ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUVIDORIA Bem aéreo, Sereialarm, 2014. 

https://youtu.be/RytgK39iYKY?si=bo0iYxNsyw1pylI_

(Marcos Andrada é um músico extraordinário e uma figura das mais interessantes. Ouçam o disco e vejam o filme, o tocante documentário sobre ele chamado Incógnito, de 2016.)

https://youtu.be/7XQaaY1KrBE?si=F9jUdgLnK_1cXLw1

COMANDO DA MADRUGADA EM: MORTOS EPPUR SI MUOVE DANDO UM GIRO NA VILA CAIÇARA, EM 1986/2026 Estou sentado na escadaria do cinema. Sei que em algum lugar atrás de mim está escrito, cinema, uma boa diversão. Embora o cinema tenha virado uma IURD em algum momento na década de 1990, ele, o cinema, continua existindo em simultaneidade com a igreja. Assim como continua existindo o terreno baldio que havia aqui antes da construção do cinema. Assim como isso tudo é simultâneo, isso tudo coincide com o prédio residencial que houve-há-haverá aqui nessa esquina em 2336 (v. “A persistência da memória ou: a desistência da memória, de Alzira Alzheimer”). André foi até a banca do hippie dos dentes podres comprar cigarros. Quando ele e Julinho voltam, decidimos ir caminhando até nosso pedaço pela Rua São Domingos. A madrugada está fria e límpida e ouço vindo de algum lugar o apito do vigia noturno. Algumas casas aqui da São Domingos foram demolidas, eppur persistem: a casa que parecia um aquário e que tinha um brasão de Portugal pregado na parede da sala; a casa que misturava arquitetura jeca-mocoronga com aqueles ornamentos de Brasília-1960 que parecem uns bacalhaus esticados; a casa toda feita com azulejos, que parecia um centro espírita misturado com velório; a casa do ator Francisco Di Franco. Passamos por algo que talvez seja um despacho de macumba ou apenas lixo, um aglomerado que mistura cachaça, farofa e um conjunto de sofá e poltronas caindo aos pedaços (v. “Exu Cadeira e as Poltronas Amestradas”). André acende um cigarro e diz que essa tralhaiada velha aí nem o seu Salvador ia querer.

OS COLEGA (SIC) DA FIRRRMA Um bairro de São Paulo que aparecia nos guias de ruas antigos como Água Podre. (Ha, ha.) Deve se chamar hoje Boulevard Eau Pourrie. O Eudes mora lá, num apartamento terraço gourmet com churrasqueira, onde ele fica fumando vape e vendo num espelho se sua harmonização facial ficou realmente boa. 

SORTEIO Dona Annunziata ou Velha de Bigode colou chiclete no boneco de vodu de Sandro Vodu. Carneirinho Exorcista cagou nas calças na cadeira elétrica de Sok. Seu Heitor passou com o trator na boca de fumo de Correinha. Gorda Cica rifou o cachorro louco de Dona Macarrão. Elton virou lobisomem no filme pornô de tio Nardo. Salviano foi torturado na sessão espírita de Gordo Maionese. Espanhol Maluco ficou com medo da Kombi do Japa Bronzeado que Joga Tênis. Mandruvinha bateu com a raquete de espantar mosquito na assombração de Pipoca.

1982 Um amigo da família, um oficial do Exército que provavelmente opera em alguma estrutura semioficial, paralela, em que se promiscuem Estado, negócios e redes pessoais de proteção mútua, em suma, uma criatura típica de 1982, fim de ditadura mas ainda ditadura, está contando a história de um professor de caratê, amigo dele, que furou a lataria de um Fusca com um soco. Apesar de a história ser absurda e de esse nosso amigo militar ser obviamente um narrador não confiável, nos deixamos levar pelo fascínio que ele exerce. Estamos em 1982 (v. fita Scotch Dynarange 90) e sabemos que não há por que sermos prevenidos, já que estamos todos (eu tu ele nós vós eles) no mesmo barco e na mesma lona. 

24/07/2026