou lendo esse livro, que irei reler quatro ou cinco vezes, sempre deliciado, Mircea Eliade e a força estruturante dos episódios inaugurais das coisas, etc., etc. (Tanto Hilarius quanto Wendell “Mucho” Maas enlouquecem por causa de LSD. Aliás, quando “Mucho” expõe à mulher Oedipa toda a despersonalização causada pelo ácido com um papo maluco do tipo I am he as you are me, etc., etc., Oedipa tem uma enfática reação de horror, episódio que se torna central num livro com uma superfície tão chapada e ofuscante.)

14/09/2026


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduado Haak

OUVIDORIA Occam ocean II, Eliane Radigue, 2019.

QUEM HITLER POR ÚLTIMO RI MELHOR A história sobre Hitler condenado a mil anos de prisão na Lua e Gandhi indo visitá-lo para ajudar em sua evolução espiritual, etc., etc., história atribuída a Chico Xavier Buarque de Hollanda, o médium que jogou bosta na Xaviera Hollander. O que é suspeito nessa história? A simetria simplificadora. Gandhi, o bem e a caridade absolutos, Hitler, o mal e a abjeção totais. O funcionamento burocrático do cosmos, um vasto sistema de correções em prol da evolução. Evolução do que em direção ao quê? Não faz sentido, ô chefia. Não que a escatologia cristã tradicional necessariamente faça muito sentido, mas nela o ser é o que é, as coisas são o que são, A é A, A não é não-A, princípio de identidade e não contradição, Hitler, Gandhi ou o Zé da Esquina não são uma matéria dúctil, uma massinha de modelar que serve a idiotas fantasias infantis de progresso.

ESSE FILME FOI PRODUZIDO ORIGINALMENTE EM PRETO E BRANCO Vidas nuas, Ody Fraga, 1967, precisamos falar de cinema brasileiro, etc., etc. Uma coroa enxutaça que não consegue evitar a compulsão pelo adultério. Um marido traído bola murcha, parecido com o Gilberto Kassab. Um amante igualzinho ao Nelson Gonçalves. Um fedor de moralismo suburbano pairando, via a filha da adúltera imprecando contra a mãe. Trilha sonora do Almir Rogério, aquele do Fuscão preto. Uma história imbecil narrada de modo confuso. Algumas externas legais de São Paulo em 1967. 

DAVI MIRANDA EXORCIZANDO O DEMÔNIO DA BESTA DA TELEVISÃO O demônio da TV dando uma entrevista ao missionário Davi Miranda.

https://youtu.be/nrl3IZXc_lI?si=c897R03wHff4F01M

DEMÊNCIA SENIL No Guarujá, em dezembro de 1980, eu e meu primo Christian ouvindo uma conversa de adultos, a tia Emma falando sobre um sujeito que estava esclerosado e que havia defecado no chão, a coisa incendiando nossa imaginação e virando Odorico Paraguaçu fazendo cocô no chão da tia Emma, não sei por que imaginamos o velho demente como o Odorico, então passamos a repetir, Odorico Paraguaçu fez cocô no chão da tia Emma, sempre experimentando a frase como um desencadeador de gargalhadas, sim, gargalhadas, isso porque tínhamos dez anos, ou seja, éramos eternos, plenos e inacessíveis a vicissitudes.

ALENCAR Tia Emma era kardecista e tinha espalhados pela casa vários retratos de um sujeito fardado, de quepe e bigodinho estilo mein führer. Um dia eu perguntei, com sinceridade, se aquele sujeito das fotos era o Hitler. (Eu tinha uns quatro anos e já sabia quem era o Hitler.) Tia Emma riu e disse que não, que o sujeito das fotos era o Alencar, o espírito guia dela.

PSICOGRAFIA André manda um postal psicografado, lá da terra dos pés juntos.

“Fala, Merlan! Tudo certo aí? Ontem eu levei de Chevetão comida de dieta adivinha pra quem? Pra Wilza Carla, kkkkk. É, a Wilza, a dona Estefânia, a própria. A mulher deve estar pesando uns trezentos quilos. Trash, cara, totalmente trash. Ela perguntou se dava pra eu descolar umas canetas emagrecedoras pra ela. Aqui nessa porra de plano espiritual, colônia espiritual, sei lá como essa merda de lugar se chama, cada hora dizem uma coisa diferente, aqui não tem oficialmente Ozempic. Eu disse pra Wilza que ia tentar, mas que não podia prometer nada. Eu até teria como arranjar, conheço uns contrabandistas aí que têm um esquema ponta firme com o pessoal da alfândega, o problema é que os caras são gananciosos pra caralho e não ia dar pra ganhar muito em cima das canetas. Melhor então deixar aquela gorda se foder, ela que tente emagrecer só com a comida de dieta. Bom, França, é isso aí. Quando eu tiver alguma outra novidade eu mando notícias. Valeu!, abraço! (Ah, no próximo sábado vou a um show do Barry White. Legal, né? Isso aqui é uma merda, mas eventualmente é ótimo. Ou seja, aqui, no fundo, é a mesma coisa que aí.)

Doo-doo-bee-doo-wah.

10/09/2026 


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUVIDORIA Journey in Satchidananda, Alice Coltrane, 1971.

CAPAS DE PLAYBOY QUE FELIZMENTE EXISTIRAM Malu Bailo, julho de 1997. (Só restam resíduos da passagem da Malu pela vida pública. Algumas revistas, Ele Ela e Playboy, à venda em sebos. Uma entrevista de 1988 para o Comando da madrugada. Um canal do YouTube abandonado há quatro anos com apenas duas postagens.)

TROTE TELEFÔNICO Em 1995, da Lu Colchão Amarrado para o Arnaldo Pé na Cova. Quem atende é a mãe do Pé na Cova, a Ema. Lu diz, fazendo sotaque de Nerso da Capitinga, que é a Maria das Graças, de Garça, SP, e que está grávida do Pé na Cova. Ema diz alguma coisa como, meu Deus, mais essa agora, ele (o Arnaldo Pé na Cova) é vagabundo, não trabalha, etc., etc.

TROTE TELEFÔNICO Em 1979, de mim, 282-8827, para a casa do Ronny, 531-3317. Nádia, a mãe do Ronny, atende. Eu pergunto, a senhora poderia me informar se penico de barro enferruja? Ela reconhece minha voz, pergunta, Carlos Eduardo?, e eu desligo.  

TODOS IREMOS PRO BURACO NO FIM DA HISTÓRIA, ENTÃO QUE CADA UM FAÇA O TRAJETO RUMO À DEMÊNCIA SENIL COMO ACHAR MELHOR Beth Gibbons, a bonita cantora do Portishead, cantando Glory Box agarrada ao microfone, com um cigarro encaixado entre os dedos indicador e médio. Muita água passou por debaixo da ponte de 1998 pra cá, mas vejo que o cigarro está tendo uma sobrevivência irônica com a qual simpatizo. Eppur si muove, apesar de Dráuzio, pneumologistas, câncer, essa parte até que é divertida, a desgraça, a causalidade macabra exposta sem eufemismo, a piada do cara com enfisema que é obrigado a cantar It´s the end of the world, do R.E.M. (ha, ha). O que me embirra nas narrativas antitabagismo é a mediocridade da coisa e a invariável impotência existencial de seus pregadores mais enfáticos, sim, o cara é um zé-ninguém, mas encontra no cigarro dá câncer um jeito de ir à forra e exercer seu poderzinho eu-sou-a-verdade sobre os outros, como a velhota praticante do espiritismo que descobre que as pessoas passam a tratá-la com temor reverencial quando ela divulga que é médium altamente desenvolvida, que fala com os mortos, etc., etc. (A isso tudo se acrescentou atualmente outra camada, a do sujeito que performa no Instagram o plot vício e superação, cheio de uma positividade das mais cafonas, sempre de olho na monetização e nas futuras palestras do tipo você também pode chegar lá que ele pretende, aspirante a coach, vir a ministrar.) Tive um tio distante, o tio Gonçalves, uma figura sorumbática parecida com Peter Cushing, que juntava as duas coisas, a militância antitabaco e a militância espírita. Quando ele chegava para uma visita ninguém nem respirava, tamanha era a opressão que sua presença desencadeava. Minha tia Gylka e minha avó Ida, ambas heavy smokers, fumavam escondidas do tio Gonçalves e não viam a hora que aquele velho agourento fosse embora para que elas pudessem pitar seus cigarrinhos em paz. 

(Em tempo, a deliciosa Beth Gibbons.)

https://youtu.be/MnMTK8EdsOc?si=2w3_Gp4itiXaJU56

TIO GONÇALVES Tio Gonçalves dizia que o espírito de Adolf Hitler estava aprisionado no lado escuro da lua (mais sozinho do que um Robinson Crusoé sem rádio de pilha), cumprindo sentença de mil anos de reclusão por causa da lei do carma. E que, uma vez por semana, o espírito do Mahatma Gandhi ia visitar o Hitler para dar aulas a ele, aulas sobre igualdade racial, pacifismo e, claro, kardecismo. Tio Gonçalves dizia que Hitler certamente iria reencarnar como um negro paralítico, cego e débil mental, resgate cármico por causa de seu racismo, das práticas de eugenia do nazismo e porque, no final da história, ele meteu uma bala nos cornos e quem se mata dando tiro na cabeça vem retardado na próxima encarnação. (Quer dizer então que reencarnar como negro é castigo, titio Gonçalves?) Etc., etc. O kardecismo foi o discurso sobre a transcendência que dominou o imaginário da classe média brasileira dos anos 1960 até 1980. Atualmente está morto (desencarnado) em termos de relevância social. Era ruim, tosco, primário, mas era imaginativo e rendia bons programas de TV.        

“Pregadores religiosos não passam de mascates baratos do nonsense”, H. L. Mencken.

03/09/2026