ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUVIDORIA Season of glass, Yoko Ono, 1981. (Musicalmente é uma merda, mas parece coisa que o David Lynch colocaria em algum filme, japonesa sinistra cantando num karaokê, etc., etc.) 

MULHER, MULHER Asha Heart, atriz pornô polonesa nascida em 1980.

WTC As Torres Gêmeas eram esplêndidas como arquitetura. O prédio que construíram no lugar é medíocre, você vê um monte parecido na Faria Lima. (Os prédios interessantes da Faria Lima datam, todos, de antes dos anos 1990. Depois, só construíram pros Eudes, os colega sic da firrrma.)

WTC Acho que o Minoru Yamasaki se inspirou nas torres gêmeas do Congresso Nacional, Brasília, Oscar Niemeyer, para fazer o WTC. A coisa do duplo, os ângulos retos, a escassez ornamental. A alusão não é explícita, mas está lá. 

MADAME SATÃ Festa do fulano lá, no Madame, etc., etc. Os, entre aspas, progressistas chiando. Qual o problema, ô meu? O Madame sempre foi um ambiente plural, caótico, desdefinidor (apesar de, em sua versão pós-2012, ter se tornado, sim, uma interminável festa de Halloween brega). Se você baixasse lá numa noite qualquer de 1985 provavelmente iria encontrar o Cazuza levando uns tabefes do João Gordo e o Olavo de Carvalho curtindo as perfórmances da mulher repolho (Heloísa de Carvalho disse em várias entrevistas que o pai, Olavo, era frequentador assíduo do Madame nos anos 1980).

MORTOS EPPUR SI MUOVE André, que pode consultar registros akáshicos, me diz quais funcionários aqui do prédio, dos quais nunca mais ouvimos falar depois que saíram, já morreram e do quê. Seu Raimundo morreu em 1992, de infarto decorrente de uma eletrocussão. Ibiapina morreu em 2016, de câncer renal. Emiliano morreu em 1988, de suicídio. Apolônio “Birúndia” morreu em 1997, assassinado. Píter morreu em 1983, ao cair de um teleférico durante uma crise de epilepsia. Zé Paulo morreu em 2004, de complicações da diabetes e AVC. Adauto morreu em 1990, de aids. Dona Nair morreu em 1982, atropelada por um ônibus.

ITAIM BIBI Vim morar nesse prédio em 1976. Cinquenta anos não são cinquenta dias, como dizia o Nelson Rodrigues. Faço de cabeça uma lista de moradores daqui que já morreram e chego a vinte e dois.

THOMAS PYNCHON Estou em 1994, no balcão da decrépita lanchonete central do Mackenzie (onde hoje é a praça de alimentação), tomando café e lendo O leilão do lote 49, Thomas Pynchon, tradução de Jório Dauster. Estou na parte em que o doutor Hilarius, psiquiatra que receita drogas psicodélicas, surtou e está trocando tiros com a polícia com um rifle Gewehr 43. É a primeira vez que estou lendo esse livro, que irei reler quatro ou cinco vezes, sempre deliciado, Mircea Eliade e a força estruturante dos episódios inaugurais das coisas, etc., etc. (Tanto Hilarius quanto Wendell “Mucho” Maas enlouquecem por causa de LSD. Aliás, quando “Mucho” expõe à mulher Oedipa toda a despersonalização causada pelo ácido com um papo maluco do tipo I am he as you are me, etc., etc., Oedipa tem uma enfática reação de horror, episódio que se torna central num livro com uma superfície tão chapada e ofuscante.

14/09/2026