ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUVIDORIA O estrangeiro, Caetano Veloso, 1989. O pintor Paul Gauguin amou a Baía de Guanabara, etc., Caetano soa como Deus falando através de um megafone (alguém disse isso sobre John Lennon em A day in the life, etc., etc.). O álbum (“álbum dela é cacófato”) é quase uma coautoria entre Caetano, Arto Lindsay e Peter Scherer.

(Ouvi muito, numa época já bem remota, uma música dos Ambitious Lovers, Quasi you. A música é bem legal e também é um ensaio dos timbres/ruídos que Lindsay/Scherer usaram depois em O estrangeiro.)

A propósito:

https://apartamentoseduardohaak.blogspot.com/2018/07/na-pompeia-em-1991.html

 

SHARON MITCHELL Sharon Mitchell é talvez a atriz mais bonita da história do cinema pornô. Até o pescoço da Sharon é lindo.

JONI MITCHELL Deixo-me infiltrar pela calidez de Joni Mitchell cantando Edith and the kingpin, acompanhada por um supertime de músicos (Lyle Mays, Pat Metheny, Jaco Pastorius), num show ocorrido em Santa Bárbara, Califórnia, 1979. Se existisse máquina do tempo, de vez em quando eu passaria umas temporadas em 1979. 

1982 Eu, André e Julinho Safardana, o dono do túmulo mais brega do Brasil, vamos dar umas voltas por 1982 num Chevrolet Comodoro 1980, verde, placa UZ-6869. Ouvimos durante o passeio uma fita com as seguintes músicas: I ran, Flock of a Seagulls, Let me go, Heaven 17, Too shy, Kajagoogoo, Situation, Yazoo, Airwaves, Thomas Dolby, Der kommissar, Falco, Rock the casbah, The Clash, Steppin’ out, Joe Jackson. 

CLUBE DE CAMPO DO (VINAGRE) CASTELO Clubes de campo são anacrônicos, como são anacrônicos as listas telefônicas e os cinzeiros. Suas paisagens são melancólicas. Talvez pela presença da represa (Guarapiranga, no caso) não há como não pressentir que aquilo tudo, aquela beleza toda, é uma ambiência sobretudo lodosa. As amplidões do clube de campo e sua emulação de natureza são frustrantes, assim como é frustrante seu ideal de exclusividade, de mundo à parte. Suas possibilidades de socialização entre iguais são duvidosas. Seu ideal de lazer é frágil e, usando mais uma vez a palavra, anacrônico – esportividade de final de semana, cinquentões barrigudos jogando tênis e golfe, outros às voltas com atividades náuticas. E, sobretudo, escandalosamente anacrônica é a ideia de elegância que clubes de campo buscavam personificar.

BLECAUTE SALVA NEWTON CRUZ DA CADEIRA ELÉTRICA Foi uma chamada de primeira página do extinto (e cada vez mais extinto) tabloide humorístico O Planeta Diário. Hilária para quem já andava por esse vale de lágrimas em abril-maio de 1984, a chamada hoje exige notas de rodapé para ser minimamente compreendida. Sob a chamada estava a foto de um indivíduo afrodescendente com os cabelos alisados que parecia mas não era (Denorex, etc.) o sambista Blecaute (apelido alusivo à escuridão de sua pele, etc.). Blecaute (cantor) aludia ao blecaute (pane no fornecimento de energia elétrica) então recentemente ocorrido, em 18 de abril de 1984, na região sudeste do Brasil, blecaute que imaginariamente salvou o general Newton Cruz (um dos generais mais bufões e cascas-grossas da ditadura) de uma imaginária execução numa bzzzzz cadeira elétrica.

Doo-doo-bee-doo-wah.

29/01/2026


ALÔ, ALÔ, MARCIANO, por Eduardo Haak

ELI, ELIS, ELISA, ELISÂNGELA, ETC. Dou uma ouvida em alguns álbuns da Elis Regina. Procuro o que tem Caxangá. É o de 1977. Depois ouço o de 1980. Gosto desse álbum. Nova estação, apesar da letra esperançosa, da pregação bicho grilo alto astral, aliás característica das composições de Thomas Roth e Luiz Guedes, é uma canção das mais interessantes. Sobre as interpretações de Elis para o pessoal do Clube da Esquina, Vento de maio talvez seja a versão definitiva da música, Trem azul é o.k. e O medo de amar é o medo de ser livre é uma catástrofe. No mais, gostar desse álbum não significa que eu consiga ouvi-lo inteiro.

DISCO EXCELENTE QUE NÃO DÁ PRA OUVIR Loveless, My Bloody Valentine, 1991. As canções são ótimas, mas aquela coisa de deixar o som ultrassaturado e ultracomprimido não dá pé.

MORTE E VIDA SEVERINA A quem estais carregando, irmãos das almas?, Chico Buarque e João Cabral de Melo Neto, tem a maior pegada gótica, pós-punk, a começar por aquela coisa ao mesmo tempo arcaica e moderna típica do modalismo que estrutura a música. Da abertura, a quem estais carregando, até o verso essa foi morte matada numa emboscada, a musica fica indo e vindo entre os modos E frígio e D frígio. De o que guardava a emboscada até tinha uns hectares de terra o modo é D dórico. De mas que roças ele tinha até queria mais espalhar-se a coisa vai e vem entre os modos G dórico e D dórico.

ITAIM-BIBI A Faria Lima terminava pouco depois do cruzamento com a Cidade Jardim. O dali-pra-frente foi inaugurado só em 1995. Mais ou menos onde hoje está o Banco do Brasil funcionou por bastante tempo uma loja da Levi’s. Não sei até quando. Talvez meados dos anos 1980. Na fachada da loja havia uma maçã coberta por uma calça jeans. A maçã era alusiva a um derrière feminino.       

LUTERO LUIZ PERDEU O DEDO NO VENTILADOR NO FUZILAMENTO DE WILZA CARLA Dias Gomes era um comunista de boa cepa, nada a ver com a bestialidade analfabeta da esquerda contemporânea. Lulu Gouveia (Lutero Luiz), dentista e vereador de oposição (PT) em Sucupira, era, à sua maneira, tão pilantra quanto Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo). Neco Pedreira (Carlos Eduardo Dolabella), editor-chefe de A trombeta (jornal nanico de esquerda ou, nas palavras de Odorico, imprensa canhotista, calunista, vermelhoide moscoventa, etc.), divertia-se um bocado com Odorico, dizendo que Sucupira perderia totalmente a graça se o coroné deixasse de ser prefeito. (Bestialidade analfabeta também define o grosso da direita contemporânea, dominada pelos Eudes, os colega da firrrma, lá em São Bernarrrdo, etc., etc.)

TEM SEMPRE UM AIATOLÁ PRA ATOLAR ALÁ Pepe Escobar diz no canal Pepe Café que os atos de violência contra os manifestantes no Irã não foram cometidos pela Guarda Revolucionária, mas sim por gente do Estado Islâmico que se infiltrou por lá. Sempre ouço com interesse o que o Pepe tem a dizer (ele tem tiradas ótimas, Trump é o Neocalígula, a Europa é o Otanistão), mas sempre que ouço o Pepe parece que estou lendo uma página meio delirante de algum livro do Thomas Pynchon.

JUST BEFORE THE WAR WITH THE ESKIMOS Trump vai anexar a Groenlândia. A Rússia não só não dá um pio como ainda quase elogia, dizendo que vai ser um feito histórico. Sei lá. Isso não soa meio Molotov/Ribbentrop pra vocês, não?  

PIADAS DO SÉCULO PASSADO Como é que é aids em japonês? Cukimata. E em paraibês? Bichinho da porra. Qual a diferença entre a aids e o Lada (carro soviético de grande sucesso no Brasil nos anos 1990)? A aids você consegue passar pra frente.

Etc., etc.   

21/01/2026


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

OUVIDORIA Love like a blood, do Killing Joke. The rainbow, do Talk Talk. Synaesthesia, de Chris & Cosey.

COSEY FANNI TUTTI Artista multimeios inglesa. Nos anos 1970 fez performances em galerias sérias exibindo seus absorventes íntimos usados. Protagonizou, como atriz, vários filmes pornôs, não por necessidade de sustentar vício em drogas ou qualquer desgraça do tipo, mas como extensão de seu trabalho artístico, aquela coisa de questionar o papel da mulher, etc., etc., coisa que na época era um pouco menos clichê do que é hoje. Dos anos 1980 para cá concentrou seu trabalho em música, tendo sido pioneira nos gêneros industrial e trance. Cosey era/é uma mulher linda, totalmente meu número. Com ela eu casava.

ARQUEOLOGIA Um lugar no Itaim-Bibi chamado Espaço Off, Rua Romilda Maria Gabriel, quase na Nove de Julho. Em 1987 dava um baita prestígio (prestígio underground, entenda-se) para qualquer banda tocar lá. (O Vultos, Marcos Andrada, “incógnito”, tem um bootleg gravado no Off.) Parece que o imóvel (sobreloja num prédio de apartamentos) abrigou antes uma boate de veados (v. Dercy Gonçalves, “...de boate de veado, olha só que f.d.p.!”) chamada Rolf Club (v. Jaime Segal e tio Rolf, “Vocês vão comer maionese e dançar rock’n’roll”). 

EPPUR SI MUOVE OU: NA ETERNIDADE COMETEREMOS VARIAÇÕES DAS CAGADAS QUE COMETEMOS NO TEMPO OU: A FARSA SE REPETE COMO HISTÓRIA Noitada sensacional no Espaço Retrô, lugar na Frederico Abranches que foi demolido em 1993 e que, no entanto, continua lá. Vimos, eu e o Julinho Safardana (o André preferiu ir ao Mercado Car ver se achava um retentor de borracha), o espetáculo Tá mais é certo, tinha mais é que passar fogo naquela vagabunda, da dupla Doca & Ângela, espetáculo que mistura música, performance e reconstituição de cena de crime. Etc., etc. Depois, apresentação do novo grupo de Adoniram Barbosa, o Trem das Onze Almas do Joelma, formado por ele e pelas tais treze almas que ficaram presas no elevador e que morreram tostadas lá, no incêndio, só que não faria sentido dizer trem das treze, etc., etc. 

(O André anda me devendo uma visita. Já falei pra ele não aparecer como assombração, porque assombrações assombram, não tem jeito, então seria legal ele aparecer num daqueles sonhos lúcidos que você diz, cara, acho que isso não foi só sonho, etc., etc. Já sugeri os lugares: a pizzaria O Forno, um lugar que existiu entre 1965 e 1996 na Rua Joaquim Floriano, 261. Ou a Pizzaria Ari, na Rua Tabapuã onde hoje tem o prédio da CIEE. Ou o casarão do Clube de Campo do Castelo, aonde levaríamos amendoins, cervejas, cigarros John Player Special naquelas embalagens cilíndricas com cem cigarros que as pessoas compravam no Paraguai. Aí ficaríamos lá, conversando longamente, eu contando as boas novas, o Salviano fez implante capilar, deve tá boniiiiito, né?, ele me contando as boas novas, o tio Alaor é um velho meio escamoso, mas é gente fina, a vó Rosa continua com aquela coisa de falar com a televisão, de domingo quase sempre vamos almoçar na casa da tia Emma, a casa mesmo, lá no Guarujá, sim, na eternidade nada se perde e temos a posse plena e simultânea de tudo que o tempo produziu, as Scarpinis todas presentes, a vó Maria sempre enchendo o saco do vô Haak, controlando os cigarros dele, aí ele sempre vem me pedir cigarro e a gente vai até o morrinho lá atrás da casa pra fumar e ele sempre diz, a Maria é uma chata, estou morto desde 1975 e ela ainda com essa coisa de controlar meus cigarros, etc., etc.)     

COM FRAGMENTOS TAIS FOI QUE ESCOREI MINHAS RUÍNAS, ETC., ETC. Ainda sei o telefone de um colega do Gracinha de quem eu nem era tão próximo, 70-1009. Pelo prefixo é Vila Mariana. Um dia estava levando a Olívia à Cultura Inglesa da Madre Cabrini e passamos por uma casa que eu cismei que era a casa desse colega, fui uma vez a uma festa de aniversário dele, em 1979, sei a data porque meu tio que morreu de câncer na Av. Iraí, 300, estava internado e meus pais foram visitá-lo antes de irem me buscar na festa.

QUANDO O VOLTAIRE DE SOUZA NÃO ERA UM CUZÃO PAUTADO PELA ESQUERDA Um texto em que Voltaire fala que fulano, na vida, é um Corcel 75. Outro em que o general Castelo Branco sai de um disco voador e diz para um pinguço parar de beber.

Etc., etc.

13/01/2026 


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

NA ETERNIDADE TEREMOS A POSSE PLENA E SIMULTÂNEA DE TODAS AS CAGADAS QUE FIZEMOS NO TEMPO Um determinado tempo, uma determinada época, só tem caráter (zeitgeist) e densidade ontológica por causa do peso maciço e compressivo do real, com todos seus contrastes radicais entre possibilidades e impossibilidades, com todos seus riscos e ameaças, com todo o passado que ainda age sobre todo e qualquer presente. Portanto, um determinado ano (digamos que 1982) que visitamos, que atravessamos como habitantes do eterno (na eternidade temos a posse plena e simultânea de tudo que o tempo produziu, etc.), esse ano não será propriamente 1982, pois não será experimentado com o risco existencial que pesava sobre todo ser humano que de fato estava em 1982.

NA ETERNIDADE TEREMOS A POSSE PLENA E SIMULTÂNEA DE TODAS AS CAGADAS QUE FIZEMOS NO TEMPO O caráter de um tempo na verdade é obscurecido e distorcido pelo peso maciço e compressivo do real. O que há de verdadeiro num determinado tempo (1982) é aquilo que momentaneamente escapa da opacidade opressiva das necessidades desse real (nec cedere) e que vemos momentaneamente em vislumbres. A memória fixa justamente essas partes, as de fato ontologicamente significativas de uma época. Na eternidade, portanto, veremos pela primeira vez um determinado tempo (1982, digamos) em sua plenitude, veremos como uma promessa cumprida, realizada, algo que quando estávamos no 1982 temporal apenas vislumbramos brevemente como promessa, promessa apontada para nossa plenitude futura.

OUVIDORIA Morton Feldman Early Piano Works, Steffen Schleiermacher, 2003.

OS BRUTALISTAS TAMBÉM AMAM Entro pela primeira vez no Edifício e Galeria Califórnia, Rua Barão de Itapetininga, 255. O prédio é do Niemayer e tem um mosaico de Cândido Portinari na recepção. Os conjuntos comerciais são amplos, com chão de taco e pilotis visíveis. Gosto cada vez mais de arquitetura brutalista (o prédio não é brutalista), aquela coisa de concreto, ferro e vidro, os ditos materiais não burgueses, como dizia o panaca do Le Corbusier (ou o panaca do Mies Van der Rohe).

GERSON CONRAD De arrepiar os cabelos as coisas que Gerson Conrad, Secos e Molhados, diz sobre o João Ricardo e especialmente sobre o pai dele, João Apolinário, no podcast do Clemente Magalhães, Papo com Clê. Vejam e tirem suas conclusões. (v. “Comunista come criancinha e mente que tinha cabelo no prato pra sair sem pagar a conta”.)

MÓ DA HORA SUA TATOO Nas quintas-feiras de 2004 as pessoas iam à Funhouse, Rua Bela Cintra, 567, mostrar as tatuagens que tinham feito. A casa tinha algum carisma e uma certa insalubridade que lhe dava ares de CBGB. Tatuagem estava no auge do hype. Pressinto que a subcultura tatoo (v. “O avião, senhor Roarke, o avião!”) esteja meio fossilizada. Qualquer estúdio de tatuagem me dá a sensação de que voltei vinte anos no tempo.

SURFWEAR Uma carteira Primo, marrom, de náilon, que ganhei de Natal da minha avó Ida. Dentro da carteira havia uma nota de cinco mil cruzeiros, efígie do Castelo Branco. Minha avó sempre dava uns presentes legais, elaborados, etc., etc.

EPPUR SI MUOVE Muito bacana a festa de réveillon no Edifício Joelma, a 2026 vai pegar fogo! (Como todos sabem, eu, Eduardo Haak, morri em 2007.) Estavam lá: Júlio Barroso, o Safardana, meu irmão André, Marcílio Múmia Paralítica e todo um grande elenco de assombrações assombrosas.   

PIADAS DO SÉCULO PASSADO Aquela que o Costinha conta do sujeito que fica importunando uma mulher no ônibus, dou dois mil cruzeiros, etc., etc.

02/01/2026


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

NÃO SOLTAM AS TIRAS E NÃO TÊM CHEIRO Fernandinha Bochechas Eróticas faz uma propaganda dos chinelos Havaianas (“não soltam as tiras e não têm cheiro”). Aos sessenta anos e fazendo toda aquela ioga ela deve ter pouca gordura na região do derrière. Ainda assim, consigo conceber uma fantasia erótica em que dou umas chineladas na patroa com a Fernandinha, fazendo a Havaiana estalar, plaft!, em seu traseiro.

GUERRA E PAZ, FRANGO NA BRASA, ETC., ETC. Uma musiquinha estúpida e pervertida do Ennio Morricone que toca no trailer de O agente secreto, glockenspiel, bateria e coro infantil.

PASCAL QUIGNARD, ÓDIO À MÚSICA Quignard faz uma crítica moral ao fenômeno da música que pra mim chove no molhado. Concordo que a música não é inocente, mas há inocentes? (No one is innocent, Sex Pistols feat. Ronnie Biggs.) No fundo Quignard pensa na música em termos de utilitarismo social, pessoal, etc., etc. (O que levado ao extremo chega naquela coisa ridícula de achar que ouvir Mozart cura câncer ou que ouvir Beethoven aumenta o QI.)

JORGE LUIS BORGES Releio Ficções, que havia lido uma única vez, em 1996, e acho chato. Tento ler O livro dos seres imaginários, mas não rola. Meu livro favorito de Borges é O livro de areia. Meu conto preferido dele talvez seja O imortal, que abre O Aleph, que também é um livro bem-bom.

WESLEY DUKE LEE Continuo achando o Wesley uma grande figura, o cara que eu queria ser quando crescesse quando eu tinha dezessete anos, etc., etc. Mas venho implicando com ele como artista. Wesley é muito parecido com o Robert Rauschenberg. Tenho a suspeita de que ele só se destacou tanto na época (início dos anos 1960) porque não havia aqui no Brasil ninguém com a formação específica que ele tinha (ter sido assistente do Karl Plattner e ter estudado publicidade nos EUA). Era o dândi recém-chegado de Nova York que ia ensinar pros mocorongos uga-ugas o novo caminho das pedras no mundo das artes visuais. Muita porcaria que anda por aí em bienais é descendente direta de Wesley.

MULHERES QUE EU NÃO PEGARIA NEM A PAU A Björk, que além de feia pra burro parece personagem de mangá de terror do Junji Ito.

ZEITGEIST Expressões dos anos 1980. Quando uma mulher até que bonita dava para um cara medonho dizia-se, mulher que dá pra um cara desses só pode ter raiva da b... (v. “Viciado em c...”, David Cardoso, 1984). Colocar peruca no Kojac como sinônimo de fazer sexo. 

Etc., etc. 

A VIDA COMO ELA ERA “E desde quando comunista leva o pai ao médico? Comunista corta a carótida do pai com caco de Brahma Chopp.” (Nelson Rodrigues, lá por 1965.)

É TARDE, EU JÁ VOU INDO, PRECISO IR EMBORA Se eu não postar mais nada esse ano, um feliz 2027 para todos, porque 2026 (Copa do Mundo, eleição presidencial e torcidinha na Vila Madalena para o Wagner Moura levar o Oscar), uau, 2026 já era.

(Quero mais é que o Brasil seja desclassificado logo na primeira fase da Copa, que leve um oito a zero do Haiti, deixando o italiano lá com a maior cara de bunda; na eleição votarei nulo; O agente secreto é Aquarius 2 ou: much ado about nothing.)    

26/12/2025


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

TOCANDO PIANO E BAIXANDO O SANTO Ouço pela primeira vez o álbum Dark intervals, do Keith Jarrett, 1988. Vou conferi-lo por causa da faixa Parallels, que ouvi numa postagem do Rick Beato e que, assim, de orelhada, me pareceu razoavelmente promissora. Contudo, como em tudo que o Keith Jarrett faz, Parallels também fracassa. A coisa começa interessante, vibrante até, Keith explorando algum território modal, fazendo contrapontos com jeitão de J. S. Bach. Mas a música não se desenvolve. Começa a acumular entulho sonoro até que desaba. Música que não se desenvolve não é demérito quando o não desenvolvimento é uma estética assumida e conscientizada, como no caso do minimalismo. Mas Jarrett não é minimalista, é apenas um maximalista repetitivo que se repete por não saber pra onde ir. Não tem intimidade com o universo eminentemente sonoro (altura, duração, timbre, intensidade), como compositores não desenvolvimentistas como Morton Feldman e, vá lá, John Cage, demonstram ter. É mais um fenômeno sociológico do que musical. Suas performances tocando piano e baixando o santo, seus gemidos orgásticos, sua liberdade de expressão (v. Menudo, “não se reprima, mate sua prima, com estricnina”) parecem ir ao encontro dos anseios estéticos e existenciais daquelas pessoas, hum, como é que eu poderia dizer?, ah, sei lá, aquelas pessoas, jornalistas, publicitários, maconheiros, tomadores de ayahuasca, eleitores do PT e do PSOL, praticantes relapsos de ioga, frequentadores de mostras de cinema, etc., etc.      

DESCEU À MANSÃO DOS MORTOS, ETC., ETC. Revejo Filme demência, Carlos Reichenbach, 1986. O mergulho na madrugada empreendido pelo personagem do Ênio Gonçalves, dono de uma fábrica de cigarros que faliu, é análogo às incursões pela madrugada de Tom Cruise em Eyes wide shut e de Griffin Dunne em After hours, incursões que remetem ao arquétipo descida aos infernos. As mulheres no filme, exceto uma menina lá que é uma alegoria da elevação espiritual a que Ênio parece se encaminhar, são todas harpias ninfomaníacas (v. Agosto, Rubem Fonseca), umas piores, outras menos piores – Imara Reis (gostosíssima, aliás), a esposa que pede o divórcio quando o cara quebra, Alvamar Taddei, a piranha profissional mancomunada com achacadores profissionais, umas outras lá, uma ex-amante e uma garota para quem ele dá carona, essas depravadas sem maiores ambições, senão a de manter a vida e suas substâncias no nível mais pedestre possível. Sou apaixonado por esse filme e nunca vou me cansar de revê-lo.     

EXU CADEIRA E AS POLTRONAS AMESTRADAS O único cara de banda realmente gente fina com quem tive oportunidade de conversar foi o Falcão, dos Excomungados. Lá por 1990 ele dava aula de História no Colégio Avanço, na Rua Santa Justina (equivalente paulistano do Pinheirão, Hilário de Gouveia, Copacabana). Falcão era uma figura realmente punk, meio parecido com o Didi Mocó, com vários dentes faltando, falando de marxismo de maneira muito séria, sem qualquer traço da histeria lacradora que poucos anos depois, sabe-se lá por que, dominou a militância de esquerda. Gostei dele. Passo décadas sem me lembrar do Falcão até que ontem me lembro. Vou procurar no YouTube a música dos Excomungados que fala do acidente da Union Carbide em Bhopal, Índia, 1984, Union Carbide dá amostra grátis pra dois mil na Índia. Vejo que a banda lançou um disco em 1990 e que lá estão todos seus greatest hits, Union Carbide, Vida de operário, Louco é você que tá querendo me internar, etc., etc. São bem engraçadas as letras. E Falcão canta com aquela voz de Exu sendo exorcizado pelo missionário Davi Miranda, que é a mesma voz do cara do Olho Seco, você devia de proibir a migração do povão (ops!), que pelo jeito é o jeito paulistano punk de cantar, Ed Sullivan e Massadas apresenta, Exu Cadeira e as Poltronas Amestradas.

PIADAS DO SÉCULO PASSADO Aquela lá que o Costinha conta do português da quitanda que diz pras duas bichinhas que ele só vende três bananas, etc., etc. 

12/12/2025


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

HOJE NA SESSÃO ESPÍRITA DA TARDE... CURTINDO A MORTE ADOIDADO Vamos a uma sessão espírita na Rua Iguatemi, 347, Itaim-Bibi, telefone 282-6909 (v. Borrão Federal falando, com boquinha de federal, “as joias do cofre”). Em 2025, tempo sucessivo e linear, a casa não mais existe como ente separado, tendo sido fundida a um desses restaurantes para os Eudes (“os colega da firrrma”, “lá em São Bernarrrdo”, etc.) da segunda divisão da Faria Lima. Mas na eternidade, em que temos a posse plena e simultânea de tudo que foi produzido pelo tempo (v. William Blake & As Mercenárias, “a eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo”), a casa da Iguatemi continua-sendo/é-e-sempre-será em sua plenitude, sendo por isso indissolúvel, e acessível, e adentrável. Etc., etc. Chegamos lá à meia-noite, a hora que apavora a Borrão Federal (v. Borrão Federal Reserve Note dizendo que só fala com o gerente, só cuida de milhões). Meu tio que morreu em 1979 na Av. Iraí, 300 nos recebe. Ele fala e gesticula através de um boneco mecânico que o Júlio Barroso Safardana roubou do ator Vincent Price (Doctor Phibes Clockwork Wizards). Júlio pergunta a meu tio clockwork quando vai chegar o médium. Depois pergunta quando vão chegar o báixum e o áltum. Etc., etc.

RUA IGUATEMI, 347 Depois que minha família vendeu a casa, ela abrigou um restaurante (1980-82), uma academia (Centro Iguatemi de Musculação, 1983-85), uma casa noturna gótica (Zóster, 1986-87), uma clínica de abortos (“Clínica Herodes – Promoção Black Friday – Faça três abortos pelo preço de dois!”), alguns salões de beleza.

“AH, OS ANOS OITENTA, A INOCÊNCIA DAQUELE TEMPO”, ETC., ETC. A história da empregada doméstica que dava pra todo mundo num prédio no Itaim-Bibi (v. Promiscuidade, os Pivetes de Kátia, Fauzi Mansur, 1983), empregada doméstica (v. A,mé,ri,ca, triiiiiiim) que, dada a conduta, acabou ficando grávida, impossível saber de quem, e que a garotada-rapaziada-velharada toda do prédio, todos potencialmente pais da criança, fizeram uma vaquinha e pagaram seu aborto. (Sugeriram até fazer um bingo beneficente no salão de festas do prédio pra levantar a grana, mas perceberam que a coisa não ia pegar exatamente bem.)    

SUPER-HOMEM CASCATEIRO, SÓ FAZ FORÇA NO BANHEIRO Um paranormal que atendia no Tatuapé, na Rua Cantagalo, no início dos anos 1990. O seu Washington. Meu irmão André fez umas sessões de energização com ele. O cara era aquela mistura típica de paranormal com charlatão gabola. Havia uma pedra verde lá no consultório do seu Washington que ele dizia ser uma safira de três mil quilates, um presente que havia ganhado do presidente do México por ter curado a filha do sujeito de um câncer, etc., etc.

ESQUERDISTA TEM MAIS É QUE SE FODER, DIREITISTA TEM MAIS É QUE TOMAR NO CU A cultura woke, o denuncismo, os cancelamentos, a condenação de humoristas em processos criminais, etc., etc., tudo isso evidentemente deu incontáveis vitórias táticas à esquerda. Por outro lado, lhe impingiu uma imensa derrota estratégica, que foi conceder à direita o papel de “defensora da liberdade de opinião”. No plano simbólico e imaginário, senão no prático, o esquerdista virou o canalha mesquinho pronto pra ferrar com sua vida por causa de uma ironia não entendida como tal. E o direitista virou o guardião de tudo de bom que a vida tem a oferecer, coisas como contar impunemente piadas de veados, portugas, kid creole and the coconuts, etc., etc.   

VERITATIS SPLENDOR Um amigo me fala de um amigo que andava circulando de SUV Volvo, todo mundo pensando que o sujeito estava montado na nota, mas que, bah, na verdade o sujeito está quebrado, devendo até as cuecas, que as parcelas do financiamento do carro estão atrasadas, que a coisa certamente vai terminar em busca e apreensão. Como dizia o Paulo Francis, acho ultra Xangai alguém pagar X (sei lá, duzentos, trezentos mil reais) por um automóvel. 

Oh yeah. Etc., etc.

28/11/2025


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

MORTOS EPPUR SI MOUVE Estou com o André e com o Júlio Safardana no IML Leste, Arthur Alvim, quase ao lado do estádio do Corinthians (v. Rita Lee Jones sendo ameaçada de morte depois que disse, pouco antes da Copa de 2014, que Itaquera era na casa do caíra-lho, etc., etc.). Estamos jogando baralho com São Pedro, experimentando pijamas de madeira e comendo capim pela raiz, digamos assim. (Júlio morreu em 1984, eu em 2007 e André morreu hoje.) Temos umas formalidades burocráticas a cumprir, aqui, no 65º. DP: vamos adulterar um documento do IML, dizendo que é para a funerária enviar o cadáver do André para o Cemitério Municipal de Sucupira, na Bahia, aos cuidados do prefeito Odorico Paraguaçu. Etc., etc. Entramos na sala de necropsia, em cuja porta há a advertência de risco biológico. Abrimos a geladeira e puxamos o André pra fora. Júlio Safardana diz, tá até que bonito, hem, Tigrão?, considerando a queda de 35 m, a desaceleração brusca a 97 km/h, o impacto. André observa o próprio corpo com interesse e até mesmo com perceptível empolgação.

SERIA BOÉCIO NA VERDADE UM BEÓCIO? Na eternidade o que percebíamos como tempo passamos a perceber como espaço. Por exemplo, 1982. Mil novecentos e oitenta e dois é uma somatória infinita de espaços ocupados por outdoors, Fiats 147 e aparelhos de walkman. E revistas pornográficas como Fiesta, Club e Internacional. E palitos de picolé. (O mais minúsculo ente-que-foi na verdade continua-e-continuará sendo, indefinidamente.) Estacionamos o Diplomata 1981 do André na Rua Carla e vamos, eu, ele e o Júlio Safardana, andando até o Penthouse Club, um relax for men que existia-existe em 1982, entre a Congregação Cristã e a Escola Amoreco (onde professoras lésbicas puniam-punem os meninos que fazem cocô nas calças obrigando-os a tomar banho na frente de todo mundo e a vestir calcinha). Pra tirar ranço de delegacia, IML, funerária, nada como um bom relax for men oitentista (v. “Chico Regulador Xavier Um-Dois revela: universo não foi criado por Deus, mas por Walter Hugo Khouri”).

ESQUERDISTA TEM MAIS É QUE ENTRAR NO PAU O establishment acadêmico esquerdista precisava de um Jorge Luis Borges pra chamar de seu e arranjou o Julio Cortázar, que não passa de um sub Borges hypado e politicamente insuspeito.

DIREITISTA TEM MAIS É QUE ENTRAR NO PAU Uns pés de chinelo aí que se dizem monarquistas e que não passam de puxa-sacos de sacos que sequer existem.

FILME PORNÔ QUE NÃO EXISTE, MAS QUE DEVERIA EXISTIR Adaptação do romance Spanking the maid, de Robert Coover, para um filme pornô hardcore. Estrelado por Nikola Tesla e Frida Khalo, o filme é uma série de esquetes em que Tesla pune sua empregada doméstica, Frida Khalo (v. Physique du rolê de cu é rolê), lhe aplicando choques elétricos de corrente alternada na busanfa.

SORTEIO Seu Reginaldo ficou contando piada racista no bueiro da irmã Maria José. Chanel comeu merda na carroça de Francisco Cuoco. Stella passou caca de nariz na caveira de Bicelli. Zezinha perdeu a dentadura na orgia de Zé do Caixão. Salviano jogou pó de pemba na boca de fumo de Décio Piccinini. 

FALOU E DISSE, BICHO “Lucidez não tem partido”, T. W. Adorno. 

15/11/2025


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

EMPREGADA DOMÉSTICA PRESA NO RALO DA COZINHA, ETC. Estou com o Júlio Barroso, o safardana, e com meu irmão André com seu visual o lado irônico de Dave Berg. Júlio usa uma camiseta com a frase Tá tudo sacal? Se encha de Seconal. André fuma seu cachimbo Hardcastle’s, tabaco Capitain Logan (que ele diz que tem gosto de macarrão). Estamos no Baby-o (Rua Joaquim Floriano, 140, Itaim-Bibi), matando tempo, art. 121, etc. Disseram que a Dete, a empregada da tia Gylka, está presa no ralo da cozinha há três dias e precisamos ir lá verificar. Digo para o chapeiro Sombrancelha (sic) que o Júlio e meu irmão são, respectivamente, campeão e vice-campeão de salto de bungee jumping sem corda. Etc., etc. Saímos do Baby-O, pegamos o carro, o Maverick 1974 do meu pai, placa FY-3379, e paramos na Rua Iguatemi. A casa da minha tia Gylka e do meu tio Gim está com as luzes todas apagadas. Abrimos o portão e vamos até o fundo da casa, passando pelos carros, o Opala SS e o Ford LTD. O portão para o quintal está aberto e a porta da cozinha também. Entramos. Vó Lalá está sentada à mesa, comendo macarrão gelado. Ela saúda o André com um oooi, Machão, tudo bem? Explicamos que viemos verificar se a Dete está mesmo presa dentro do ralo da pia. Vó Lalá diz que sim, que faz três dias e que ninguém consegue tirá-la. Julinho Safardana acende uma lanterna e aponta pro ralo. E não é que é mesmo?, diz ele. Vou olhar e vejo a Dete, na verdade só os dentes dela (v. “As crianças têm uma desvairada imaginação óptica”, Nelson Rodrigues). Analisamos, eu, André e Júlio, qual a maneira mais prática de tirar a Dete do ralo, se arrancando a grelha ou desmontando o sifão. Etc., etc.

A DIREITA É UMA BOSTA Tudo que vi do Brasil Paralelo achei péssimo. Coisa de mocorongo que ouviu o Olavo de Carvalho dizer que eles, os mocorongos, iriam restaurar a alta cultura no Brasil e eles, os mocorongos, acreditaram.

A ESQUERDA É UMA MERDA Maria Ribeiro falando sobre o cometa não sei das quantas e enaltecendo o aconchego do lar, os filhos, uma boa série de TV, isso tudo é um pet scan da típica mulherzinha de esquerda em 2025, índio quer apito e a consumidora de produtos pet cruelty-free quer novela da Globo, mas com diversidade, beijo lésbico, maconha, etc., etc. Esquerda não é um viés político, mas toda uma cultura, todo um sistema de símbolos, toda uma gramática de pertencimentos, quase tudo muito ruim, middlebrow, feito pras Marias Ribeiros e suas cabeças ocas acharem que estão contribuindo para um mundo melhor, etc., etc.

TÁ TUDO SACAL? SE ENCHA DE SECONAL Gosto do Lô Borges. Quando minha filha tinha alguns meses eu costumava lhe dar mamadeira ouvindo o então recém-lançado Feira moderna. Bailei algumas vezes com a Olívia bebê ouvindo a versão de Lô para A página do relâmpago elétrico. Etc., etc. Belezinha, belezura, eu só não entendi direito como o Lô morreu. Intoxicação medicamentosa? Tipo, ele confundiu Rivotril com jujuba e foi comendo, uma atrás da outra, enquanto maratonava alguma série de TV?

CAPAS DA PLAYBOY QUE NÃO EXISTIRAM, MAS QUE DEVERIAM TER EXISTIDO Maria Ribeiro, em janeiro de 2007. A despeito de qualquer coisa, Maria tem um bocão sensacional e é isso que interessa. Certo? (V. Canhotinha de Ouro no comercial do Vila Rica.)

PIADAS DO SÉCULO PASSADO Aquela que o Costinha conta do português que ia se casar e perguntou pra noiva se ela era virgem, aí a moça usou uma pele de salsicha pra enganar o português, etc., etc. 

04/11/2025


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

EPPUR SI MOUVE, ETC. Desço a Augusta com o Júlio “Safardana” Barroso e com meu irmão André, sentido Baixo Augusta. Julinho está com sua camiseta Deus prefere os suicidas, frase do Nelson Rodrigues, André está com o visual Jece Valadão 1979, camisa com uma estampa chuva de meteoros, calça branca, bolsa capanga. Júlio sacode o relógio na direção de uns tipos mal encarados, aê seus pés de chinelo, vêm cá roubar, vêm, é um Vacheron Constantin, legítimo, não é coisa de camelô, a velha brincadeira dele. Chegamos ao Vagão Plaza, Jacinto Figueira Jr. está na porta, a mulher dele é dona da casa, Jacinto tem ficado ali meio como hostess, pegou mal a notícia de que ele andava numa pior, tocando realejo na esquina pra tirar uns trocados, etc., etc. Entramos, pegamos uma mesa, umas mulheres chegam junto, as três mais ou menos bonitas, uma delas faz um comentário sobre a camiseta do Júlio, diz que também cometeu suicídio, que bebeu refrigerante com Composto 1080 no feriado de Corpus Christi de 1985, ela diz isso, mas acho que está mentindo, está dizendo só pra jogar charme pra cima do Júlio, observo o rosto da mulher e percebo que ela se parece um pouco o Lair Ribeiro e penso que deve ser chato ser mulher e ser parecida com o Lair Ribeiro.

EU TENHO UMA GRANDE ARTE: EU FIRO DURAMENTE AQUELES QUE ME FEREM “No que me concerne, você pode limpar a bunda com eles” é o que responde o anão José Zakkai quando Peter Mandrake lhe diz que está com os cadernos do Thales Lima Prado, em A grande arte, Rubem Fonseca, 1983. Quem fica estarrecido com o PCC infiltrado na Faria Lima é porque não leu o livro do Rubem – lançado há quarenta e dois anos –, uma velha aristocracia/alta burguesia do eixo Rio/São Paulo que está falida, que se associa a bandidos da pesada pra se capitalizar e viver no bem-bom só mais um pouco, bandidos da pesada cujo negócio é “tóxico e putaria, coisas que dão muito dinheiro nesse país esfuziante”, tudo isso por trás de uma holding de empresas de fachada, tudo não rastreável, tudo indeslindável, tudo dominado.  

RUSH Ouço pela primeira vez um disco do Rush, o Power windows, de 1985, depois o Grace under pressure, de 1984, procurando uma música que ouvi na Kiss FM, que eu reconheci que era Rush por causa da voz do cara de fuinha lá, esqueci o nome dele, uma “voz de Mickey Mouse depois de respirar gás hélio” como alguém já definiu. A música é Red sector A e parece mesmo o U2, tive a impressão quando ouvi no rádio. Esses discos de 84/85 não são propriamente ruins ou desagradáveis de ouvir, mas tudo neles é derivativo, tudo parece algo, remete a algo, o Alex Lifeson ora imita o The Edge, ora imita o Andy Summers, o Neil Peart imita o tempo todo o Phil Collins imitando Stewart Copeland, fazendo sempre a mesma virada, insistentemente, parecendo um baterista iniciante que finalmente conseguiu dominar uma técnica difícil e fica lá, repetindo a coisa, repetindo, repetindo, só pra se mostrar.

ONTOLOGIA, EPISTEMOLOGIA, ETC. O homem não tem estatuto ontológico próprio, foi criado por um livre ato de amor de Deus, o onipotente, o que faz o que quiser, como quiser, etc., etc. Às vezes esse papo até que cola, quando você vê uma dessas criaturas do amor de Deus que é notavelmente bela ou notavelmente talentosa. O problema é que 98% das tais das criaturas do amor etc. são uns tipos bem capengas. Não dá pra botar fé de que foram criadas pelo onipotente, e ainda por cima como um ato de amor dele (v. “Não potencializo divindade com regra de ortografia”, Millôr Fernandes). Estava pensando nisso ao observar o Luiz Tatit, do Grupo Rumo. Cidadão poderia ter sido criado por Deus como, sei lá, como o Paul Newman, belo, icônico, mas nasce como o Luiz Tatit e aquela cara de Rei Mago de encenação de quermesse. (Que merda, não?) Podia nascer com um cantor altamente expressivo e songwriter idem, mas nasce como o Luiz Tatit e sua vozinha nhém-nhém-nhém cantando suas musiquinhas medíocres pretensamente engraçadinhas (v. Carnaval do Geraldo, Grupo Rumo). Criatura do amor de Deus é o caralho.

PIADAS DO SÉCULO PASSADO Uma que o Costinha conta num dos discos, de um sujeito que cantou seis meses uma mulher até que ela cedesse, que aí ele foi beber pra comemorar e que acabou bebendo demais e ficou com o intestino desarranjado, chuvas com rajadas frescas, etc., etc.

24/10/2025


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

AILTON KRENAK PERDE CAMPEONATO DE ARCO E FLECHA PARA ESTÚPIDO CUPIDO Eu já disse e digo de novo. Enquanto não surgir um índio fortemente individualizado que escreva um Portnoy’s complaint, ridicularizando o pajé Uga-Uga como Alex Portnoy ridiculariza o rabino Re-ve-ren-ci-a-do, esse assunto – índio – vai continuar no uga-uga, se limitando a fornecer o kitsch nosso de cada dia para alimentar a cabeça oca da militância de esquerda.

HIPÓTESE O suicida, ainda que ele não quisesse isso (ao menos conscientemente), acaba se tornando uma presença-ausência acusadora aos que ficaram. (Nelson Rodrigues dizia que o suicida e a adúltera eram os dois grandes sentenciadores da humanidade.) Ela, a tal presença-ausência acusadora, força os que ficaram a recontar, por exemplo, a história familiar à luz desse infeliz desfecho. Alguns, os melhores, se empenharão nisso. Também se empenharão em não trivializar, em não tirar do gesto sacrificial (suicídio) todo peso e toda gravidade que lhe são devidas. (Esse empreendimento não só não é mórbido como, curiosamente, tem camadas e mais camadas de pura comicidade.) Outros, os piores, os medíocres, os triviais, lavarão ao mãos (v. “Com um oferecimento do Sabão Pilatos”, etc.), terceirizando as responsabilidades: ele se matou “porque estava louco”, “porque estava falido”, “porque estava dominado por espíritos obsessores”, etc., etc.

EUDES “OS COLEGA DA FIRRRMA”, PH.D. O inferno é quando a mediocridade se torna minuciosa e exigente. Atacarejo, por exemplo. Híbrido de atacado e varejo. (A expressão por si só já é horripilante.) Compra e venda de margarina e sabão em pó. Id est¸ a apoteose da mediocridade. Isso por um lado. Porque por outro o atacarejo é um universo em permanente expansão. De repente, quando a gente vai ver já há uma biblioteca de cinquenta mil volumes indispensáveis sobre o atacarejo. Pro cidadão dominar as minúcias todas dessa coisa que, essencialmente, é banal e medíocre, ele precisa fazer graduação, pós-graduação, mestrado, pós-mestrado, doutorado, pós-doutorado. Uns dez anos de estudo. No mínimo. Pra um dia vir a ser Ph.D. em... atacarejo.

CLODOVIL FICOU CONTANDO PIADA RACISTA NO BUEIRO DE FRANCISCO CUOCO Existe sempre algo meio ridículo na posse de coisas, na relação entre o sujeito possuidor e o objeto possuído. Sei lá, eu acho muito engraçado imaginar a máquina de costura da, digamos, Fátima Bernardes. A cadeira de balanço ou a furadeira elétrica de fulano. A boca de fumo daquele seu amigo carola e careta (aí entra um elemento surreal que acrescenta uma camada explicitamente humorística à coisa). E sempre tenho de me controlar para não começar a rir quando estou na fila do supermercado e vejo a pessoa que está na minha frente na fila e as coisas que ela está comprando. Um fulano parecido com o Décio Piccinini (talvez seja o próprio Décio) comprando creme dental Sorriso, detergente Limpol e manteiga Aviação sem sal. Você olha para o sujeito, depois olha para aqueles produtos todos no carrinho e percebe que alguma coisa não bate, que há uma incongruência naquilo, naquela posse ingênua, não mediada por qualquer ironia.

A ATRIZ PORNÔ MAIS BONITA DE TODOS OS TEMPOS DA ÚLTIMA SEMANA A escolhida é a Velicity Von, uma loira de cabelos curtos, americana, nascida em 1979.

“NÃO É MESMO?” (COMO DIZIA NEIDE TAUBATÉ) Você tentava ter uma conversa razoável com ela. Então ela isolava uma palavra, das muitas que você estava dizendo, se agarrava àquela palavra descontextualizada, a imantava com fortíssima carga emocional e então vinha pra cima de você, dando o revide, te atordoando, despejando sobre você uma interminável sequência de punchs e cruzados verbais, girando num loop histérico, reduzindo a nada a possibilidade de vocês terem qualquer conversa razoável.

PIADAS DO SÉCULO PASSADO Aquela do Costinha em que um português explica para o filho que Omo sexual é um sabão para lavar a boceta, etc., etc.

19/10/2025


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

GORDA ONOFRA, ETC. É 1983. Um sujeito chamado Giancarlo, mais ou menos vinte anos, nota que o André, que tem nove, é um garoto facilmente irritável (v. Fiante, Machão, etc.). Giancarlo então começa a chamar insistentemente o André de Gorda Onofra. André vai até em casa, pega um objeto perfurocortante (faca, chave de fenda, etc.) e manda avisar que se aquela coisa de Gorda Onofra continuar ele vai furar um pneu do carro do Giancarlo (um Opala bege, estilo cafajeste-1983). Etc., etc. Em 1991. Dois sujeitos, PL e Juninho (v. “Abre o portão, Porcão Melecão”), jogam uma mistura de cuspe, vinagre e milho de pipoca no André. André, com os dentes trincados, empurra uma mesa contra os dois, tentando prensá-los contra uma parede. Etc., etc. 1989. No apartamento do Duto um sujeito chamado Pé na Cova está dizendo coisas estúpidas e ofensivas contra mim (acho que tivemos um conflito por causa de mulher, não me lembro direito). André toma minhas dores (dores que não estou experimentando de forma alguma) e diz, furioso, para de ofender meu irmão, etc., etc. Depois, ao sairmos do prédio, ele para em frente ao Fusca do Pé na Cova e começa a bater violentamente com a base do pé num dos para-lamas dianteiros do carro, uma, duas, três, quatro, cinco vezes.

A MALA DO CARLÃO Na casa da minha tia Gylka, Rua Iguatemi, 347. O André meio que se apossa de uma mala preta de couro, parecida com a que o Carlão (v. “Chanel comeu merda na carroça de Francisco Cuoco”) guarda aquele monte de notas de cem cruzeiros. Quando tiram a mala dele, André diz que vai comprar uma na padaria. Em 1977.

MÚMIA PARALÍTICA Na Copa de 1978, num dia de algum jogo importante que todo mundo está vendo. André senta-se numa poltrona na entrada do prédio e fica lá, balançando (um movimento pra frente e pra trás que ele fazia com o tronco). O Marcílio, Paraná, Múmia Paralítica, interfona para casa e avisa que o André pegou no sono. Balangô, balangô e dormiu, diz o inolvidável Paraná.

EPPUR SI MUOVE Julinho Safardana vai entrevistar o Nelson Rodrigues usando uma camiseta com a frase Deus prefere os suicidas. A entrevista acontece no São João Batista, à meia noite, a hora que, segundo Machado de Assis, apavora. Julinho pergunta, com uma voz fininha de criança que baixa em centro espírita, se é verdade que a macumba pra fazer o Nelson baixar em terreiro tem só dois ingredientes, água da bica e um maço de Caporal Amarelinho. Nelson acha graça e diz que está faltando a flâmula do Fluminense na macumba. Etc., etc. Então Julinho e Nelson começam a levantar hipóteses sobre quais ingredientes devem constar na macumba pra fazer baixar certos espíritos, etc., etc. Pro Cazuza baixar o despacho deve conter cocaína, uísque e uma imagem do São Sebastião flechado. Pro André, irmão do Eduardo Haak, baixar o despacho deve conter uma caixa de Marlboro Gold, uma chave de BMW e uma Playboy da Vera Fischer. Pro Costinha baixar o despacho deve conter uma lata de laquê e uma Raspadinha da Loterj já raspada. Etc., etc.

PIADAS DO SÉCULO PASSADO QUE EU NUNCA ENTENDI Uma que o Costinha conta num de seus discos, uma que ele faz a pergunta, jacaré no seco anda?

PIADAS DO SÉCULO PASSADO Uma que o Costinha conta num de seus discos, de um sujeito que tira uma moça para dançar e quando ela se levanta ele vê que ela usa duas pernas de pau, que aí o sujeito acaba indo com a moça para o jardim da casa, que aí um bêbado vê os dois lá e comenta, vamos embora, pô, se já estão comendo carrinho de mão, cu de bêbado então, etc., etc.

15/10/2025


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

FESTA “TEM FOGO?” (FLYER COM A IMAGEM DA LILIAN LEMMERTZ ACENDENDO UM CIGARRO EM “CORPOS ARDENTES”), EDIFÍCIO JOELMA, SÁBADO ÚLTIMO A festa Tem fogo? continua bombando entre os trend setters do mundo dos mortos eppur si muove (bomba também entre os zés-ninguém, e que viva a democracia). Aqui não tem bebida adulterada com metanol, mas se o cliente entrar numas de querer provar o barato dessa modalidade alcoólica (falência renal, destruição do nervo óptico) a gente até arranja. Etc., etc. A festa agora tem um hostess, o Marcílio, ou Paraná, ou Múmia Paralítica. Grande e inolvidável figura do Itaim-Bibi de idos e decrépitos tempos, Marcílio veio do Paraná para São Paulo em 1973, fugindo de um agiota chamado Dalton Travesseiro, vulgo Vampiro de Ji-Paraná. Trabalhou entre 1976 e 1979 no meu prédio. Em 1982 foi vice-campeão num concurso de sósias da múmia paralítica. Morreu na virada do ano de 1999 para 2000, ao levar um choque numa cafeteira elétrica cuja voltagem se desregulou por causa do bug do milênio. Etc., etc. Dentre as figuras ilustres presentes nessa edição de Tem fogo? estava o inolvidável Costinha, o humorista, quando então tive a oportunidade de perguntar para ele como é que era mesmo aquela piada que no final ele dizia, ei psiu, enfia esse defunto no cu, porque eu só me lembrava dessa parte da piada. Meu irmão André, com um visual Jece Valadão 1979, fumando um Benson & Hedges mentolado atrás do outro, contou pro Julinho Safardana que uma vez abriu o esguicho que tinha no pátio do nosso prédio e encharcou o seu Marcílio. Então o Julinho teve a ideia, ei, vamos encharcar de novo a Múmia Paralítica, e foi até o hidrante do corredor dos elevadores, mas o hidrante estava desconectado, completamente seco, afinal estamos no Joelma e tradição é nosso lema. Etc., etc. Presente também na festa aquele meu tio com nome de bebida que morreu em 1979 (v. Avenida Iraí, 300). E o grande cineasta Rogério Sganzerla, que fez dois bons filmes, Bandido etc. e Mulher etc. (Copacabana mon amour e Sem essa, aranha são umas merdas.) Rogério diz que abandonou o cinema, que mudou seu nome para Cinésio (alusivo a cinema e cinzas, já que seu corpo foi cremado) e que hoje tem uma imobiliária em Joaçaba, SC. André, meu irmão, vestido de Jece Valadão 1979 e com seu inquebrantável charme de Omar Sharif,  foi embora da festa mais ou menos cedo, acompanhado de uma loirona a cara da Vera Fischer que eu não sei quem é, se alguém souber depois me conta.

AFANÁSIO JAZADJI Um programa do Afanásio de 1984 em que ele entrevista a mãe de um menor infrator, de prenome Valteir, vulgo Pelé, que matou um sujeito durante um assalto. Afanásio pergunta à mãe do menor se é verdade que ela preferia que o filho estivesse morto. A mulher diz que sim, que o filho deveria ser enterrado como um cachorro, etc., etc.

LEÃO XIV Não sei que apito toca esse papa, pouco me interessa, mas, analisando sua figura pública, benza-deus, a falta de carisma dele é espantosa.

RECORDAÇÕES DE 2020 Faço uma hora de corda, na sala, em frente a um espelho de corpo inteiro. Fiz uma playlist, músicas em 130-140 bpm. Uncle funk, versão do Eumir Deodato para Mr. Funky Samba, do Black Rio, está na playlist, embora seu bpm esteja abaixo de 120. A fonte sonora é meu telefone conectado via Bluetooth a uma dessas caixas cilíndricas da JBL. Finalizo cada período de saltos com um double under.

CAPAS DE PLAYBOY QUE NÃO EXISTIRAM, MAS QUE DEVERIAM TER EXISTIDO Djin Sganzerla, em março de 2007.

AH, O HUMOR PECULIAR DESSES DITADORES “Eu garanto liberdade de expressão, eu só não garanto a liberdade depois da expressão.” Idi Amin Dada, 1928-2003, o ditador dadaísta de (uga-uga) Uganda.

03/10/2025


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

POR ONDA ANDA A CONCIERGE DO IGUATEMI? Até meados dos anos 1990 o Iguatemi tinha uma concierge, uma velhota (coroa soa melhor?) gente boa, meio com a pinta da Shirley Valentine. A simpática senhora chegou a ser capa da Veja São Paulo. Eu ia até perguntar, por onde será que anda?, mas, sinceramente, não estou nem aí pro onde-será que a santa senhora anda ou deixa de andar.

BIOGRAFIA DO SHOPPING CENTER IGUATEMI Rogério Sganzerla rodou poucas e boas passagens de seus filmes O bandido da luz vermelha, 1968, e A mulher de todos, 1969, no Shopping Center Iguatemi, São Paulo. Em O bandido etc. há a cena em que J. B. da Silva, Pagano Sobrinho (v. “No meu governo os pobres vão ter o que mascar, vou dar chicletes a todos”), cercado de maus elementos (capangas, nazistas foragidos, etc.), sobe uma das rampas do Iguatemi, a que na época (e até 1988) margeava a Sears. Em A mulher etc. há a cena em que Ângela Carne e Osso (Helena Ignez) sobe de escada rolante chutando a canela do Flávio Asteca (Stênio Garcia), os dois saindo em frente ao que na época era uma das salas de cinema do shopping, espaço hoje ocupado pela Zeiss Vision. (O único outro filme de cinema que tem cenas que foram rodadas no Iguatemi é o S.O.S. Sex Shop, direção de Alberto Salvá, 1984.)  

BETWEEN, MY WELL Onde hoje funciona a loja da Ermenegildo Zegna, no terceiro andar do Iguatemi, já funcionou uma aconchegante (escurinha, etc.) e, quando decadente (1987, 88), embaratada lanchonete. Era o Well’s. O Well’s era do Grupo Pão de Açúcar, Abílio Diniz etc., etc.

(Ermenegildo Zegna é um nome, aliás, muito semelhante a Ermelino Matarazzo, já notaram?  “Beetween, my well”, “entre, meu bem”,  era uma gracinhola do Infausto Silva, o Infaustão, que, aliás, vem se recuperando bem pra chuchu do transplante de cu, cu esse doado por Clô para os íntimos, vil para os desafetos e dou para todos.)

ROLÊ COM O JULINHO SAFARFDANA NO LUGAR QUE NUMA ÉPOCA FOI UMA ESPÉCIE DE ANEXO DO SHOPPING IGUATEMI Vou com o Julinho Safardana ao Cal Center. Não muito tempo antes de ir morar no túmulo mais brega do Brasil, depois de despencar de uma janela na Rua Conselheiro Brotero na infáustica noite de 6 de junho de 1984, o Júlio discotecou numa casa noturna aqui no Cal Center chamada Pauliceia Desvairada. O que em 1983 era uma casa noturna que havia sucedido outra casa noturna, a Discoteca Papagaio, hoje, 2025, é um lugar incógnito, fechado com uma porta estilo daquela que aparece em Convite ao prazer, o filme do Walter Hugo Khouri, aquela porta daquele lugar onde o Roberto Maya leva a mulherada, etc., etc. O Júlio diz que provavelmente o Khouri arrendou o espaço ali e que deve andar fazendo umas surubas nele. Etc., etc. Dos lugares de antigamente aqui no Cal Center, o único que sobrou é a Lanchonete Puppy. De resto, nada. Nem vestígio das três salas de cinema (fora um cineminha fuleiro no andar térreo que só passava filmes de rock, na verdade uma saleta com uns cinquenta lugares, no máximo). Do fliperama do Bafo de Onça. Da loja da London Fog (também no térreo). Mermão, caguei pra Lanchonete Puppy ou fliperama do Bafo de Onça, vamos tocar essa campainha aí,  blin-blooonnn, tocar e já, imagina só as mulheres que o Khouri, aquele libanês safado, etc., etc., assim falou o Júlio, fazendo a campainha soar. Quando a porta foi aberta, eu quase caí pra trás com a surpresa...

DESCONVITE AO PRAZER, POR JACITO FIGUERA JUNOR Desde que lançou A execução pública, em 1976, o feinho, mas extraordinário escritor Robert Coover não fazia tanto barulho com um livro. Desconvite ao prazer, seu novo romance, narra a história de Clodovil, um homem que vai atrás dos malfeitores que roubaram seu cu para vendê-lo no mercado negro dos transplantes. Vocês roubaram aquilo que eu teria dado com prazer!, diz Clodovil ao invadir uma clínica clandestina de transplantes localizada num decadente shopping de São Paulo, clínica que usa como disfarce a fachada de uma suposta discoteca remanescente dos anos 1970, a Papagaio Hérnia de Disco Club. O livro já rendeu um processo para Coover, movido pelos herdeiros do cineasta Walter Hugo Khouri, que alegaram que o personagem Walter Hugo Cu, que na história é o chefe do esquema clandestino de venda de órgãos sexuais, é insultuoso à memória de Khouri, a despeito de ser caricatural e farsesco. O escritor Robert Cu ainda não se pronunciou a respeito.

Etc., etc.    

06/09/2025


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

RAPIDINHA COM RITA LEE Olá a todxs e todes e toddys (v. “Prefiro Toddy a tédio”). Hoje iremos – Julinho Safardana, Plínio Marcos (v. “Se Tonha fumou maconha, Tonho fumou maconho”) e eu –, hoje iremos fazer uma entrevista super-rapidinha com a perdedora do Troféu Puta Mulher Chata do Caralho, a cantora Rita Lee Jones. 

EU – E aí, Rita, como vai? Decepcionada com a derrota? E, a propósito, como anda a “vida” como morta eppur si muove?

RITA LEE – A vida-morte anda boa à beça, rapá. Voltei a fumar Marlboro, além do maconho e da maconha. E tenho ido a umas festas bacanudas, como aquela que vocês promovem mensalmente no Edifício Joelma, a Tem fogo? Sobre eu não ter ganhado (é assim mesmo, foi ganho, ter ganhado, particípio irregular) o troféu, caguei e andei. Tenho a morte inteira pela frente pra ganhar essa porra de prêmio.

BIOGRAFIA DE RITA LEE Rita Lee Jim Jones nasceu em Jonestown, na Guiana, 18 de novembro de 1978. Como era réveillon na vibrante e cosmopolita Jonestown, em vez de leite materno NAN da Nestlé a primeira bebida que Jim Jones bebeu foi champanhe. A segunda, vodca nacional com energético. E a terceira, suco de uva com cianeto.

BIOGRAFIA DE RITA LEE Rita foi reprovada dezoito vezes na prova prática para tirar carteira de motorista de disco voador. Na décima nona, ela escorregou numa notinha de cien dólares para o examinador cubano-marciano ávido por dólares, que só então a aprovou, usando os cien dólares para construir um disco voador bote inflável pra fugir de Cuba pra Miami. 

SESSÕES ESPÍRITAS Dizem que Rita Lee Jones, autora e intérprete do sucesso O ébrio, tem comparecido em espírito a inúmeras sessões espíritas, notadamente nas brincadeiras do copo, e que ela sempre reclama, beleza, o copo já está aqui, mas cadê, ic!, a garrafa?

RITA LEE AMARAL NETTO, O REPÓRTER Está dando mais que chuchu na serra o que falar a reportagem de Rita Lee sobre os despachos de macumba que têm sido feitos no túmulo da família do influenciador digital catarinense Alemão Batata Come Queijo com Barata. Alemão tem postado vídeos em que sempre aparece furioso, removendo do túmulo velas de ignição NGK, farofa-fá (v. “Comprei um quilo de farinha”, etc.), caixas de leite integral Piracanjuba, etc. Por causa disso o mein fürreca tem sido acusado de intolerância religiosa à lactose. Eu dois pra lá dois pra cá com meus botões dou total apoio ao Alemão Batata. Candomblecistas, macumbeiros e despachantes em geral: vão fazer macumba lá no túmulo da vovozinha de vocês, beleza?

ENCHEU ESSA COISA DE RITA LEE, NÃO ENCHEU? Encheu, totalmente. Minha maledicência é volúvel. Então fiquei pensando, de quem vou falar mal agora? Aí me veio a Astrid Fontenelle. Sim, falar mal da Astrid. Eu não tinha nenhuma opinião sobre a Astrid até uma vez em que ela foi fazer uma reportagem com o Zé Rodrix e o Tico Terpins, provavelmente no estúdio de jingle bells A Voz do Brasil. Uma hora lá Rodrix foi para o piano e ele e Terpins começaram a cantar Um trem passou por aqui, uma música que eles compuseram em homenagem ao Roberto Carlos: eu vou contar a história da perna que eu tinha, e que eu perdi num desastre nos trilhos da vida, etc., etc. Astrid ficou fazendo de conta que estava achando engraçadíssima a música, fingindo que estava rindo muito, quando era óbvio que não estava achando qualquer graça, mas era conveniente fingir que estava, etc., etc.

EI, DIG VERARDI: VÁ TOMAR NO CU Dig é mais um humorista não só totalmente sem graça, mas francamente irritante que cai nas graças do público de esquerda. O porquê disso, o pendor da esquerda por bolhas metidos a engraçadinhos (a começar por Ari Toledo, cria do Teatro de Arena) é algo a ser estudado pra tirar cinco na prova e passar raspando.

RITA LEE FOI PASSEAR, VINTE ANOS NAMORAR TALVEZ, ETC. Bom, pessoal, é tarde, eu já vou indo, preciso ir embora, depois eu conto o resto, ou conto porra nenhuma, vocês que vão todos pra puta que pariu, etc., etc.

31/08/2025  


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

ETC., ETC. Eu dei a dica e o Goulart de Andrade, morto eppur si mouve, pressentiu que a coisa renderia reportagem boa (v. “Mulher rendeira nega viver de renda”). A reportagem: mostrar como está atualmente o prédio do Maksoud Plaza, vulgo Caveirão, sobretudo mostrar o drive in que foi montado na garagem do hotel, o Acapulco Drive In. O Acapulco, que já é um fenômeno da noite dos mortos-vivos paulistanos, é explorado por uma dupla de velhacos, o Espirro (o espanhol do ferro-velho, aquele lá que morreu de gripe espanhola em 1919) e o José Arigó Barnabé, médium dodecafônico e escrevente-psicógrafo de cartório, além de cirurgião doutor-fritz. Então eu, o jornalista Goulart de Andrade e o cinegrafista Capeta chegamos lá e Arigó nos recebeu empunhando uma faca, uma dessas facas de cozinha mesmo, com a qual ele havia acabado de fazer uma complicadíssima cirurgia, a amputação do dedo-duro do Simonal. Etc., etc. Tombado pelo patrimônio histórico, o Caveirão Maksoud, além de abrigar o drive in, também é um conhecido ponto de venda de almas pro demônio (v. “Ibrahim Abraão vende a alma da mãe ao demônio, mas não entrega”). Fomos para a garagem pra ver como estava o movimento do drive in, então eu vi a Variant II da Vera estacionada lá. Nem precisei pensar muito pra deduzir com quem que a ninfomaníaca devia estar dentro do carro. Julinho Safardana, só podia ser. Caminhei até lá e confirmei a suspeita. Ao me ver, ele ficou branco que nem uma ambulância que acabou de sair do lava rápido. 

Bonito, hem? , eu disse, debruçando-me na janela.

Vendo ele e Vera, ali, dentro da Variant, comecei a refletir que existem dois tipos de homem, os Júlios Prestes e os Júlios que não prestam. Existem o Júlio Verne e o Júlio Verme. Etc., etc. O Julinho é meu chapa, mas é inegável que ele é um verme imprestável, essa coisa de ele ir para cima da mulher que eu ando pegando, etc., etc. Hugo Lar (ou seja, Goulart) percebeu o boi de piranha na linha (o boi não sei quem é, a piranha é a Vera) e me perguntou, gravo ou não gravo?, você decide. Eu disse, pode gravar, foda-se. Comando da madrugada apresenta: o corno da madrugada. Hugo Lar de Andrade então apertou o botão rec. Pau na máquina. 

Hoje o Comando do Seu Madruga vai mostrar uma coisa diferente. Portanto, telespectador, senta no quiabo que a coisa é de cair o cu da birúndia. O que eu vou mostrar hoje, filma aí, ô Capeta, o que eu vou mostrar hoje é uma cirurgia espiritual, um transplante, na verdade. Sabe de quê? Há, há... daqui a pouco eu conto. Quem vai receber o órgão doado é essa figura aí, conhecido de todos vocês, Infausto Silva. Não dá pra entrevistá-lo, o Infaustão, porque ele está, naturalmente, anestesiadão. O doadorzão é falecidão, mas aqui está a cédula de identidade dele, filma aqui, Capetão, conseguiu focar? Ó: sou doador de órgãos. Estão reconhecendo a foto? É, é ele mesmo. O Clodovil. Até aí, nada demais, Clodovil Hernandez, doador de órgãos. Muita gente é doadora hoje em dia. E que bom que hoje há essa conscientização. Etc., etc. O intrigante é esse complemento aqui. Conseguiu foco? Aqui, ó: sou doador de órgãos, do-cu-principalmente. (Hugo Lar de Andrade olha para a câmera e faz cara de que achou graça, etc., etc.) Isso, telespectador, isso não teria qualquer relevância, afinal, cada um dá o que tem ou o que acha conveniente dar. Mas por se tratar de uma cirurgia inédita nos anais da medicina, aqui estamos. Portanto, telesprectador, sentra no criabo pro cru não crair da brunda que hoje o Cromando do Seu Madruga vai mostrar o apresentador Infaustão recebrendo um... transprante de cuzão. (Close do doutor Fritz em transe-só-com-camisinha mediúnico, brincando de fazer mágica com o dedo-duro amputado do Simonal, quer-ver-só-eu-arrancar-meu-dedo?, etc., etc.)

17/08/2025


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

ETC., ETC. Depois de Studio 54 anos vivendo no Itaim-Fonfon e arredores, posso afirmar o seguinte, dois pontos: na vida somos todos maus atores, interpretando papeis ruins, enunciando falas horrorosas num filme sempre péssimo. (Ângela Carne e Osso confessa: “Eu batia na minha mãe”.) Minha atriz pornô preferida da semana é a Clover Baltimore e não preciso explicar por quê. Vejo alguns vídeos daquela bonitona que diz bom dia, porra. Tem alguns engraçados. Mas não dá pra ficar vendo muito, porque logo enche. 

XIDEBA Na reportagem que o Goulart de Andrade fez no Juqueri, em 1987, uma das pacientes, Mitiko, a Japonesa do Juqueri, dizia que gostava muito de xideba, filme poibido, etc. (v. “Um filme de cinema de Rogério Sganzerla.”) Outra paciente, a Dona Léa do Juqueri, natural de Teresina, PI, dizia que todo mundo era de Teresina, PI (v. “O valor do PI do Piauí é 3,14159 trilhões de dólares furados”), exceto o Paulo Maluf, aí a dona Léa dizia que não gostava do Malufo porque ele não tinha deixado nenhum tostão pros brasileiros, etc., etc.

A ORDEM DOS PRODUTOS, ETC., ETC. O certo não seria César Cerqueira em vez de Cerqueira César? (A quem não sabe, Cerqueira César é um suposto bairro em São Paulo, suposto porque eu não sei exatamente onde começa e onde termina.)

UMA NOITE NO URSO BRANCO Eu, Eduardo Haak, morto eppur si muove desde 2007, vou ao Urso Branco, na Avenida São Gabriel. O lugar foi demolido em 1996, mas isso não é impeditivo algum, antes o coloca naquela categoria de coisas cuja presença é fortemente potencializada pela ausência. Começo a conversar com uma mulher que está com um grupo de mulheres, todas voando baixo, dou corda para que ela fale bastante, noto que ela ainda tem restaurações de amálgama nos dentes, não substituídas por restaurações de resina, digo pra ela, deixa eu ver se eu acerto, você morreu em 1990, de leucemia mieloide aguda, acertei?, ela diz, nossa, gato!, como você adivinhou?, etc., etc., mulher normalmente tem pudores com esse assunto, como morreu, mas estamos no Urso Branco, um lugar onde pudor não é moeda corrente.

EI GREGÓRIO DUVIVIER: VÁ TOMAR NO CU Se você gosta dos filmes de cinema do Rogério Sganzerla (v. “O criminal maconheiro”) isso não significa que você é maconheiro e vota no PT. Mas se você gosta daquele filme que mostra o Gregório Duvivier andando pela PUC, jogando um interminável papinho numa fulana, achando que é o Woody Allen, bem, provavelmente você é petista, maconheiro e, sobretudo, um tremendo de um idiota.

FAUSTÃO RECEBE TRANSPLANTE DE CUZÃO DOADO POR CLODOVIL Fausto Silva deveria ter continuado a apresentar programas precários e receber como pagamento uns rangos legais pra ele e pra equipe fornecidos por aquelas cantinas cafonas da Rua 13 de maio. (v. “Devo quatro condomínios, mas minha glicemia está em 340”.) Seu maior erro existencial foi ter ido pra Globo.

HOW TO Fico imaginando o seguinte: um cara cisma porque cisma que quer pegar uma doença venérea, sei lá por que, pra ver como é que é, algo assim. Como é que ele faria? Sair com uma mulher de programa e pagar quatro vezes o valor pra ela fazer sem camisinha? Ainda assim,  não haveria garantia alguma de que ele iria pegar alguma coisa.

O SUJEITO COM MAIS APELIDOS QUE JÁ CONHECI Um sujeito chamado Salvatore, que também era chamado de Salviano (v. “Salve, salve, salviano.”), de Salviclei, de Porky Pig, de Porcão Melecão e de Usina Portátil.

O HOMEM DO SAPATO BRANCO Num quadro de O homem do sapato branco que foi ao ar em 1981 uma mulher oferecia uma recompensa em dinheiro para quem a ajudasse a encontrar um papagaio chamado Oscar, que havia fugido do apartamento dela, na Rua Silvia, Bela Vista, São Paulo. A mulher era secretária do empresário Marcos Lázaro e parecia realmente estar desconsolada com o desaparecimento do papagaio. Gostaria de saber se essa história teve um desfecho feliz.

14/08/2025


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

ETC., ETC. Eu e o Julinho Safardana vamos dar uma volta com a Vera na Variant II dela, que foi restaurada. Vera morreu em 1982 ao acidentar-se na Giovanni Groncchi. Furou um sinal vermelho, um Opala pegou em cheio sua lateral, politraumatismo, etc., etc. (Quando Vera levou a pancada o rádio da Variant II estava tocando Melô do Piripiri. Até onde se sabe, ela, a nova musa da Boca do Lixo/do Walter Hugo Khouri/do Necrochorume, foi a única pessoa no mundo que passou dessa pra melhor enquanto ouvia uma música da Gretchen.) A Variant II passou quarenta e três anos num ferro velho de um espanhol que morreu de gripe espanhola em 1919. O apelido do espanhol é Atchim. Sim, Atchim, que nem o anão da Branca de Neve. O ferro velho fica num terreno empepinado (briga entre herdeiros, etc.) na fronteira entre Jandira e Itapevi. Os ossos do Atchim foram exumados em 1953 e jogados no ossário coletivo do Araçá. A gente zoa muito com ele por isso: vida boa, hem, Atchim?, só na suruba, com aquelas caveirinhas todas lá (v. Cemitério dos Prazeres, Lisboa, quem foi pra Portugal perdeu o lugar, etc., etc.). Atchim não curte muito essas zoadas nossas. Quer dizer, nossas numas. O Júlio que sempre protagoniza. Diz que quando era vivo o Atchim morava num cortiço de compatriotas no Brás chamado La mierda e que, uma vez morador de cortiço, sempre morador de cortiço (já que o ossário não deixa de ser um cortiço, ou uma suruba, ou uma geral do Maracanã antes da reforma). Etc., etc. Então estamos nós três dando uma volta de Variant II e resolvemos ir dar uma espiada na Rua 25 de março e o Júlio vai com o cotovelo pra fora, janelona aberta, ótimo pra atrair ladrão, e um sujeito parecido com o ator que fazia O homem de seis milhões de dólares furados, carregando umas sacolas dos Armarinhos Fernando, faz que vai atravessar a rua, mas para porque nosso carro parece que bloqueou a passagem dele, e o Julinho diz pro cara, sacudindo o pulso, aê, pé de chinelo, não quer vir aqui roubar não?, é um Patek Philippe, autêntico, vale uns vinte mil dólares, não é coisa de camelô, não, e o sujeito segue em frente, aparentemente não entendendo as palavras e os gestos que lhe foram dirigidos, e depois o Julinho pergunta para um policial militar meio parecido com o Nasi, meio parecido com o Nelson Ned, onde é que dá pra achar cocaína mais em conta ali nas lojas da 25. Etc., etc. Então vemos o Jacinto, o Homem do Sapato Branco, lá no Largo São Bento, de periquito e realejo, como dizia o Nelson Rodrigues, ou seja, Jacintão também está na mierda, precisando tocar realejo pra tirar uns trocos pra pagar o condomínio do túmulo no Quarta Parada porque o filho de uma égua do odorico-paraguaçu de São Paulo, o ninguém-é-prefeito Ricardo Nunes, privatizou os cemitérios e os preços de tudo dispararam e o Julinho diz, altissonante, Jacintããão, só na manivela, hem?, pra defender o dólar furado nosso de cada dia (dólar furado, que é a moeda corrente entre nós, os mortos eppur si mouve, sim-sim, eu morri em 2007, Júlio em 84, Vera em 82, Jacinto em 2007 também), aí a Vera me passa um bilhetinho e abro o bilhete e está escrito nele, puta mala esse seu amigo, hem? Vamos deixar esse cara na casa dele que eu vou te levar a um lugar que você vai adorar, então largamos nosso amigo Júlio que Não Presta em frente à estação Julio Prestes, onde ele poderá brincar bastante de não quer vir aqui roubar, não, seu pé de chinelo? sacudindo o Patek Philippe na cara de indigentes de todos matizes que perambulam por ali, depois vamos lá dar uma força ao Jacinto e tiramos a sorte 250 vezes, depois Vera enfim me leva ao lugar que ela disse que eu ia adorar, um drive in que está funcionando na garagem do encerrado hotel Maksoud Plaza, drive in do qual é sócio, adivinhem quem?, sim-sim, é claro, o Atchim, o espanhol corticeiro surubeiro  (v. “Morri em 1919, mas continuo passando o ferro velho na boneca”). Bem-bem, pessoal, é tarde, eu já vou indo, preciso ir embora, na próxima eu conto tudo ou quase tudo, bye-bye.

08/08/2025


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

QUEM BATE CARTÃO NÃO VOTA EM PATRÃO, CONTRA BURGUÊS VOTE 16, ETC. Nunca tinha ouvido falar em Maria Homem. Sei lá como cheguei a um vídeo dela no Instagram. (Algoritmos, etc., etc.) Maria é uma figura enfadonha, sem charme algum, que só diz platitudes. Era mulher do Contardo Calligaris, que uns vinte anos atrás era um badalado comentador, pelo viés psicanalítico, de nossas desgraças, etc., etc. (Uma vez, lá por 2005, eu estava com a Gisela Rao no Frevo da Augusta e ela foi falar com o Contardo. Faço terapia com ele, justificou. Pensei, ingenuamente, puta que pariu, onde é que ela arranja dinheiro para pagar terapia com esse figurão? Dinheiro, dinheiro mesmo, eu sabia que a Gisela não tinha. Eu ainda não entendia como funciona a coisa do capital simbólico, não sabia que esses comunistas de merda vivem à base disso, e de rapapés, e de intermináveis trocas de favores. O que o Contardo não cobrava da Gisela Rao ele certamente compensava cobrando os tubos de alguma paciente perua burguesa idiota, porque burguês, oras, burguês tem mais é que se foder mesmo.) 

BURGUÊS TEM MAIS É QUE SE FODER MESMO, ETC. Estamos em 2017. Vou com o Roberto Bicelli, que segundo o Chacrinha é o maior poeta vivo do Brasil, e com o entourage do maior poeta vivo do Brasil ao D’Amico Piolim. Sei que o Piolim é um restaurante caro à beça, portanto vim prevenido. Na hora de pagar a conta, quase caio pra trás. Desconto de 80%. Pergunto ao Bicelli o porquê daquele desconto. Ele dá uma resposta vaga. Pergunto se é uma gentileza entre comunas, pros camaradas desconto de 90%, pra burguês deslumbrado metido a boêmio acréscimo de 300%. Bicelli não diz nem que sim, nem que não, portanto é claro que é.

WALTER HUGO KHOURI Júlio Barroso, o Safardana, antecipou sua volta ao Brasil trazendo na bagagem um monte daqueles chapéus de camponês vietnamita pra distribuir entre os amigos e um monte de bonecos de vodu para distribuir entre os inimigos (como todos sabemos, o Vietnã é a terra da religião vodu, cujo sumo sacerdote é o compositor de valsinhas e calcinhas eletroacústicas Alfredo Stroessner). Disse pro Júlio que estava saindo com uma gata que andava precisando trabalhar, que ela estava com o condomínio do túmulo no Araçá atrasado, etc. Perguntei se ele ainda tinha algum contato com o Walter Hugo Khouri, o diretor de cinema. Júlio perguntou, todo empolgadinho, quer dizer então que ela é bonita? Eu disse que era, mas que não era pro bico dele. Bonita, jovem (nascida em 1957, morta em 1982, vinte e cinco anos, portanto), fotogênica. Júlio disse que ia contatar o Khouri. Etc., etc. O fato é que ele contatou mesmo, o Khouri respondeu, a gente levou a Vera lá e o Khouri contratou-a na hora para trabalhar em cinco filmes e lhe deu um adiantamento de cinco milhões de dólares furados, que é a moeda corrente no mundo dos mortos eppur si muove. Vera pagou o condomínio atrasado, resolveu restaurar a Variant II na qual ela morreu num acidente  e anda toda empolgada com a perspectiva de vir a ser a nova musa da Boca do Lixo, ou melhor, a nova musa da Boca do Necrochorume.

Bem-bem-bem, meus camaradas, é tarde, eu já vou indo, preciso ir embora, na próxima eu conto mais, tchau.

CAOLHO DOS ARCOS, ETC. “Não procurei o Urubu, nem o Borracha, nem o Zé Pára-Lama, nem o Caolho dos Arcos, nem o Manquitola do Rio Comprido, nem o Manivela da Voluntários, nem o Belzebu dos Infernos, esqueci o automóvel e fui dormir. Pela minha imaginação desfilava um lúgubre cortejo de tipos grotescos, sujos de graxa, caolhos, pernetas, manetas, desdentados, encardidos, toda essa fauna de mecânicos improvisados que já tive de enfrentar, cuja perícia obedece apenas à instigação da curiosidade ou à inspiração do palpite, que é a mais brasileira das instituições.” (Trecho de A quem tiver carro, de Fernando Sabino.)

03/08/2025


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

AUDITÓRIO Piano piece 1952, Morton Feldman.

VOMITÓRIO Aos oito anos descobri essa palavra no dicionário. Não li suas definições e, fazendo uma analogia indevida com auditório/áudio, lugar onde as pessoas ouvem, imaginei um lugar aonde as pessoas iam chamar o Hugo, etc.

UTARIA IPIRANGA Ando pela Rua Tabapuã e olho de relance a fachada de um lugar, utaria Ipiranga, completo imaginativamente, Putaria Ipiranga, não é, é claro, é frutaria. Distraio-me imaginando se as coisas fossem chamadas por seus nomes verdadeiros, putaria, clínica de aborto, etc.

X. XXXXXX FOI TORTURADA NO MIJÔNCIO DE DOUTOR PHIBES X. Xxxxxx era uma servente do Gracinha, Escola Nossa Senhora das Graças, Rua Tabapuã, 303. A origem do nome? Um dia um colega nosso queria comprar alguma coisa na cantina da escola, estava sem dinheiro e decidiu pedir emprestado para uma das serventes lá. A servente, é óbvio, disse que não tinha e o colega nosso, todo contrariadinho, retrucou, vai regular essa mixaria, X. Xxxxxx? (Esse colega veio a ser uma figura destacada no PC do B. Comunista não presta desde pequeno, etc., etc.) 

ITAIM-BIBI, O BAIRRO QUE, SEGUNDO AQUELA CORRETORA DE IMÓVEIS GOSTOSINHA PARECIDA COM A LALA DEHEINZELIN, É PRO PESSOAL QUE “ESTÁ VOANDO” Acho ultra Eudes (“os colega da firrrma”) esse papo 2025 de que o Itaim-Bibi é um bairro só de carrões e de Faria Limers e de apartamentões absurdamente caros e de mulheres absurdamente bonitas (porque rico não casa com bagulho, etc.). Deem uma chegada no botequim do Bahia (Tabapuã entre Clodomiro e Iguatemi) qualquer hora dessas e vejam o Itaim-Bibi trash, pinguços, sujeitos barrigudos fumando Chesterfield (v. “Pega bem fumar Dallas”), mulheres feias pra danar, etc.

OZZY OSBOURNE MORDE IVAN LINS E aí, o que foi feito com o cadáver do Ozzy? Enterraram? Cremaram? Mumificaram como o Lênin? Tem essa coisa hoje em dia, essa coisa meio cuzona de que a família não informou a causa da morte, nem se divulga onde o sujeito foi comer capim pela raiz. Tem alguma motivação jurídica nisso? A propósito, onde foi enterrado o Francisco Cuoco? Deviam divulgar, pô, pras velhas noveleiras irem lá no túmulo deixar bilhetinhos com pedidos, quero uma dentadura e uma cadeira de rodas, e depois irem lá colar aquelas plaquinhas, agradeço o Francisco Cuoco pela graça alcançada.

RUBEM FONSECA A escolha, o conto que abre o livro Pequenas criaturas, lançado pelo Rubem em 2002, é a escolha que um sujeito tem de fazer entre uma dentadura e uma cadeira de rodas. O conto é soberbo. Acho-o tão absolutamente perfeito que cheguei a decorá-lo, inteirinho.

MIJÔNCIO Mijôncio é aquela privada de parede que fez o artista plástico mijão Marcel Duchamp ficar mundialmente famoso. (E que deitou jurisprudência para que qualquer picareta que não sabe desenhar nem aquele desenho de criança, casinha e solzinho sorridente no canto da folha, fique mundialmente famoso como artista plástico.)

COSTINHA, O PERÚ (SIC) DA FESTA OU: PIADAS DO SÉCULO PASSADO Aquela lá que um sujeito diz que vai dar mil fodas num picadeiro, consegue dar só novecentas e noventa e nove, é chamado de bicha pela plateia e, tentando se explicar para o enfurecido dono do circo, diz não saber o que aconteceu, já que no ensaio foi tudo tão bem, etc., etc.

29/07/2025


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

SACANAGENS E HUMILHAÇÕES NA TV DO SÍLVIO SANTOS Era o subtítulo do livro da Adelaide Carraro O passado ainda dói. Li umas páginas, procurando as sacanagens e humilhações. Não tinha nada. Adelaide fazia uma vaga denúncia de uma besteira qualquer lá seguida de um falatório interminável puxando o saco do Sílvio.

ALUCINAÇÃO É o nome de um disco do Belchior Geezer Butler, o baixista autista da banda Black Rio Sabbath. A música mais legal do disco é aquela lá, Boi com medo de avião. Etc., etc. Alucinação também é percepção sem objeto. Uma vez eu estava no Guarujá, janeiro de 1981, e vi um gordão (v. Hey gordão, Joelho de Porco) fumando o que me pareceu ser um grosso toco de carvão. Não sei como, entre aspas, soube que o tal toco de carvão fumável se chamava brota. Anos depois pesquisei se existia isso. Google, ChatGPT e Belchior me garantiram que não. Sei lá. Deve ter sido alucinação minha.

O TÚMULO QUE CHORA É outro livro da Adelaide Exame de Escarro. Esse eu não folheei. Talvez tenha comprado em 2002, 2003, todos livros da Adelaide eram vendidos a preço de banana naquele saldão que existia na Rua Augusta. A propósito de túmulos, finalmente algum mané fotografou e postou uma foto do túmulo do Sílvio Santos. Nada de bilhetinhos pedindo coisas pro SS (Shutzstaffel) nem plaquinhas dizendo agradeço o Sílvio Santos pela graça alcançada.

PERDA DE TEMPO Soube de uma banda chamada Sophia Ursinho Blau-Blau e uma Enorme Perda de Tempo. Perda de Tempo era o nome da banda que o hoje jornalista musical José Norberto Flesch teve nos anos 1980-90. O Perda do Beto Flesch inclusive abriu os dois shows que o Die Toten Hosen fez aqui em São Paulo em 1992.

JOHNNY AND THE MOONDOGS Nunca ouvi ninguém dizer isso, mas é só olhar para as capas de Rubber soul e Revolver que você vê que o Klaus Voormann fez os desenhos dos rostos de John, Paul, etc., para o Revolver a partir da foto do Rubber soul

1992 Estou parado no trânsito, na Rua Machado de Assis, Aclimação. Vim pegar meu carro numa oficina. O trânsito está assim porque a Paulista está bloqueada, os caras-pintadas estão lá, brincando de Anos rebeldes, inclusive o carro de som está tocando ininterruptamente Alergia, Alergia

Etc., etc.

CAPAS DE PLAYBOY QUE ABSURDAMENTE NÃO EXISTIRAM Betty Lago, em setembro de 1992. Toda mulher bonita tem um apogeu enquanto mulher e enquanto bonita. Sem dúvida que o de Betty foi na série Anos rebeldes, absurdamente linda dirigindo um lindo Karmann-Ghia e botando um lindo par de chifres no José Wilker com o Kadu Moliterno, o professor barbudinho-comunista de sua filha até que gostosinha, etc., etc.

HO CHI MINH, AMANHÃ VOCHÊ Julinho Safardana me manda um cartão postal de Ho Chi Minh City, no Vietnã. Diz que está levantando um grana gorda por lá (v. Wilza Carla na propaganda do Banco Safra, 1977), jogando roleta russa com o Christopher Walken e com um japa que fica gritando mao! e lhe dando bofetadas na cara o tempo todo. Eventualmente uma bala lhe atravessa o crânio, o que o obriga a ter de comprar um cérebro novo, pagar para algum neurologista meio picareta instalá-lo, etc. Diz o Safardana que lá por setembro chove? ele deve estar de volta. Sentemos e aguardemos.

(Duas figuras do Itaim-Bibi dos velhos tempos. A Maria do Lenço, vendedora ambulante de bilhetes da Loteria Federal, parecidíssima com a escultura Queenie II, do Duane Hanson. A Cacilda, vendedora ambulante de Yakult. Sim, sou do tempo em que Yakult não tinha no mercado, era vendido de porta em porta.)

 

Etc., etc.

 

20/07/1992


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

FALOU E DISSE Nós, tão cansados da opacidade de nossas vidas e sem mais nenhuma palavra furiosa para dizer, podemos simplesmente pegar um carro e sair dirigindo por aí, Steppin’out, Joe Jackson, 1982. 

OUÇO Palais de Mari, Morton Feldman, 1986.

OLAVO TEM RAZÃO, ETC. Um daqueles momentos extraordinários que redimem as coisas estúpidas que Olavo disse a partir do True outspeak (redimem se você não é um idiota que se acha muito esperto por causa de história de terra plana e adoçante de Pepsi feito com fetos humanos abortados). No vídeo Olavo discorre sobre a origem gnóstica do traço fundamental da cultura contemporânea (século XIX para cá, digamos) que é ignorar a liberdade humana como força determinante de eventos históricos. 

https://youtu.be/4oqrLyGUfU8?feature=shared

FELIZ ANO VELHO, ETC. Virou ópera do Tim Rescala o livro do Paiva. Tim Rescala? Tim Rescala é jogo duro, mermão. Quando eu era um jovem ingênuo que, hum, de certa forma até me deixava levar por estereótipos de gênios malucos (Einstein mostrando a língua, etc.), isso lá por 1988, vi um disco do Tim, achei que ele era um gênio maluco (careca de óculos, ar de nerd, etc.) e comprei o disco. O disco era uma merda. (Fui procurar o disco, na minha memória a capa mostrava o Tim com um daqueles capacetes de peão de obra, não achei. Ué, será que estou confundindo com outro?)

(Achei o disco. É a trilha de um filme chamado Por incrível que pareça, 1985, em que Rescala foi ator. A trilha não é dele. Esse b.o., portanto, não é do Tim. O filme, de qualquer forma, é péssimo.) 

VÁ SE FODER, ETC. Creio que chegamos a um nível irreversível de estupidez quando Albert Einstein, com aquela cara de cachorro que ele tinha, virou a imagem, o signo visual da genialidade. Aliás, o tremendo sucesso da cara do Einstein, sua transformação em ícone, ocorreu não porque ela sugira inteligência, vivacidade, wit, mas porque sugere um cachorro babão.

PAPAI NOEL INADIMPLENTE, NÃO ME INTERESSA, EU QUERO MEU PRESENTE Acho que fiquei bronqueado com essa coisa de Albert Einstein porque, aquelas coisas, ia mal em matemática – ir mal em matemática era um clichê de classe média dos anos 1980, como maconha, psicanálise, a cura do câncer, leia Kardec, etc. –,  um puta clima de merda em casa por causa disso, aí toca fazer aula particular, um imenso investimento de energia para tentar evitar que o Chá-Chá-Chá ficasse nervoso, etc., aí umas cogitações do tipo, ah, se eu fosse o Albert Einstein não ia ter essa encheção, ia tirar dez na prova, ia poder ir ao Mappin agora comprar a merda da guitarra Retson, porque só ganha presente de Natal se passar de ano, se repetir vai pro colégio do estado e vai trabalhar porque eu não sustento vagabundo, etc., aí, putz, ser Einstein,  bolar o e=mc ao quadrado, etc., etc., só pra passar de ano direto e comprar a tal da guitarra Retson? Não há uma, hum, tremenda desproporção nisso tudo?

É DOS CARECAS QUE ELAS GOSTAM MAIS, SOBRETUDO SE FOR UM CARECA MONTADO NA BUFUNFA, ETC. Michel Foucault estava montado na razão quando dizia que em 99% das vezes o Eudes e a Rose não falam, mas são falados pela linguagem, pelo automatismo cretino da geração de frases, etc.

Etc., etc.

16/07/2025


ALÔ, ALÔ, CHAMANDO, por Eduardo Haak

MORTOS EPPUR SI MUOVE Vou a uma festa no mezanino do Conjunto Zarvos, o lugar onde o Gabriele Tinti dispensa a namorada mala em Noite vazia. Vejo um cartão postal de propaganda que está largado sobre o balcão do bar, 1984: o grande irmão está de olho é na botique dela. Perto do balcão está uma mulher jovem, trinta anos presumidos, com quem eu acho que tive algum contato no Orkut quando estávamos vivos (eu morri em 2007, etc.). Num dos conjuntos comerciais anexos ao mezanino Alexandre Von Baumgarten e Newton Cruz autografam o livro Yellow cake (Newton prefaciou, etc., etc.). Chego à mulher, vou perguntar se foi ela que uma vez me levou pra casa dela, na Rua Vitorino Carmilo, etc., dou uma batida em seu ombro, ela se vira e olha para mim e eu começo a falar. 

https://apartamentoseduardohaak.blogspot.com/2018/07/manha.html

 

ZEIBAR’S E METROPOLIS Fui uma vez em cada. Ficavam um ao lado do outro, no final da Paulista. Diziam que eram lugares bons pra pegar mulher. E lá fui eu, no furor dos meus trinta e três anos, 2004, pegar mulher. O Zeibar’s estava vazio, exceto por um sujeito parecido com o Márcio Canuto, o repórter da Globo, que dançava com duas mulheres com pinta de pilantronas. Etc., etc. Fui para o Metropolis. Bar grande com música ao vivo. Música ao vivo sempre é um péssimo prenúncio. (Dizem que o inferno está cheio de músicos amadores. E eu acrescento que está repleto de músicos profissionais que tocam em bar.) (v. David Goodis, Atire no pianista, etc., etc.) (Uma vez só a tal da música ao vivo me impressionou bem, uma banda acústica tocando Alice in Chains no O’Malley’s, em 2008.) Encostei numa parede do Metropolis e fiquei ali, avaliando a mercadoria. O.k., tinha mulher. Quantitativamente até que o.k., qualitativamente a mesma média de sempre, num grupo de cem, duas bonitas. E a banda castigando U2 e Rolling Stones, e um gordão meio parecido com o Stepan Nercessian encharcado de suor (cocaína, etc.) que insistia em ficar dançando e esbarrando numa mesa com dois casais cafonas, até que um dos sujeitos cafonas enquadrou o Stepan doidão e o Stepan, depois de rosnar e latir um pouco, colocou o galho dentro.

EDU LOBO Tento ouvir algumas coisas do Edu Lobo enquanto faço musculação. (Pull over é um exercício para latíssimo do dorso ou para peito? O Tiozão do Fitness diz que o peitoral fica em isometria no pull over. Etc., etc.) Deixo tocar uma playlist. Sei lá, bróder. Ponteio é vibrante. Vento bravo idem. E só. Alguma coisa na maior parte das músicas de Edu Lobo não me vai. Parecem músicas do Tom Jobim que não deram certo. Arrastam-se. Depois de ouvir você não consegue se lembrar do que ouviu. (Lembro-me do episódio em que Edu Lobo e Eleazar de Carvalho se atritaram, porque o Edu Lobo queria que os músicos da orquestra que o Eleazar regia se vestissem de índios para tocar uma peça dele. Etc., etc.) 

(Pra mim o placar nesse jogo foi Eleazar um, Edu Lobo zero.) 

CORRE, COTIA Corro pela Faria Lima até a Pedroso de Morais, depois Rua Natingui, depois a escadaria da Travessa Tim Maia, depois Rua Paulistânia, depois Avenida Pompeia, depois Alfonso Bovero, depois Doutor Arnaldo, depois Oscar Freire, depois Artur de Azevedo, depois Joaquim Antunes, depois Groenlândia, depois Nove de Julho, depois São Gabriel, depois Tabapuã.

CAPAS DE PLAYBOY QUE NÃO EXISTIRAM, MAS QUE DEVERIAM TER EXISTIDO Imara Reis, em outubro de 1986. Imara era aquele tipo de mulher discretamente atraente que acaba desencadeando incêndios descontrolados em nossa libido. Duvidam? Vejam a cena em que Ênio Gonçalves corta sua camisola com uma gilete enquanto ela dorme em Filme demência, direção de Carlos Reichenbach, 1986. 

03/07/2025