ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUVIDORIA Sonambient LPS 10570, Harry Bertoia, 1970.

ZÉ TYLE FICOU PELADO NO FILME PORNÔ DE DONA MACARRÃO É dezembro de 1988 e vou com o André tirar carteira de trabalho em algum lugar em Santo Amaro, perto do Largo 13. Pagamos propina a um sujeito para furarmos a fila. Compramos as carteiras de plástico que ele vende. O sujeito, que se chama Zé da Carteirinha, é estrábico e insiste no discurso de que “é trabalhador” e que aquilo é o “ganha pão” dele. Passamos num açougue e compramos um quilo de carne de segunda como parte da propina. O açougueiro faz um comentário racista e pretensamente engraçado sobre o Zé da Carteirinha. Zé diz para voltarmos lá no lugar em uma hora para pegarmos as carteiras. André e eu vamos matar o tempo no Cemitério de Santo Amaro, que fica ali próximo. Faz um dia de sol forte e ar abafado. Observo a foto de um sujeito de bigode pregada num túmulo, um sujeito que nasceu em 1945 e morreu em 1984.

NA VILA CAIÇARA, EM 1986 Dona Macarrão (ou dona Francisca) reclama com um vizinho, o Correinha, que rabiscaram na porta dela a inscrição René e Cíntia. Cíntia é filha desse vizinho, portanto é provável, etc., etc. Correinha e a mulher, a Bete, passam a hostilizar a dona Macarrão. (Dona Macarrão é uma dessas velhotas de origem italiana que, à medida que envelhecem, vão ficando cada vez mais parecidas com a Etty Fraser. Ela sofre de insônia e sempre tenta dormir ouvindo Richard Clayderman.) Um outro vizinho, o seu Zé, afirma que a Naná viu o René e a Cíntia no quintal da dona Macarrão. (Naná é prostituta e é parecida com o Moe, dos Três Patetas.) Correinha e Bete revidam dizendo que o seu Zé vai morrer com cirrose e que a Naná vai morrer com aids na boceta.

NA VILA CAIÇARA, EM JANEIRO DE 1988 Férias na praia e não para de chover. Passamos mais tempo do que deveríamos dentro de casa, vendo TV, uma TV em preto e branco com a recepção de sinal precária,  cheia de chuviscos. De certa forma compensamos isso, o tempo ruim, etc., etc., trocando o dia pela noite. Vamos dormir todo dia quando já amanheceu. Consequentemente, temos acordado sempre depois de uma da tarde. Passamos as madrugadas falando obsessivamente sobre assombrações, fantasmas, fenômenos sobrenaturais. Essas conversas invariavelmente deixam um ambiente pesado, sobrecarregado, astralmente espesso. Combinamos de não puxar mais esse tipo de conversa, mas o assunto sempre acaba retornando e se impondo, meio que à nossa revelia.

MORTOS EPPUR SI MUOVE Vamos ao lançamento do filme Aids na boceta, dirigido por Francisca Clayderman (ou Dona Macarrão). O lançamento é no Cine Caiçara, que hoje-futuramente é-será uma IURD. A estrela do filme é a Naná que se parece com o Moe, creditada como Nazaré Vitale. O press release mandado aos jornais tem o aviso: “Atenção, feirantes: prestigiem essa obra cinematográfica, pois ela foi produzida por dois colegas de vocês, o Toninho e o Valdecir” (v. A 5ª. dimensão do sexo, direção de José Mojica Marins, 1984”). Atores coadjuvantes de Aids na boceta: Gorete de Pig, seu Heitor, Correinha, seu Zé, seu Zé dos óculos com lentes verdes. Participação especial da dupla Torresminho e Pururuca, psicografados pela médium, feirante e atriz pornô com escoliose L. Helena Frei Galvão.  

DAVI MIRANDA EXPULSANDO O DEMÔNIO DO CIGARRO, A “CHUPETA DO CAPETA” (Elton cagou o fígado na chupeta do capeta de Vovó Mafalda. Nanci Cueca botou mau-olhado na chupeta do capeta de Blacula. Victor Buono passou caca de nariz na chupeta do capeta de Liberace. Décio Piccinini jogou pó de pemba na chupeta do capeta de Ananias. Tia Odete deu chicotada na chupeta do capeta de Correinha.) 

https://youtu.be/fwynFqroNPM?si=6wliMvkmpu_6_ejO

Doo-doo-bee-doo-wah.

19/07/2026