AMADAS E VIOLENTADAS, JEAN GARRETT, 1976 A propósito, a suspensão temporária da descrença, Samuel Taylor Coleridge (o que não exclui o senso de verossimilhança ou, no final das contas, o senso do que é verdadeiro). Aceitamos as simplificações dramatúrgicas que servem à necessidade de que história tal precisa ser contada dentro de tais e tais limitações. Etc., etc. David Cardoso é um escritor de livros policiais que anda de Mercedes-Benz (taxação de 400% nos anos 1970) e que mora numa mansão no Morumbi. (Acho que foi a Barbara Gancia que disse uma vez que só em novela da Globo e na imaginação da rafameia que rico chama barco de iate e casa de mansão.) David fala em português castiço e reprime o tempo todo a cafajestagem pantaneira que lhe é tão simpática e natural. No fundo o personagem pisca para nós, nada disso é sério, o.k.? Uma certa picardia se insinua, fazendo ruído aqui e ali. Tudo isso só por um autógrafo?, diz, expressão de zombaria passando como uma sombra por seu rosto, enquanto assina o livro da bela repórter que o persegue numa moto Suzuki e que quer se passar por uma simples fã. A repórter sabe ou tem a forte suspeita de que o escritor de sucesso é também um assassino. Sim, o nosso John Le Carré de Ponta Porã mata as mulheres que lhe despertam a lascívia. Ao mesmo tempo, tem sob sua guarda uma bela adolescente que fugiu de um orfanato (e que vive fugindo de um bando de adoradores do diabo que querem raptá-la para sacrificá-la num ritual). David é apaixonado pela jovem, mas sabe que não pode sexualizar a relação, pois Jack, o Estripador está sempre à espreita. O trauma por trás da compulsão homicida foi gerado por uma mãe adúltera que traía um pai impotente. (Freud explica, etc., etc.) Assim, tudo se encaminha para a progressão fulminante da catástrofe. E que assim seja.
MULHER, MULHER, JEAN GARRETT, 1980 Helena Ramos ficou viúva recentemente. Seu marido era um psiquiatra meio coroa, mas com a cuca aberta, nada careta. (O uso de gírias anacrônicas é proposital aqui.) O sujeito aparece nas memórias dela sempre fazendo pregações à la Alfred Kinsey, repressão sexual, realização sexual, temos de nos libertar das repressões, etc., etc. Enquanto isso, Helena vai andando de cavalo por Ilhabela, SP. Pocotó, pocotó. Começa a trocar umas ideias com uma fulana que está morando numa barraca enquanto escreve uma tese de faculdade, sociologia ou qualquer coisa do tipo. A fulana lê, escreve, transa o corpo numa nice. Tudo o que ela diz soa como pregação à la Simone de Beauvoir. Os homens isso e aquilo. Etc., etc. Helena parece pressentir que está lidando com fantasmagorias, o marido morto e a fulana da barraca, que são não personagens, mas meros dispositivos narrativos, vetores de difusão de um ideário libertário que já na época estava queimando óleo 40. Fantasmagorias, em suma. Bem, o que interessa é que essa bobajada toda levará Helena a seu paroxismo, ou seja, Helena Ramos será mais plenamente Helena Ramos porque tensionada pelo bobalhão do marido e pela cretina da moça da barraca. Estourado o mecanismo de corda que foi sujeitado a extrema pressão, Helena entrará no modo demente de ser e fará estalar o chicote no lombo de seu amado cavalo, porque o pobre equino lhe foi infiel (deixou-se ser montado por outra beldade). Também descerá o chicote no criado negro, vixxxlap!, e depois, well, estuprará o sujeito, introductio penis intra vas intercalado com tapas e bofetões (sim, dela nele).
EXCITAÇÃO, JEAN GARRETT, 1976 Flávio Galvão pratica gaslighting com sua bela esposa, Kate Hansen, numa casa que parece uma caveira, incrustada numa das bordas de uma quase deserta Praia de Barequeçaba, São Sebastião, SP. No fim, o não feitiço se vira contra o não feiticeiro. There are more things, como diriam H. P. Lovecraft e Jorge Luis Borges. (O cinema brasileiro sempre pareceu não saber direito o que fazer com Kate Hansen, tratando-a como uma espécie de Liv Ullmann, bela e gélida. O único que quebrou esse suposto gelo de Kate foi o Walter Hugo Khouri em O desejo, 1975, onde ela faz uma loira sapeca que pega o marido da melhor amiga. Em As deusas, 1972, Khouri também falhou com Kate, forçando-a no papel muito pouco convincente de uma psiquiatra toda rígida e cheia de contenções gestuais.)
(Apesar das ironias contidas aqui, adoro os filmes do Jean Garrett.)
28/04/2026