ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

INVERNO, CARLOS GERBASE, 1983 Werner Schünemann é um jornalista recém-formado que não consegue emprego em jornal e vai trabalhar numa deprimente imobiliária. Sofre as pressões que rapazes de vinte e poucos anos sempre sofrem, o pai pergunta se ele já pagou o aluguel, ele diz que vai pagar dia dez (v. Dia Dez, personagem de Hilda Hilst), o pai insiste, ó lá, hem?, não vá atrasar, eu sou seu fiador, aliás, por que você não tenta arrumar outro emprego?, por que você escolheu estudar jornalismo?, por que você não faz outra faculdade?, etc., etc. A namorada de Werner, Luciene Adami (aos dezessete anos e já extraordinária atriz), é aquele tipo que só corta o namorado, nada está bom, o livro que ele indica, O Caso Morel, de Rubem Fonseca, é chato, aquele filme que eles viram ela já nem lembra, os discos que ele traz são sempre baixo astral, o signo astrológico dele qual-é-mesmo?, o rapaz da turma de quem ele não gosta é exatamente aquele com quem Luciene simpatiza, etc., etc. Os dois vão passar um fim de semana na praia, em Imbé (lugar pouco alterado em mais de quarenta anos, vejo pelo Google Street View), Luciene reclama de tudo, do frio, da paisagem, do fato de eles terem ido com o carro dela. Ao mesmo tempo, ela não larga o osso. Werner tenta outras garotas, escreve uma carta para uma ex que está morando em Montevidéu, mas nada de concreto acontece. Corre o ano de 1982 e, como prisioneiros do tempo que somos, longe demais das capitais, não há muito o que podemos fazer além de vermos na TV a novela Sétimo sentido, irmos ao cinema assistir ao filme que está em cartaz, passarmos o dia no sofá, dormitando, abrindo os olhos e vendo no rádio-relógio que se passaram mais duas horas, fechando os olhos de novo. Porto Alegre às vezes tem uma luminosidade prateada que parece desmaterializar tudo (v. William Shakespeare dizendo que somos feitos da mesma matéria que os sonhos). Mas tem também manhãs de domingo chuvosas, ordinárias, sem transcendência alguma, em que caminhamos de volta a nosso predinho velho de três andares com nossa namorada que reclama de tudo e, bem, é isso aí, pe-pessoal. Temos só vinte e três anos e a maioria das palavras finais sobre as coisas ainda não foram ditas para nós. 

31 DE DEZEMBRO DE 1982 Estou sentado num dos bancos do pátio e está mais ou menos perto da meia-noite. André está comigo. Apenas nosso apartamento e o sessenta e dois, do Jaime e da Beatriz, estão com as luzes acesas. Ninguém fica em São Paulo no réveillon. Ao menos, ninguém fica em casa. Todo mundo vai para clubes. Para a casa de parentes. A ceia de réveillon. O peru da ceia. O arroz com passas que a Dirce faz para a ceia de réveillon.  Todo mundo vestido de branco, para atrair boas energias. Que tudo se realize no ano que vai nascer. Etc., etc. Só nós estamos em casa. Bem, nem todo mundo está agora curtindo o réveillon numa festa bacana cheia de gente vestida de branco. O Ezequiel, o vigia noturno, está ali na portaria, trabalhando, espremido numa guarita de dois por dois, ouvindo no rádio o programa ou do Zé Béttio ou do Osvaldo Bettio. São Paulo tem o quê? Dez, quinze mil condomínios? Então temos aí uns quinze mil vigias noturnos trabalhando agora, ouvindo o Zé Béttio, vendo a mulherada subir pras festas nos apartamentos com aquelas roupas brancas que dá pra ver a calcinha minúscula enfiada no rabo. (Ezequiel disse outro dia pro André que gosta de mulher loira de peito duro.) Etc., etc. Sim, poderíamos estar numa festa. Não fomos para a ceia da tia Neca porque meu pai tem fobia de sair de carro na noite de ano novo. Muito acidente, muita gente bêbada dirigindo. O.k., uma precaução razoável. Mas isso não atenua nossa sensação de desolação. Todo mundo se divertindo e nós chupando o dedo, aqui, na Rua Tabapuã, Itaim Bibi, São Paulo, Brasil, América do Sul, Terra, Via Láctea, universo, um deles (v. Eros, o deus do amor, Walter Hugo Khouri, 1981). (Na verdade a desolação vai para muito além de qualquer frustração infantil pontual, não ir à festa, não ganhar o carrinho de controle remoto de Natal, buááá, buááá. Um mundo inteiro está desmoronando e eu e o André já começamos a perceber. Temos, agora, além da irmandade, a cumplicidade irrevogável dos que sabem que estão atravessando juntos, e sem mais ninguém, uma catástrofe.) Olhamos para cima e falamos de antigos moradores do prédio. O dentista, pai da Valquíria, que tinha o Dodge Dart e o VW TL, carro do qual André morria de medo. Falamos da Cláudia e da Carla, que moravam no cinquenta e dois. Da vez que a Carla bebeu água de privada e a mãe dela, a Imaculada, lhe deu uma surra. Rimos recontando essa história. Carla era namorada do André, Cláudia era minha namorada. Carla bebendo água de privada com uma seringa. Nós contando pra Imaculada. Imaculada batendo na Carla com chinelo. Imaculada, Sertório, Cláudia e Carla. Imaculada e Sertório se separaram, ele voltou para o Rio, Imaculada e as meninas foram para Três Rios. Troquei cartas um tempo com a Cláudia. É verdade que seu pai perdeu o emprego? Imaculada sempre com bobs nos cabelos e sempre falando sobre pratarias, baixelas de prata, etc., etc. Eles saíram quando aqui do prédio? 1977? 1978? Por aí. Estamos aqui desde 1976. Hoje é o último dia de 1982. Estamos rindo, agora, da história de uma menina que apanhou da mãe porque bebeu água de privada (v. “Ride, ridentes!, derride, derridentes!”). O futuro é vórtex. Foda-se o ano novo. E que 1983 vá pra puta que pariu. 

22/09/2026