ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUVIDORIA Kamikaze, Luis Alberto Spinetta.

BABI ÍNDIO ENJOY SELVA COCA-COLA Estou no Victoria Pub: como se ele existisse: de certa forma: a céu aberto: ou como se: de dentro do Victoria: o céu pudesse ser visto através de frestas: formadas por uma laje parcialmente removida e: por telhas faltantes: isso sem ele deixar de ser: ao mesmo tempo: o espaço noturno-confinado que ele é-foi: na Alameda Lorena: vírgula: estou num Victoria extinto e ainda existente: ponto. Estou sentado a uma mesa: com três mulheres: e há sobre a mesa: uma caixa de cigarros Yves Saint Laurent e uma caixa de Marlboro e um isqueiro Bic: e o sistema de som da casa toca o álbum de estreia de uma banda inglesa: que fez-fará algum sucesso aqui no Brasil: em 1989: por causa de uma música: usada numa propaganda de cigarro: ponto. As três mulheres: são bonitas e jovens: e a que acho mais bonita morreu-morrerá em 1991: e eu digo pra ela que: se os ossos dela um dia forem exumados: eu gostaria de vê-los: porque sempre tenho interesse por todos: aspectos: das mulheres que me interessam: e ela diz: o.k.: vírgula: se um dia meus ossos forem exumados: eu te aviso: ponto. Então eu digo: bom: já que é assim: eu quero ver seus ossos: agora: vamos lá: ponto. Ela diz: ha, ha!: sério?: o.k.: vírgula: vamos: vírgula: sabe que ainda outro  dia me ocorreu: isso?: vírgula: que eu nunca vi meu corpo: esqueletizado? Sério: gostaria de ver como ele ficou: ponto. Saímos os três: no Escort XR-3 conversível: de uma delas: a que parece uma versão feminina: do Kurt Cobain: vírgula: e vamos até o cemitério do araçá: ponto. Chegamos ao mausoléu da família: vírgula: uma capela pseudogótica com placas com nomes e datas: algumas arrancadas por ladrões: e destruo uma estrutura de cimento e tijolos: com o macaco hidráulico do Escort XR-3: e removemos a tampa do caixão: e ficamos lá: observando os ossos e a caveira dela: e ela pega um resto de tecido bordado e diz: nossa: vírgula: eu nem me lembrava que fui enterrada com essa blusa: uma blusa que eu comprei em Punta Del Este: na viagem de formatura da escola: ponto. Eu olho para os restos mortais: dela: com algo que creio que possa chamar de: ternura: e julgo reconhecer: de alguma forma: ela em seus ossos: carbonato de cálcio: etc., etc.: e passado um momento inicial de: excitação e choque controlado: percebo algum desconforto nela e em mim também: e talvez nas outras duas: e saímos do cemitério: e rodamos um pouco ali pela Vila Madalena: no carro da irmã gêmea do: Kurt Cobain: e vemos um sujeito na Mourato Coelho com um rombo na têmpora direita onde ele encaixou: uma garrafa de cerveja vazia: e reparo que a outra garota que está conosco: está usando agora um Ray-Ban Clubmaster: e eu sugiro que a gente pare em algum lugar para: tomar alguma coisa.

E SE O JÓQUEI PROMOVESSE ALGUNS PÁREOS COM JUMENTOS?  Lembrando aqui de uma novela de época feita pela TV Tupi, uma cena externa em que acabou aparecendo por descuido uma tela de alambrado galvanizada, coisa que não existia no século XIX, e meu tio Rolf dizendo, mas que buuuurros.

PAIXÃO PERDIDA, WALTER HUGO KHOURI, 1999 Marcelinho está lá, em sua cadeira de rodas, em sua catatonia, em seu quintal, contemplando a caricatura mesquinha do Pico das Prateleiras. Interessante observar o Marcelo pai, o infatigável Marcelo, interpretado por Antonio Fagundes no apogeu dos cinquenta anos, soberbo e majestoso como um rei de carta de baralho. Como a franga da Mylla Christie podia resistir a tamanha força centrípeta? Sem chance. Ainda que pensemos, pô, sacanagem ele impor mais um trauma ao já intensamente fragilizado Marcelinho, Marcelo pai faz o que deve ser feito (ferra com tudo, escanteia a jovem e bela namorada, Paula Burlamaqui – muito bem no papel de barata tonta com esgares histéricos de mulher rejeitada –, arrebata a Mylla). De certa perspectiva, Mylla Christie não teria mesmo como trazer o garoto de volta à realidade, porque a realidade não é uma conexão idílica e erotizada entre filho e mãe (ou figura materna), mas a resolução do Complexo de Édipo via identificação com o pai (“seja como eu, sobrebo e majestoso como um rei de carta de baralho, que haverá muitas Myllas em sua vida”). A expressão do conflito de lealdades de Mylla é esplêndida (não me lembro dela num papel melhor). A insistência de Fagundes em não ser complacente com o que é fraco, doentio, mórbido (o estado em que o filho se encontra) é plenamente justificável. A tentação da inação do Marcelinho também tem imensa razão de ser (a inutilidade dos tumultos vitais e seus consequentes tormentos e a aspiração a uma quietude nirvânica). Walter Hugo Khouri sairia de cena não muito tempo depois (morreu em 2003) e pode-se dizer que esse filme fecha muito bem sua filmografia. Eis o mundo e eis seu jogo de forças, pode-se dizer sobre Paixão perdida – jogo de forças fadado a permanecer nesse entroncamento confuso (e trágico, em última análise) que resolução de Complexo de Édipo nenhum pode deslindar.

23/08/2026