ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUVIDORIA Journey in Satchidananda, Alice Coltrane, 1971.

CAPAS DE PLAYBOY QUE FELIZMENTE EXISTIRAM Malu Bailo, julho de 1997. (Só restam resíduos da passagem da Malu pela vida pública. Algumas revistas, Ele Ela e Playboy, à venda em sebos. Uma entrevista de 1988 para o Comando da madrugada. Um canal do YouTube abandonado há quatro anos com apenas duas postagens.)

TROTE TELEFÔNICO Em 1995, da Lu Colchão Amarrado para o Arnaldo Pé na Cova. Quem atende é a mãe do Pé na Cova, a Ema. Lu diz, fazendo sotaque de Nerso da Capitinga, que é a Maria das Graças, de Garça, SP, e que está grávida do Pé na Cova. Ema diz alguma coisa como, meu Deus, mais essa agora, ele (o Arnaldo Pé na Cova) é vagabundo, não trabalha, etc., etc.

TROTE TELEFÔNICO Em 1979, de mim, 282-8827, para a casa do Ronny, 531-3317. Nádia, a mãe do Ronny, atende. Eu pergunto, a senhora poderia me informar se penico de barro enferruja? Ela reconhece minha voz, pergunta, Carlos Eduardo?, e eu desligo.  

TODOS IREMOS PRO BURACO NO FIM DA HISTÓRIA, ENTÃO QUE CADA UM FAÇA O TRAJETO RUMO À DEMÊNCIA SENIL COMO ACHAR MELHOR Beth Gibbons, a bonita cantora do Portishead, cantando Glory Box agarrada ao microfone, com um cigarro encaixado entre os dedos indicador e médio. Muita água passou por debaixo da ponte de 1998 pra cá, mas vejo que o cigarro está tendo uma sobrevivência irônica com a qual simpatizo. Eppur si muove, apesar de Dráuzio, pneumologistas, câncer, essa parte até que é divertida, a desgraça, a causalidade macabra exposta sem eufemismo, a piada do cara com enfisema que é obrigado a cantar It´s the end of the world, do R.E.M. (ha, ha). O que me embirra nas narrativas antitabagismo é a mediocridade da coisa e a invariável impotência existencial de seus pregadores mais enfáticos, sim, o cara é um zé-ninguém, mas encontra no cigarro dá câncer um jeito de ir à forra e exercer seu poderzinho sobre os outros, como a velhota praticante do espiritismo que descobre que as pessoas passam a tratá-la com temor reverencial quando ela divulga que é médium altamente desenvolvida, que fala com os mortos, etc., etc. (A isso tudo se acrescentou atualmente outra camada, a do sujeito que performa no Instagram o plot vício e superação, cheio de uma positividade das mais cafonas, sempre de olho na monetização e nas futuras palestras do tipo você também pode chegar lá que ele pretende, aspirante a coach, vir a ministrar.) Tive um tio distante, o tio Gonçalves, uma figura sorumbática parecida com Peter Cushing, que juntava as duas coisas, a militância antitabaco e a militância espírita. Quando ele chegava para uma visita ninguém nem respirava, tamanha era a opressão que sua simples presença exercia. Minha tia Gylka e minha avó Ida, ambas heavy smokers, fumavam escondidas do tio Gonçalves e não viam a hora que aquele velho agourento fosse embora para que elas pudessem pitar seus cigarrinhos em paz. 

(Em tempo, a deliciosa Beth Gibbons.)

https://youtu.be/MnMTK8EdsOc?si=2w3_Gp4itiXaJU56

TIO GONÇALVES Tio Gonçalves dizia que o espírito de Adolf Hitler estava aprisionado no lado escuro da lua (mais sozinho do que um Robinson Crusoé sem rádio de pilha), cumprindo sentença de mil anos de reclusão por causa da lei do carma. E que, uma vez por semana, o espírito do Mahatma Gandhi ia visitar o Hitler para dar aulas a ele, aulas sobre igualdade racial, pacifismo e, claro, kardecismo. Tio Gonçalves dizia que Hitler certamente iria reencarnar como um negro paralítico, cego e débil mental, resgate cármico por causa de seu racismo, das práticas de eugenia do nazismo e porque, no final da história, ele meteu uma bala nos cornos e quem se mata dando tiro na cabeça vem retardado na próxima encarnação. (Quer dizer então que reencarnar como negro é castigo, titio Gonçalves?) Etc., etc. O kardecismo foi o discurso sobre a transcendência que dominou o imaginário da classe média brasileira dos anos 1960 até 1980. Atualmente está morto (desencarnado) em termos de relevância social. Era ruim, tosco, primário, mas era imaginativo e rendia bons programas de TV.        

“Pregadores religiosos não passam de mascates baratos do nonsense”, H. L. Mencken.

03/09/2026