OUVIDORIA Clics modernos, Charly García, 1983.
MORTOS EPPUR SI MUOVE Atravessamos um longo trecho da RN 40 no Maverick 1974 do André. Ele e eu nos revezamos na direção. Julinho Safardana passa trotes no rádio amador, fumando Gauloises, um maço que estava no porta-luvas, os cigarros provavelmente mofados. Charly García, usando uma camiseta com a frase las Maldivas son argentarias, vai sentado ao lado de Júlio. García, que está hemiplégico e com a fala comprometida por causa de um derrame de dólares-pesos falsos, não consegue nos explicar se está vivo ou morto (v. Zombie 2, a volta dos mortos, de Lucio Fulci).
LOS DINOSAURIOS A música do Charly que alude aos desaparecidos na ditadura 1976-83, os amigos do bairro podem desaparecer, os cantores do rádio podem desaparecer, etc. É uma camada, uma chave interpretativa, mas a coisa vai muito além (v. “A linguagem é polissêmica”, Rubem Fonseca). A experiência trágica fundamental da espécie humana é que as pessoas que amamos podem, sim, desaparecer. Podem, aliás, sendo uma atenuação, já que as pessoas que amamos, os cantores, os amigos, um dia certamente vão desaparecer. Nós iremos desaparecer. (A morte é um escândalo, como diz o Luiz Felipe Pondé.) Charly não faz o que seria uma banal música de protesto, unidimensional. Dramatiza, com grande sensibilidade, um trauma que está na raiz da experiência humana mais comum (mas, nem por isso, menos espantosa). Touché.
PSICOGRAFIA ETC., ETC. “Fala, Merlan! Tudo certo aí? Tudo bem por aqui, nenhuma novidade, muito trabalho de entregas, a Wilza Carla ora comprando canetas emagrecedoras, ora pedindo lanches de cinquenta mil calorias às quatro da manhã, a vó Maria e a mamãe se atritando, a tia Emma indo jogar com as amigas (porra, França, a Luba ficou com aparência de zumbi, sei lá por que ela ficou retida na forma cadáver com duas semanas de decomposição, eu levei ela e a tia Emma outro dia, elas foram se consultar com uma cartomante, sei lá pra que, cartomante aqui, nessa merda de mundo dos mortos?, aí a Luba falou, eu lembro de você, sobrinho da Emma, mas, cara, a velha está horrível, toda podre, tipo zumbi mesmo). Deixa eu ver o que mais... ah, então, a coisa de ganhar uma grana assombrando apartamentos que eu tinha te falado. A coisa é assim, digamos que tem um predinho velho que uma empreiteira quer comprar pra derrubar e construir um predião no terreno, mas tem um morador embaçado que não quer vender e tal. A empreiteira contrata a gente, aí a gente assombra o prédio, faz livros saírem voando de estantes, luz apagar e acender, essas coisas. Quase sempre dá certo. Eu e o mala do Julinho Safardana já pegamos uns cinco ou seis frilas desse tipo. Teve um predinho no Sumaré que a gente tocou o terror legal. O único morador que ainda estava morando lá, um velho meio com pinta de veadão, tipo o doutor Vilaverde, saiu com a roupa do corpo, nem voltou lá pra pegar as coisas dele, kkkkk. Esses empreiteiros são foda, apelam até a fantasma pra desapropriar imóvel. Bom, por enquanto acho que é isso, tenente França. Tendo novidades eu me comunico. Abraços a todos.”
VONTADE DE POTÊNCIA Algum dia especialmente feliz em que nos sentimos especialmente significativos e, hum, potencializados. ( V. “Eu hoje acordei com a luz do sol, meu corpo iluminado fez-me sentir deus”, de Hareton Salvanini.) Contudo-entretanto, esses dias solares sempre passam. (O Millôr Fernandes escreveu isso, que na melhor das hipóteses um dia especialmente feliz terá apenas vinte e quatro horas e, hum, irá acabar.) A potência cai. O brilho esmaece. Somos devolvidos a um mundo cinza no qual nos arrastamos, afundados em irrelevâncias. A potência era uma falsa promessa, então. Bem, não conseguimos acreditar totalmente nisso. A experiência da potência, da beleza, etc., deixa a persistente impressão de uma vida como ela deveria ser. Sabemos, sem saber por que, que a vida deveria ser mais. (Todo crente murmurando suas preces desesperadas sabe disso. Todo amante dilacerado por um fracasso amoroso sabe disso. Todo cocainômano que mergulha o nariz no caos sabe disso.) Sabemos que a potência, embora comumente ilusória e contraditória enquanto experiência, aponta para algo que não, não é ilusório.
28/10/2026